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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Entrevista com o compositor Fausto Nilo


(por Magno Córdova)

Fausto Nilo é compositor de canções, de capas de discos, de casas.

Na entrevista a seguir, ele nos conta um pouco de sua trajetória, com ênfase no campo da música - mas tocando sutilmente em sua experiência arquitetônica. Aqui publicado pela primeira vez na íntegra, este seu depoimento faz parte de acervo por mim levantado durante pesquisa realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade de Brasília, na linha de pesquisa de História Cultural. Portanto, parte do material ora tornado público foi utilizado no desenvolvimento do texto final da referida pesquisa, intitulada Rompendo as entranhas do Chão: cidade e identidade de migrantes do Ceará e do Piauí na MPB dos anos 70. Defendido em 2006, o trabalho referendou meu mestrado em História, alcançado sob orientação do professor José Walter Nunes.

Na mensagem que acompanhou as respostas ao questionário que lhe enviei, Fausto pede, humilde e delicadamente, que eu o "proteja" contra erros de digitação e gramaticais. Isso porque, segundo ele, seu tempo estava exíguo e, por isso, não se preocupara muito com questões daquela ordem de risco. Digo que quase nada editei do original e que minha intervenção mínima não compromete jamais a essência do que ele generosamente registrou e me enviou. Reitero minha eterna gratidão ao Fausto Nilo pela contribuição ao meu trabalho (a ele e a tantos outros protagonistas do meu objeto de estudo). E espero que esta iniciativa de tornar público este seu depoimento  atenda a anseios de fãs, de outros pesquisadores e de curiosos (históricos e/ou novatos).

É isto.

Segue, então, a entrevista, a mim enviada em 28 de junho de 2006.

Magno Córdova: Antes de mudar-se para Brasília, você já havia feito letras para canções de parceiros no Ceará? Se sim, com quem? Alguma dessas canções foi registrada em disco, posteriormente? Se não, foi em Brasília que você decidiu trabalhar com música popular e onde você começou a compor?

Fausto Nilo: Não. Comecei a escrever letras por volta de 1971 quando já tinha terminado minha formação em arquitetura e residia em Brasília. Minha primeira escrita foi “Dorothy Lamour”, porém esta não foi imediatamente musicada. A segunda letra, que de fato foi a primeira musicada, foi “Fim do mundo”, com o Fagner. Tive também nesta época uma letra musicada pelo Ednardo chamada “Trem do interior”.
Eu comecei a compor quando morava em Brasília, e estas três músicas a que me referi acima foram gravadas por Marília Medalha e Ednardo (2) respectivamente.



 ("Dorothy Lamour", de Fausto Nilo e Petrúcio Maia, gravada por Ednardo no LP O romance do Pavão Mysteriozo, de 1974. 
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=vka012NBx5Y). 

Dorothy L'amour
Com amor te matei
Sereia, n'areia do cinema
Dorothy L'amour
Com ardor te adorei
O drama da primeira fila
Adorei o drama
O teu sabor azul
Estranho como a primeira
A primeira coca-cola

Era miragem
Fantasia de um mundo blues
E eu fui chorar
Na areia Dorothy L'amour
Por que sangrar
Meu nativo coração do sul
Ah eu fui naufragar
Em teus olhos de mar azul

A tua cor
O teu nome mentira azul
Tudo passou
Teu veneno teu sorriso blues
Ai, hoje eu sou
Água-viva dos mares do sul
Não quero mais chorar
Te rever Dorothy L'amour

Por que sangrar
Meu nativo coração do sul
Ah eu fui naufragar
Em teus olhos de mar azul

A tua cor
O teu nome mentira azul
Tudo passou
Teu veneno teu sorriso blues
Ai, hoje eu sou
Água-viva dos mares do sul
Não quero mais chorar
Te rever Dorothy L'amour

MC: É possível você fazer uma rápida descrição do processo que te levou a deixar Fortaleza e seguir para Brasília (as motivações profissionais na área de arquitetura e/ou música)?

Fausto Nilo: A razão principal de minha mudança de Fortaleza para Brasília foi um convite da Universidade de Brasília para lecionar. Isto ocorreu quando era recém-formado e a faculdade de arquitetura foi reaberta, depois de anos de fechamento, por parte dos estudantes (período da ditadura). Nesta reabertura, equipe de professores era uma escolha que os próprios estudantes decidiam.

