("...este é o momento em que a região, antes naturalmente sedutora, se transforma numa profissional da sedução". Antônio Risério, "Uma teoria da cultura baiana"; in: O poético e o político).
No ano de 1981, o poeta e escritor José Carlos Capinam
reclamava, em depoimento ao jornalista Valdomiro Santana, da descaracterização
sofrida pela cultura popular na Bahia incentivada pela indústria do turismo.
Segundo ele, era comum na cidade de Salvador e outras cidades turísticas
daquele estado pegarem-se pessoas que sabiam cozinhar “caseiramente” deliciosos
pratos típicos da região e treiná-las para fazer churrasco ou pizza em
restaurantes que atendiam a classe média.
Sobre a perda da vocação natural do
espaço urbano como centro de convergência de idéias e convivência da criação,
Capinam apontava a tendência da Bahia em se identificar mais com o Rio de Janeiro
e São Paulo do que com as vizinhas regiões nordestinas. Era comum a cidade de
Salvador ser considerada pelo próprio povo nativo como uma colônia de férias
daqueles dois estados do sudeste, não havendo qualquer contato com Recife, João
Pessoa ou Fortaleza.
Se, por um lado, a reconquista dos valores tradicionais da
culinária baiana se intensificou nos últimos vinte anos anteriores à fala de Capinam, em outros aspectos
culturais o turismo no estado desenvolveu um aparato estrutural que lhe
permitiu certa independência e autonomia perante as outras regiões do país.
A música produzida na Bahia, em especial aquela vinculada ao carnaval local,
conquistou espaço na mídia nacional e internacional.
(com o término do grupo Novos Baianos, Moraes Moreira assumiu papel preponderante no reaquecimento do carnaval de rua da Bahia, mais ou menos no contexto em que se deu o depoimento de Capinam aqui mencionado. Seu trabalho musical pautou-se na reafirmação e retomada do prestígio dos trios elétricos, em particular o Trio Elétrico Dodô e Osmar).
Pessoal do aló
(Moraes Moreira e Antônio Risério)
Alô, Alô pessoal do alô
Vai ter auê, badauê, ebó
Chilique do cacique
No ponto chique
Atrás do cheirinho da loló
Mas qual é o pó?
Quem é do roçado
Ralando coco se dá melhor
Sou pena branca
Da zona franca
De Maceió
Vendendo peixe
Passando piche
Sou azeviche
Apache do tororó
Essa repercussão, longe de
melhorar as condições de vida das camadas populares em geral no estado,
reforçou o esvaziamento da cultura popular ali produzida ao dar destaque à
produção em massa em detrimento às manifestações folclóricas. Para Capinam, o
início desse processo de desvalorização da cultura popular se deveu a que nem
os intelectuais, representados pela universidade, nem o Estado ou a iniciativa
privada apresentaram projetos que contemplassem tais manifestações. O grande
equívoco desses setores foi terem considerado o folclore como sinônimo de
decadência cultural.
(podemos dizer que obras como a do compositor Roque Ferreira se situam entre as que recuperam, mantêm e ao mesmo tempo renovam elementos do que Capinam chama de folclore, como o samba de roda do Recôncavo. Roque surgiu para o público em fins dos anos 70. Vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=cUdUcRme-oY)
Aguadeira / Saubara
(ambas em parceria Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro)
Lá vem a aguadeira
Quer água de cheiro só
Água de cheiro só
Lá vem aguadeira
Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus
É de fibra de palmeira
A rudilha apoiada em seu anzol
Dentro da pilha dessa aguadeira
Tem água de cheiro
Que vem da ribeira
Água do itororó
Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus
Aguadeira do meu lado
Tá sambando sem receio
Se não fosse esse seu namorado
E meu amor ali no meio
Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus
Aguadeira quando samba
Meu amor não quer que eu vá olhar
É que nem lavar a roupa sem molhar
Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus
Quando ela arria o pote
Sem perder o bamboleio
É aí que seu decote revela
O botão do seio
Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus
Quando ela samba
Roda a renda de cambraia
E aparece a perna grossa
Por baixo da roda da saia
Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus
Vá no Bonfim
Que a Aguadeira tá lá
E a água além de perfumar
Carrega quebranto pesado e mágoa
E a água molha da aguadeira o camisu
Seu corpo quase fica nu
Com a água
Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus
Cira cirandeira
Pra ciranda de Sara
Êe lá em Saubára (3x)
Cira admira Sara
Sara também admira
Ciranda de Cira
Que a nada se compara
Quem é de dança delira
Se juntar Cira com Sara
E a roda a noite gira
E a ciranda lá não pára
Êe lá em Saubára (3x)
Quando é com Sara
Que Cira na cirandeira
Quando é com Cira
Que Sara saracoteia
Na volta e meia de Cira saracoteia
Na meia volta é que Sara dá volta e meia
Parece mentira mas você repara
Ninguém se retira
Ninguém se separa
Na hora que Cira ciranda com Sara
Êe lá em Saubára (3x)
Uma dica de leitura introdutória para se ter uma visão geral da produção literária e cultural baiana em parte significativa do século XX é o livro Literatura baiana 1920-1980, de Valdomiro Santana, onde se encontram depoimentos de vários escritores. O livro foi publicado pela Philobiblion em convênio com o Instituto Nacional do Livro/Fundação Nacional Pró-Memória.
