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sábado, 19 de julho de 2014

“O Mistério do Samba”

por Magno Córdova


           Em 1926, foi encenado no Rio de Janeiro o primeiro espetáculo de Teatro de Revista realizado só com artistas negros. Apresentado pela Companhia Negra de Revista, chamava-se “Tudo preto”. O Teatro de Revista no Brasil caracterizou-se por levar para o palco, além dos atores, os músicos e seus instrumentos para que executassem seus números no momento da encenação. O diretor de “Tudo preto”, De Chocolat, contou com o maestro Pixinguinha no comando da trilha sonora. A boa repercussão do espetáculo chamou a atenção de dois jovens intelectuais cariocas e um outro, pernambucano, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro: Sérgio Buarque de Holanda, Prudente de Moraes Neto e Gilberto Freyre. Ficaram maravilhados com o autêntico batuque africano executado pela atriz Miss Mons durante o espetáculo. Mas o que mais impressionou ao pernambucano Gilberto Freyre foi a música de Pixinguinha. Quis conhecê-lo em uma outra situação.
Prudente de Moraes Neto tinha sido apresentado ao sambista Donga pelo poeta vanguardista francês Blaise Cendrars, um assíduo folião dos carnavais cariocas. Donga era companheiro de Pixinguinha no grupo de samba Os Oito Batutas e a ele é atribuída a controvertida autoria de “Pelo Telefone”, o primeiro registro fonográfico de um samba no Brasil. Foi através dele que se deu o encontro entre o amigo Pixinguinha e o sociólogo Freyre. Além desses intelectuais e sambistas, consta que também participou da reunião o compositor Villa-Lobos.



Aqui é possível ouvir na íntegra um disco ilustrativo do universo musical referenciado na obra "O mistério do samba", sob a batuta de Pixinguinha e destaques para Clementina de Jesus e João da Baiana (extraído do youtube).

Foi fechado um café na rua do Catete, especialmente para aquela ocasião. É possível que com este encontro tenha sido iniciado o processo que transformaria a imagem social do samba: de manifestação cassada pelas autoridades e marginalizada pelas camadas brancas da sociedade brasileira, ele se converteria no símbolo da cultura brasileira, na música nacional por excelência.

Uma indicação para leitura é o livro O Mistério do samba, de Hermano Vianna. Da Jorge Zahar Editor e Editora UFRJ. Uma parte introdutória do livro encontra-se disponível no site do google: O Mistério do samba (fragmento inicial). Resta informar que há um documentário homônimo realizado após o lançamento do livro em questão que, no entanto, não possui roteiro baseado no estudo de Vianna.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

João Pernambuco



      A música “Sons de carrilhões” é considerada a obra mais conhecida para violão realizada no Brasil. O ano de sua autoria é desconhecido. Seu autor: João Teixeira Guimarães, o João Pernambuco. 

No vídeo, "Sons de Carrilhões" por Daniel Christófaro (violão) e Guilherme Pimenta (violino).
(Vídeo retirado do Youtube)

          João Pernambuco era analfabeto. Nasceu quando o Brasil ainda era império, em 1883, numa cidade do sertão pernambucano chamada Jatobá do Brejo, cabeceira do rio Capibaribe. Órfão de pai muito cedo, trabalhou nas oficinas de carro de boi da sua cidade natal. Dos dois casamentos de sua mãe nasceram 21 filhos. 
        Quando tinha 12 anos, João foi com a família para Recife. Fazia biscates nas feiras da capital, onde acompanhou com atenção os cantadores e violeiros que ali se apresentavam. Adquiriu sua primeira viola no mercado municipal - viola que tinha pertencido àquele que viria a ser seu mestre: Cirino da Guajurema. Dividindo o tempo entre a viola e o trabalho que arranjou como aprendiz de ferreiro, João ficou em Pernambuco até os vinte e um anos de idade. Já era conhecido nas rodas de cantadores do Recife e dominava bem o ofício de desempenar eixos de carros de boi quando partiu para o Rio de Janeiro. 
        Após ter residido um período na casa de um dos irmãos, mudou-se para uma república habitada por estudantes, jogadores de futebol e músicos. Ali moravam os sambistas Donga e Pixinguinha. Em pouco tempo, João organizou o grupo Caxangá, muito popular nos carnavais cariocas da década de 1910 e que chegou a contar com 32 integrantes. João trabalhava em uma fundição e se destacava como ótimo compositor e instrumentista nas reuniões que participava se acompanhando ao violão ou à viola. Durante dois anos se apresentou como componente do famoso grupo “Os Oito Batutas”, liderado por Pixinguinha. João Pernambuco é autor de vários outros temas que se tornaram sucesso entre público, músicos populares ou eruditos. Dentre eles, “Luar do Sertão” que recebeu letra de Catulo da Paixão Cearense. 
          O “Poeta do Violão”, como ficou conhecido, faleceu em 16 de outubro de 1947.

 Aqui, foto clássica dos Oito Batutas: João Pernambuco segura o violão, no meio dos que estão sentados. 

Para se conhecer melhor a obra de João Pernambuco, uma sugestão é o disco dedicado ao compositor, lançado em 1983 pela FUNARTE, com interpretação de Antônio Adolfo e o grupo “Nó em Pingo D’água”.