MC: É freqüente, entre os protagonistas dessa experiência artística, a constatação de que Fortaleza, na época, não comportava mais a dinâmica musical presente na cidade. Daí, o estímulo à migração. Do ponto de vista da arquitetura, você fez parte da primeira turma de formandos da Universidade Federal local. Como você percebia o mercado de trabalho na capital cearense nesses dois campos, naquele momento?

Fausto Nilo: No meu caso pessoal, tive uma excelente abertura e oportunidade profissional como recém-formado, com muitos projetos de residência de classe média (programa típico da época). Com pouco tempo, isto me entediou e a chance de ir para Brasília me parecia abrir outro espaço de experiência e dilatar o âmbito intelectual, com a convivência de outras pessoas com outras experiências diversas da minha. Acho que saí também, muito por razões de não suportar bem viver, nesta época, em minha cidade, onde anteriormente tínhamos vivido descobertas com grande vibração e alegria, a partir daí transformada em um clima acinzentado pelo chumbo da ditadura, com muitos amigos foragidos, clandestinos, exilados e alguns já mortos. A mudança de cenário se configurou como uma esperança de viver num lugar com menos signos destas perdas, embora a prática tenha demonstrado tudo ter sido apenas uma troca de cenários e personagens.

MC: Você pode apontar alguns elementos presentes no cotidiano da cidade de Brasília que teriam favorecido, a você e ao grupo saído do Ceará que se encaminhou para o Distrito Federal, o desenvolvimento e/ou consolidação de uma perspectiva profissional no campo da canção?

Fausto Nilo: Para mim especificamente nem tanto. Isto porque eu não fazia música ainda, quando cheguei a Brasília. Talvez tenha havido a vantagem de poder fazer minhas primeiras tentativas estando distante do ambiente crítico de minha cidade, o que dava um pouco mais de segurança para arriscar. Acho que Brasília me provocou um pouco a pensar em fazer letras de música por eu ter conhecido pessoas com boa sensibilidade que começaram a se interessar por estas primeiras tentativas. De qualquer forma, fiz um pouco menos de meia dúzia de músicas em Brasília, mas já foi um bom começo.

MC: Em entrevista a um jornal de Natal (Jornal Zona Sul, 2004), o compositor Rodger Rogério afirma que Brasília foi uma espécie de “trampolim” para aqueles migrantes saídos do Ceará desejosos de seguir uma carreira artística musical no Rio ou São Paulo. Como você avalia essa afirmação? Qual o significado de Brasília, naquele momento, como etapa no processo de visibilidade profissional no campo da canção popular para migrantes saídos do Ceará?

Fausto Nilo: Creio que o Rodger deve estar se referindo ao caso do Fagner que de Brasília prosseguiu para o Rio. Em meu caso, eu regressei ao Ceará depois de Brasília e de lá só saí para São Paulo e, em seguida, para o Rio, dois anos depois. Acho que algo assim aconteceu com ele, Rodger, juntamente com Téti. Agora, creio que Brasília dava, em roda de amigos, uma estimulante audiência para a gente cantar nas  boemias com música, como se fosse um bom treinamento.

MC: Em determinado momento da entrevista à jornalista Bia Reis, da Rádio Nacional de Brasília, para o programa “Memória Musical”, você reconhece o impacto estético que as canções tropicalistas provocaram em pessoas que, como você, queriam trabalhar com música popular no Brasil, naquela época. Há uma rápida referência, inclusive, às implicações dessa música na própria maneira de se conceber o ofício de arquiteto. Você considera que, em fins dos anos 60, tanto as concepções musicais quanto as arquitetônicas, no Brasil, careciam de renovações estéticas e que esse papel foi cumprido pelo movimento tropicalista?

