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sábado, 15 de outubro de 2016

Os professores e a mídia em dois golpes de Estado no Brasil

(por Magno Córdova)

"A MPB foi a escola da minha geração" (Simone Guimarães)

Pensou-se em utilizar o seguinte subtítulo ao texto, sugerindo um traço de perfil do segundo elemento do parâmetro comparativo:

"Da hipocrisia fardada aos descarados de toga",

típico de cacoetes acadêmicos, mas sem abrir mão de certa dose de sarcasmo.

O contexto de origem é o período militar recente no Brasil. Cabe ao leitor situar o momento presente a partir do que as canções e o rápido comentário evocam, confrontados com o que esteja diante dos olhos da atualidade, de PECs e políticas descaradamente insanas.
Vamos a ele.

Em determinado momento de meu texto de dissertação, avalio duas canções. 

A primeira, de Ednardo, intitula-se "Receita da felicidade", cuja letra é a seguinte (logo abaixo o vídeo com a canção):

Ultimamente ando às vezes preocupado
Vendo a cara tão risonha das crianças
Nas fotos, nos anúncios
Nos cartazes das paredes
Dando ideia que algo vai acontecer
É receita certa pra sensibilizar
Pra esconder
Pra mentir ou pra vender
Vejo as caras tão risonhas
Tão lindinhas, tão risonhas
Nos jornais
Nas paredes, nas TVs
Eu não gosto desses dedos que me apontam
Eu não gosto dessas frases que me dizem
“O futuro deles está nas suas mãos”
Pois é, seu Zé, sei não
Não me esqueço que algum dia fui risonho
Com a carinha bonitinha pra valer
Quem guardou o meu futuro
Quem guardou o meu futuro
Quem guardou o meu futuro
Me dê.

(vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=SgR45Wa622k)

Na sequência, após rápida contextualização acerca da TV e dos meios de comunicação no Brasil dos anos 70, comento:

"Em sua canção, o compositor evoca uma imagem importada que ficara marcada como símbolo da convocação para a guerra: os dedos apontados como que a cobrar uma responsabilidade dos indivíduos na execução de campanhas perpetradas pelo Estado encontram na figura de Tio Sam o similar externo perfeito dos projetos dos militares como, por exemplo, o do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização.

E aqui ele remete ao slogan utilizado nesta campanha, só que reconstruído: em “o futuro deles está nas suas mãos” lê-se “você também é responsável”, verso da canção que embalou a campanha de implementação daquele projeto educacional e que, curiosamente, foi interpretada por dois conterrâneos seus: Dom e Ravel nasceram no estado do Ceará".

Para finalizar, então, segue a letra de "Você também é responsável" (o vídeo contendo o registro sonoro encontra-se logo em seguida):

Eu venho de campos, subúrbios e vilas,
Sonhando e cantando, chorando nas filas
Seguindo a corrente sem participar
Me falta a semente do ler e contar
Eu sou brasileiro anseio um lugar
Suplico que parem pra ouvir meu cantar:
Você também é responsável, então me ensine a escrever
Eu tenho a minha mão domável, eu sinto a sede do saber

Do saber, do saber

Eu venho de campos, tão ricos, tão lindos
Cantando e chamando. São todos bem-vindos
A nação merece maior direção. Marchemos pra luta
De lápis na mão;
Eu sou brasileiro, anseio um lugar, suplico que parem pra ouvir meu cantar:
Você também é responsável
Então me ensine a escrever
Eu tenho a minha mao domável, eu sinto a sede do saber

Do saber, do saber
Do saber, do saber

(vídeo extraído do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=G6kwbZIHZmA)

sábado, 12 de julho de 2014

Geraldo Pereira

          Por Magno Córdova


         Na década de 1940, reunia-se na praça Tiradentes, da cidade do Rio de Janeiro, um grupo de sambistas a procura de trabalho e de bebida. O nome do bar frequentado pelos sambistas era Café Carlos Gomes e tinha por proprietário um português conhecido como Alma Grande. Encontravam-se ali Arlindo Violonista, Kid Pepe, Maestro Dedé, Dino das Sete Cordas, Bide, Nelson Cavaquinho. Dentre esses compositores e músicos de samba, um se destacava por estar sempre sem dinheiro e ter vindo de Minas: Geraldo Pereira.

Geraldo Teodoro Pereira nasceu em Juiz de Fora, no ano de 1918. Somente em 1930 é que se transferiu para a cidade do Rio para morar com um irmão mais velho no morro do Santo Antônio. Para o maestro Guerra Peixe, a música de Geraldo Pereira é um dos mais importantes marcos da História do samba no Brasil, pela evidência e freqüência com que trabalha ritmos sincopados em suas composições.

Vários episódios da vida de Geraldo Pereira são controversos. Em especial, o que retrata sua morte, acontecida em 1955, na Lapa. A versão mais divulgada é a de que Geraldo havia se metido com uma prostituta protegida de Madame Satã. Madame Satã era um homossexual que defendia as prostituas da zona boêmia do Rio de Janeiro. Numa discussão com Satã, Geraldo Pereira teria levado um soco e caído, batendo com a cabeça no chão. Corria fama no local, entre a "malandragem", um tal soco com a canhota como golpe fatal desferido comumente por Madame Satã nas frequentes brigas em que se envolvia. No início da década de 1970, Satã deu um depoimento em entrevista ao jornal “O Pasquim” negando que havia batido em Geraldo.

Um outro episódio curioso se refere à música “Ministério da economia”, composta por Geraldo em 1951 e que durante o período militar do Ato Institucional número 5 (AI-5), foi vetada pelos censores da ditadura, dezessete anos depois de ter sido escrita.

Aqui, o próprio Geraldo Pereira interpreta a sua composição "Ministério da economia", feita em parceria com Arnaldo Passos, em 1951, e proibida pelos censores do governo militar brasileiro instaurado em 1964 (vídeo extraído do Youtube). 


Ministério da Economia

Seu Presidente, 
Sua Excelência mostrou que é de fato 
Agora tudo vai ficar barato
Agora o pobre já pode comer
Seu Presidente,
Pois era isso que o povo queria
O Ministério da Economia
Parece que vai resolver
Seu Presidente
Graças a Deus não vou comer mais gato
Carne de vaca no açougue é mato
Com meu amor eu já posso viver
Eu vou buscar
A minha nega pra morar comigo
Porque já vi que não há mais perigo
Ela de fome já não vai morrer
A vida estava tão difícil
Que eu mandei a minha nega bacana
Meter os peitos na cozinha da madame
Em Copacabana
Agora vou buscar a nega
Porque gosto dela pra cachorro
Os gatos é que vão dar gargalhada
De alegria lá no morro

 Dos artistas que ganharam projeção durante o período militar e gravaram canções de Geraldo Pereira ao longo da carreira,  podemos destacar Chico Buarque ("Sem compromisso"), Gal Costa ("Falsa Baiana"), Jards Macalé ("Ministério da Economia", "Bolinha de papel" e "Acertei no Milhar"), e, mais recentemente, Zizi Possi ("Escurinho") e Luiz Melodia ("Cabritada mal sucedida").        
Uma indicação para leitura é o livro Um certo Geraldo Pereira, de Alice Duarte Silva de Campos e outros, com a colaboração do sambista Nelson sargento. Uma publicação da FUNARTE, lançado em 1983.

Capa do Livro indicado ao final deste texto, lançado pela FUNARTE, reproduz uma das imagens mais conhecidas de Geraldo Pereira