Sobre o carnaval da Bahia, em particular sobre os Trios Elétricos, a leitura sugerida é O país do carnaval elétrico, de Fred de Góes, publicado pela Corrupio.
Fausto Nilo é compositor de canções, de capas de discos, de casas.
Na entrevista a seguir, ele nos conta um pouco de sua trajetória, com ênfase no campo da música - mas tocando sutilmente em sua experiência arquitetônica. Aqui publicado pela primeira vez na íntegra, este seu depoimento faz parte de acervo por mim levantado durante pesquisa realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade de Brasília, na linha de pesquisa de História Cultural. Portanto, parte do material ora tornado público foi utilizado no desenvolvimento do texto final da referida pesquisa, intitulada Rompendo as entranhas do Chão: cidade e identidade de migrantes do Ceará e do Piauí na MPB dos anos 70. Defendido em 2006, o trabalho referendou meu mestrado em História, alcançado sob orientação do professor José Walter Nunes.
Na mensagem que acompanhou as respostas ao questionário que lhe enviei, Fausto pede, humilde e delicadamente, que eu o "proteja" contra erros de digitação e gramaticais. Isso porque, segundo ele, seu tempo estava exíguo e, por isso, não se preocupara muito com questões daquela ordem de risco. Digo que quase nada editei do original e que minha intervenção mínima não compromete jamais a essência do que ele generosamente registrou e me enviou. Reitero minha eterna gratidão ao Fausto Nilo pela contribuição ao meu trabalho (a ele e a tantos outros protagonistas do meu objeto de estudo). E espero que esta iniciativa de tornar público este seu depoimento atenda a anseios de fãs, de outros pesquisadores e de curiosos (históricos e/ou novatos).
É isto.
Segue, então, a entrevista, a mim enviada em 28 de junho de 2006.
Magno Córdova: Antes de
mudar-se para Brasília, você já havia feito letras para canções de parceiros no
Ceará? Se sim, com quem? Alguma dessas canções foi registrada em disco,
posteriormente? Se não, foi em Brasília que você decidiu trabalhar com música
popular e onde você começou a compor?
Fausto Nilo: Não. Comecei
a escrever letras por volta de 1971 quando já tinha terminado minha formação em
arquitetura e residia em Brasília. Minha primeira escrita foi “Dorothy Lamour”,
porém esta não foi imediatamente musicada. A segunda letra, que de fato foi a
primeira musicada, foi “Fim do mundo”, com o Fagner. Tive também nesta época uma
letra musicada pelo Ednardo chamada “Trem do interior”.
Eu comecei a
compor quando morava em Brasília, e estas três músicas a que me referi acima
foram gravadas por Marília Medalha e Ednardo (2) respectivamente.
("Dorothy Lamour", de Fausto Nilo e Petrúcio Maia, gravada por Ednardo no LP O romance do Pavão Mysteriozo, de 1974.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=vka012NBx5Y).
Dorothy L'amour
Com amor te matei
Sereia, n'areia do cinema
Dorothy L'amour
Com ardor te adorei
O drama da primeira fila
Adorei o drama
O teu sabor azul
Estranho como a primeira
A primeira coca-cola
Era miragem
Fantasia de um mundo blues
E eu fui chorar
Na areia Dorothy L'amour
Por que sangrar
Meu nativo coração do sul
Ah eu fui naufragar
Em teus olhos de mar azul
A tua cor
O teu nome mentira azul
Tudo passou
Teu veneno teu sorriso blues
Ai, hoje eu sou
Água-viva dos mares do sul
Não quero mais chorar
Te rever Dorothy L'amour
Por que sangrar
Meu nativo coração do sul
Ah eu fui naufragar
Em teus olhos de mar azul
A tua cor
O teu nome mentira azul
Tudo passou
Teu veneno teu sorriso blues
Ai, hoje eu sou
Água-viva dos mares do sul
Não quero mais chorar
Te rever Dorothy L'amour
MC: É
possível você fazer uma rápida descrição do processo que te levou a deixar
Fortaleza e seguir para Brasília (as motivações profissionais na área de
arquitetura e/ou música)?