Fausto Nilo: Não propriamente o movimento tropicalista, mas um conjunto de visões inovadoras de intelectuais do mundo todo. É a época das idéias de Marcuse, do marxismo crítico, das primeiras obras de Umberto Eco, das descobertas de McLuhan e muitas outras coisas além de Beatles. Estas coisas rondavam as cabeças de todos nós de faixa de idade em vários ambientes universitários de todo o Brasil, principalmente onde a atividade estudantil foi mais intensa e o Ceará, apesar de não ser um centro econômico de grande importância para aquela época, foi um desses lugares de grande efervescência intelectual dos jovens. De minha parte, relembro que durante o período de minha formação como arquiteto, que vai de 65 até 70, viajei todo o Brasil em trabalho, junto à Executiva Nacional de Estudantes de Arquitetura (Eneau), que era um braço arquitetônico da UNE, e conheci em cada cidade sempre grupos de música e canções. Muitos deles vieram depois a se destacar na atividade.

MC: Considerando a situação de quase anonimato do letrista de canções no país, possivelmente equiparada à visibilidade que têm (ou tinham) os arquitetos –, em que medida sua experiência permite pensar as diferenças no alcance público dessas duas áreas/linguagens, particularmente nos anos 70? É possível fazer um paralelo?

Fausto Nilo: O anonimato dos letristas sempre me pareceu charmoso. A rigor, muitas vezes, trata-se mais de uma não identificação que propriamente um anonimato, uma vez que nossos nomes, até certa época, eram bastante divulgados, embora a cara nunca. Isto tem um lado bom para alguns e péssimo para outros. A mim sempre me pareceu desta forma. Quanto ao alcance público, é diferente para canções e para arquitetura, embora possa haver, no meu caso, um grupo de interesse que é comum.

MC: Você, Rodger Rogério e Clodo Ferreira compuseram canções em parceria no período em que se encontravam em São Paulo.  Você se lembra – e pode narrar – as circunstâncias em que se deu sua aproximação com Clodo? Você tinha conhecimento do trabalho dele e dos irmãos no período em que residiu em Brasília?

Fausto Nilo: Eu conheci os irmãos Cli, Cle, Clô ainda em Brasília por meio do Augusto Pontes (Chico Pontes), que era colega deles na Comunicação da UnB. Nesta época fiquei apaixonado por uma música do Clodo num festival que houve aí. Foi esta a primeira vez que ouvi suas músicas. Depois ficamos amigos e nos encontramos muitas vezes em várias jornadas, em São Paulo e no Rio. Nossa canção “Barco de cristal” (Rodger. Clodo e eu), foi feita na casa do Rodger em São Paulo, no bairro do Broocklin, numa noite de frio, misturando inspirações díspares como “Diana", do Paul Anka e o filme Amarcord, de Fellini. Acho que foi isso. Começamos a falar destas líricas irresistíveis e universais quando aí começou a rolar aquele lá, lá, lá, lá ....


("Barco de cristal", de Fausto, Clodo e Rodger, gravada por Téti no lp Equatorial, de 1979. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=K_v4Tt-NpXU)

Eu vi chegar do alto-mar um barco de cristal
Trazendo na bandeira a estrela matinal

A negra noite clareou
Na luz do teu olhar
E nos vamos sair, vamos encontrar

Gente pelas ruas num riso só
Cantado a alegria do barco de cristal

Mas foi um sonho, ainda é noite
Uma alucinação
Não nem luz d'teu olhar
Nem mesmo essa canção

MC: O que representou para você ter a primeira música gravada por Marília Medalha? Era preciso que seus trabalhos fossem inicialmente reconhecidos por nomes já consolidados no cenário da canção popular para que vocês ganhassem credibilidade do público consumidor desse segmento musical?

Fausto Nilo: Para mim esta gravação foi tudo. Embora eu tivesse o desejo de fazer letras de música, achava muito difícil viabilizar esta atividade, por compreender que a conquista de um espaço neste âmbito dependeria de muita determinação, coisa que eu não me sentia disposto a empreender. Com esta gravação, nasceu o entusiasmo para continuar e, por sorte, muitas outras começaram a surgir com Fagner, Ednardo, Rodger e Téti, etc.

MC: Você vivenciou algum tipo de conflito relativo ao regionalismo, atribuído como traço da canção realizada fora do eixo Rio/São Paulo, em face de uma música que fosse nacional, como se propunha a chamada MPB?