Fausto Nilo: A razão
principal de minha mudança de Fortaleza para Brasília foi um convite da Universidade de Brasília para lecionar. Isto ocorreu quando era recém-formado e
a faculdade de arquitetura foi reaberta, depois de anos de fechamento, por
parte dos estudantes (período da ditadura). Nesta reabertura, equipe de
professores era uma escolha que os próprios estudantes decidiam.
MC: É
freqüente, entre os protagonistas dessa experiência artística, a constatação de
que Fortaleza, na época, não comportava mais a dinâmica musical presente na
cidade. Daí, o estímulo à migração. Do ponto de vista da arquitetura, você fez
parte da primeira turma de formandos da Universidade Federal local. Como você
percebia o mercado de trabalho na capital cearense nesses dois campos, naquele
momento?
Fausto Nilo: No meu caso
pessoal, tive uma excelente abertura e oportunidade profissional como
recém-formado, com muitos projetos de residência de classe média (programa típico
da época). Com pouco tempo, isto me entediou e a chance de ir para Brasília me
parecia abrir outro espaço de experiência e dilatar o âmbito intelectual, com a
convivência de outras pessoas com outras experiências diversas da minha. Acho
que saí também, muito por razões de não suportar bem viver, nesta época, em
minha cidade, onde anteriormente tínhamos vivido descobertas com grande vibração
e alegria, a partir daí transformada em um clima acinzentado pelo chumbo da
ditadura, com muitos amigos foragidos, clandestinos, exilados e alguns já
mortos. A mudança de cenário se configurou como uma esperança de viver num
lugar com menos signos destas perdas, embora a prática tenha demonstrado tudo
ter sido apenas uma troca de cenários e personagens.
MC: Você pode
apontar alguns elementos presentes no cotidiano da cidade de Brasília que
teriam favorecido, a você e ao grupo saído do Ceará que se encaminhou para o
Distrito Federal, o desenvolvimento e/ou consolidação de uma perspectiva
profissional no campo da canção?
Fausto Nilo: Para mim
especificamente nem tanto. Isto porque eu não fazia música ainda, quando
cheguei a Brasília. Talvez tenha havido a vantagem de poder fazer minhas
primeiras tentativas estando distante do ambiente crítico de minha cidade, o que dava um pouco mais de
segurança para arriscar. Acho que Brasília me provocou um pouco a pensar em
fazer letras de música por eu ter conhecido pessoas com boa sensibilidade que
começaram a se interessar por estas primeiras tentativas. De qualquer forma, fiz
um pouco menos de meia dúzia de músicas em Brasília, mas já foi um bom começo.
MC: Em
entrevista a um jornal de Natal (Jornal Zona Sul, 2004), o compositor Rodger
Rogério afirma que Brasília foi uma espécie de “trampolim” para aqueles
migrantes saídos do Ceará desejosos de seguir uma carreira artística musical no
Rio ou São Paulo. Como você avalia essa afirmação? Qual o significado de
Brasília, naquele momento, como etapa no processo de visibilidade profissional
no campo da canção popular para migrantes saídos do Ceará?
Fausto Nilo: Creio que o Rodger
deve estar se referindo ao caso do Fagner que de Brasília prosseguiu para o Rio.
Em meu caso, eu regressei ao Ceará depois de Brasília e de lá só saí para São
Paulo e, em seguida, para o Rio, dois anos depois. Acho que algo assim
aconteceu com ele, Rodger, juntamente com Téti. Agora, creio que Brasília dava,
em roda de amigos, uma estimulante audiência para a gente cantar nas boemias com música, como se fosse um bom
treinamento.
MC: Em
determinado momento da entrevista à jornalista Bia Reis, da Rádio Nacional
de Brasília, para o programa “Memória Musical”, você reconhece o impacto
estético que as canções tropicalistas provocaram em pessoas que, como você,
queriam trabalhar com música popular no Brasil, naquela época. Há uma rápida
referência, inclusive, às implicações dessa música na própria maneira de se
conceber o ofício de arquiteto. Você considera que, em fins dos anos 60, tanto
as concepções musicais quanto as arquitetônicas, no Brasil, careciam de
renovações estéticas e que esse papel foi cumprido pelo movimento tropicalista?
Fausto Nilo: Não
propriamente o movimento tropicalista, mas um conjunto de visões inovadoras de
intelectuais do mundo todo. É a época das idéias de Marcuse, do marxismo crítico,
das primeiras obras de Umberto Eco, das descobertas de McLuhan e muitas outras
coisas além de Beatles. Estas coisas rondavam as cabeças de todos nós de faixa
de idade em vários ambientes universitários de todo o Brasil, principalmente
onde a atividade estudantil foi mais intensa e o Ceará, apesar de não ser um
centro econômico de grande importância para aquela época, foi um desses
lugares de grande efervescência intelectual dos jovens. De minha parte, relembro
que durante o período de minha formação como arquiteto, que vai de 65 até 70,
viajei todo o Brasil em trabalho, junto à Executiva Nacional de Estudantes de
Arquitetura (Eneau), que era um braço arquitetônico da UNE, e conheci em cada
cidade sempre grupos de música e canções. Muitos deles vieram depois a se
destacar na atividade.
MC: Considerando a situação de quase anonimato do letrista de canções no país,
possivelmente equiparada à visibilidade que têm (ou tinham) os arquitetos –, em
que medida sua experiência permite pensar as diferenças no alcance público
dessas duas áreas/linguagens, particularmente nos anos 70? É possível fazer um
paralelo?
Fausto Nilo: O anonimato
dos letristas sempre me pareceu charmoso. A rigor, muitas vezes, trata-se mais de
uma não identificação que propriamente um anonimato, uma vez que nossos nomes,
até certa época, eram bastante divulgados, embora a cara nunca. Isto tem um
lado bom para alguns e péssimo para outros. A mim sempre me pareceu desta
forma. Quanto ao alcance público, é diferente para canções e para arquitetura,
embora possa haver, no meu caso, um grupo de interesse que é comum.
MC: Você,
Rodger Rogério e Clodo Ferreira compuseram canções em parceria no período em que
se encontravam em São Paulo. Você se
lembra – e pode narrar – as circunstâncias em que se deu sua aproximação com
Clodo? Você tinha conhecimento do trabalho dele e dos irmãos no período em que
residiu em Brasília?
Fausto Nilo: Eu conheci os
irmãos Cli, Cle, Clô ainda em Brasília por meio do Augusto Pontes (Chico Pontes),
que era colega deles na Comunicação da UnB. Nesta época fiquei apaixonado por
uma música do Clodo num festival que houve aí. Foi esta a primeira vez que ouvi
suas músicas. Depois ficamos amigos e nos encontramos muitas vezes em várias
jornadas, em São Paulo e no Rio. Nossa canção “Barco de cristal” (Rodger. Clodo
e eu), foi feita na casa do Rodger em São Paulo, no bairro do Broocklin, numa
noite de frio, misturando inspirações díspares como “Diana", do Paul Anka e o
filme Amarcord, de Fellini. Acho que foi isso. Começamos a falar destas líricas
irresistíveis e universais quando aí começou a rolar aquele lá, lá, lá, lá ....
("Barco de cristal", de Fausto, Clodo e Rodger, gravada por Téti no lp Equatorial, de 1979. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=K_v4Tt-NpXU)
Eu vi chegar do alto-mar um barco de cristal
Trazendo na bandeira a estrela matinal
A negra noite clareou
Na luz do teu olhar
E nos vamos sair, vamos encontrar
Gente pelas ruas num riso só
Cantado a alegria do barco de cristal
Mas foi um sonho, ainda é noite
Uma alucinação
Não nem luz d'teu olhar
Nem mesmo essa canção
MC: O que
representou para você ter a primeira música gravada por Marília Medalha? Era
preciso que seus trabalhos fossem inicialmente reconhecidos por nomes já
consolidados no cenário da canção popular para que vocês ganhassem
credibilidade do público consumidor desse segmento musical?
Fausto Nilo: Para mim esta
gravação foi tudo. Embora eu tivesse o desejo de fazer letras de música, achava
muito difícil viabilizar esta atividade, por compreender que a conquista de um
espaço neste âmbito dependeria de muita determinação, coisa que eu não me
sentia disposto a empreender. Com esta gravação, nasceu o entusiasmo para
continuar e, por sorte, muitas outras começaram a surgir com Fagner, Ednardo, Rodger e Téti, etc.
MC: Você
vivenciou algum tipo de conflito relativo ao regionalismo, atribuído como traço
da canção realizada fora do eixo Rio/São Paulo, em face de uma música que fosse
nacional, como se propunha a chamada MPB?
Fausto Nilo: Meus
companheiros de canções sempre souberam que eu sempre tive uma certa reserva em
assumir uma estratégia regionalista ou mesmo caracterizar minhas letras dentro
desta visão. Não sei se por ter uma formação pessoal bastante apoiada na
audiência constante de música brasileira, desde a tradicional até a revolução
da bossa nova, nunca tive pendor para acreditar nos assuntos regionais como
base de meu trabalho como letrista e, assim, me orientei para escrever letras de
mpb. Desta maneira, na maioria das vezes escolhi temas de grande
universalidade, embora eles reflitam, naturalmente, minhas origens de uma
região brasileira bem caracterizada e às vezes caricaturada por seus próprios
artistas. Este nunca foi o meu projeto. Entretanto, dentro do grupo havia muitas
diversidades e, no meu caso, razoável independência com relação a isto.
MC: Clodo
Ferreira menciona Fellini como uma
referência, sugerida por você, no momento em que vocês dois – mais o
Rodger Rogério – compuseram a canção
“Barco de cristal”. É possível você tecer alguma consideração a esse respeito?
Fausto Nilo: Como falei
anteriormente, é verdade. Fizemos a música meio de improviso, na casa de Rodger
e Téti em são Paulo, após ter visto o filme.
MC: Os
discos Alto Falante, de Moraes Moreira, e Romance Popular, de
Nara Leão, podem ser considerados os trabalhos que consolidaram seu nome como
autor de letras de canção no Brasil? É possível comentar esses discos pelo que
representaram em termos de reconhecimento público do seu trabalho de
compositor?
Fausto Nilo: Acho que nenhum destes dois discos tiveram
repercussão em escala que me desse reconhecimento por meu trabalho como
letrista. Isto pode ser dito por várias razões: em primeiro lugar, por eu estar
ainda amadurecendo minhas propostas como letrista e depois, pelo fato de que Moraes
estava ainda saindo dos Novos Baianos e este disco não foi sucesso de venda.
Por outro lado, Nara não teve com aquele disco a receptividade correspondente à
sua escala como artista nacional e, às vezes, acho que parte de seu público e da
critica carioca não curtiu que ela cantasse um repertório predominantemente
nordestino. Recentemente, li o livro de Sérgio Cabral onde o Menescal declara
que a Nara teimou em fazer este disco contra a vontade dele, na época, diretor
da Polygram. A verdadeira história é que o Menescal implorou para que Fagner e
eu produzíssemos o disco exatamente com este tipo de repertório. De qualquer
forma, estes discos me possibilitaram gravar uma boa quantidade de músicas
concentradas em dois lps. No caso da Nara, era sua ideia fazer um disco todo
com letras minhas e eu declinei. Exatamente por achar que não estava em pleno
amadurecimento com relação a isto e terminei por apresentá-la a inúmeros
compositores, entre eles Robertinho de Recife, Clodo, Climério, Clésio, Geraldo
Azevedo e outros mais que compuseram o repertório devidamente afiançados por Fagner
e eu.
("Pedaço de canção", de Fausto e Moraes Moreira, gravada por Moraes no lp Alto Falante, de 1978. Há outras músicas assinadas por Fausto nesse lp. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=bZ4kL0cmtrQ)
Que uma canção pelo céu levaria
No véu da cidade na melhor sintonia
Todo o meu coração
Mas as frases que eu grito
Em bocas tão desiguais
São pedaços daquilo que sinto
E não canto jamais
Que eu repito
Em bocas tão desiguais
São pedaços daquilo que sinto
E não canto jamais
Portanto eu minto
No tom maior do violão
Quando pressinto
Nesse acorde menor a maior emoção
Que uma canção pelo céu levaria
No véu da cidade na melhor sintonia
No rádio do carro uma voz anuncia
O final da canção.
("Amor nas estrelas", de Fausto e Roberto de Carvalho, gravada por Nara Leão no lp Romance Popular, de 1981. Fonte: http://www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/consulta/detalhe.php?Id_Artista=AR0165)
No alto de uma montanha existe um lago azul
É lá que a lua se banha
Até amanhã de manhã me banha de luz
A solidão é um Saara que o firmamento seduz
E o céu brilha na Guanabara
E sonha só fascinação
Teu olhar me diz
Vejo a lua dizendo pro sol: eu sou tua namorada
Em meu quarto crescente é você quem brilha e me reluz
Se você vai iluminar o Japão eu fico abandonada
Num pedaço qualquer de canção na voz dessa mulher
E o sol derrama um desejo do céu nessa cama azul
Um mel na tua boca e eu te beijo
MC: Você acredita que as capas de discos são, em
algum momento, determinantes para que eles sejam consumidos pelo público? É
possível você descrever o processo de criação das capas dos discos “São Piauí”
e “Chapada do Corisco”, caso você se lembre?
Fausto Nilo: ACHO QUE AS CANÇÕES EMBALADAS DENTRO DE UM OBJETO
QUE FOI CARACTERIZADO COMO UM ÁLBUM TÊM MAIS CHANCES DE SER ATRAENTES PARA
VENDA EM CAPAS ADEQUADAS A SEU CONTEÚDO E BEM DIRIGIDAS AO PÚBLICO ESPECÍFICO
DO ARTISTA. HOJE, JÁ ACHO QUE O ÁLBUM ESTÁ EM PROCESSO DE EXTINÇÃO COM A
TENDÊNCIA EVIDENTE DE ACESSO ÀS CANÇÕES POR MEIOS TECNOLÓGICOS COMO A INTERNET, ETC. MEU PAPEL, NAQUELE PERÍODO, JUNTO AO SELO EPIC, ONDE OS DISCOS CITADOS FORAM
LANÇADOS, ERA DEFINIR CONCEITUALMENTE UM PADRÃO QUE DESSE A CARACTERÍSTICA
DESTES PRODUTOS E NISSO FUI AUXILIADO PELA PARCERIA COM UMA GRANDE ARTISTA
GRÁFICA QUE É A RUTH FREIHOF, ALÉM DA AJUDA DE FOTÓGRAFOS COMO JANUÁRIO GARCIA
E FREDERICO MENDES. (nota: mantive maiúsculas na resposta acima , conforme original)
MC: Como se
deu a ideia da parceria entre você, Nara Leão e Fagner na canção “Cli-Clê-Clô”?
Fausto Nilo: Não tenho a
lembrança exata, mas acho que a Nara timidamente mostrou a Fagner e a mim uma
canção que ela tinha iniciado, inspirada no conhecimento que ela tinha feito
dos irmãos em Brasília (ela ia muito lá, pois tinha um namorado em Brasília). De
improviso, eu e Fagner, na casa dela, completamos a segunda parte.
("Cli-Clé-Clô", única canção assinada por Nara Leão, feita em parceria com Fausto e Fagner e gravada no lp Romance Popular, de Nara, lançado em 1981. Homenagem aos irmão Ferreira [Clodo, Climério e Clésio]. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=ehIudnkJ8Ss)
Cli, eu penso em quimera
Clô, acabado, fechado
Clê, passarinho quero-quero
Cli, um claro, um clarão
Cli, clivagem, clima seco
Lua nova, a origem de tudo
Claro, clarão da lua
Pôr-do-sol, coragem, partida
Ida e volta, volta e ida
Claro, clarão do sol
Clamor, quero a vida aberta
Clê, a chave do prazer
Ciclâmen, meu bem, me chame
No céu azul pra chover
Me ame, chame o meu nome
No meio do teu prazer
Atrás de qualquer reclame
Aquela voz pode ser
Me ame, meu bem, me ame
Me espere, eu vou com você
MC: A letra
da canção “Asas de Brasília” surgiu no momento do lançamento do disco Bazar
Brasileiro? Você se considerava uma “ave da família de arribação” ou esse era
um sentimento – corrente à época – associado àqueles que habitaram a cidade de
Brasília, de uma maneira geral? Durante a década de 70, quais as cidades onde
você fixou residência?
Fausto Nilo: Esta letra,
juntamente com a melodia, surgiram em um hotel de Brasília,em um determinado
momento de uma excursão, onde eu e Moraes olhávamos a cidade pela janela. Eu
adoro a memória de meu período de Brasília (1971 e 72) e ao mesmo tempo guardo
algumas cinzas no ar da lembrança, devido ao período horrível da vida brasileira
em que vivemos ali. A ideia de ave de arribação surgiu como uma imagem que
sintetiza a forma do Plano Piloto aliada à grande atratividade que a cidade
teve nos migrantes que lá foram colocar sua pedrinha de construção.