Fausto Nilo: Meus companheiros de canções sempre souberam que eu sempre tive uma certa reserva em assumir uma estratégia regionalista ou mesmo caracterizar minhas letras dentro desta visão. Não sei se por ter uma formação pessoal bastante apoiada na audiência constante de música brasileira, desde a tradicional até a revolução da bossa nova, nunca tive pendor para acreditar nos assuntos regionais como base de meu trabalho como letrista e, assim, me orientei para escrever letras de mpb. Desta maneira, na maioria das vezes escolhi temas de grande universalidade, embora eles reflitam, naturalmente, minhas origens de uma região brasileira bem caracterizada e às vezes caricaturada por seus próprios artistas. Este nunca foi o meu projeto. Entretanto, dentro do grupo havia muitas diversidades e, no meu caso, razoável independência com relação a isto.

MC: Clodo Ferreira menciona Fellini como uma referência, sugerida por você, no momento em que vocês dois – mais o Rodger  Rogério – compuseram a canção “Barco de cristal”. É possível você tecer alguma consideração a esse respeito?

Fausto Nilo: Como falei anteriormente, é verdade. Fizemos a música meio de improviso, na casa de Rodger e Téti em são Paulo, após ter visto o filme.

MC: Os discos Alto Falante, de Moraes Moreira, e Romance Popular, de Nara Leão, podem ser considerados os trabalhos que consolidaram seu nome como autor de letras de canção no Brasil? É possível comentar esses discos pelo que representaram em termos de reconhecimento público do seu trabalho de compositor?

Fausto Nilo: Acho que nenhum destes dois discos tiveram repercussão em escala que me desse reconhecimento por meu trabalho como letrista. Isto pode ser dito por várias razões: em primeiro lugar, por eu estar ainda amadurecendo minhas propostas como letrista e depois, pelo fato de que Moraes estava ainda saindo dos Novos Baianos e este disco não foi sucesso de venda. Por outro lado, Nara não teve com aquele disco a receptividade correspondente à sua escala como artista nacional e, às vezes, acho que parte de seu público e da critica carioca não curtiu que ela cantasse um repertório predominantemente nordestino. Recentemente, li o livro de Sérgio Cabral onde o Menescal declara que a Nara teimou em fazer este disco contra a vontade dele, na época, diretor da Polygram. A verdadeira história é que o Menescal implorou para que Fagner e eu produzíssemos o disco exatamente com este tipo de repertório. De qualquer forma, estes discos me possibilitaram gravar uma boa quantidade de músicas concentradas em dois lps. No caso da Nara, era sua ideia fazer um disco todo com letras minhas e eu declinei. Exatamente por achar que não estava em pleno amadurecimento com relação a isto e terminei por apresentá-la a inúmeros compositores, entre eles Robertinho de Recife, Clodo, Climério, Clésio, Geraldo Azevedo e outros mais que compuseram o repertório devidamente afiançados por Fagner e eu.



("Pedaço de canção", de Fausto e Moraes Moreira, gravada por Moraes no lp Alto Falante, de 1978. Há outras músicas assinadas por Fausto nesse lp. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=bZ4kL0cmtrQ) 

Que uma canção pelo céu levaria
No véu da cidade na melhor sintonia
Todo o meu coração

Mas as frases que eu grito
Em bocas tão desiguais
São pedaços daquilo que sinto
E não canto jamais
Que eu repito
Em bocas tão desiguais
São pedaços daquilo que sinto
E não canto jamais
Portanto eu minto
No tom maior do violão
Quando pressinto
Nesse acorde menor a maior emoção
Que uma canção pelo céu levaria
No véu da cidade na melhor sintonia
No rádio do carro uma voz anuncia
O final da canção.

 

("Amor nas estrelas", de Fausto e Roberto de Carvalho, gravada por Nara Leão no lp Romance Popular, de 1981. Fonte: http://www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/consulta/detalhe.php?Id_Artista=AR0165)

No alto de uma montanha existe um lago azul
É lá que a lua se banha
Até amanhã de manhã me banha de luz
A solidão é um Saara que o firmamento seduz
E o céu brilha na Guanabara
E sonha só fascinação
Teu olhar me diz
Vejo a lua dizendo pro sol: eu sou tua namorada
Em meu quarto crescente é você quem brilha e me reluz
Se você vai iluminar o Japão eu fico abandonada
Num pedaço qualquer de canção na voz dessa mulher
E o sol derrama um desejo do céu nessa cama azul
Um mel na tua boca e eu te beijo

MC: Você acredita que as capas de discos são, em algum momento, determinantes para que eles sejam consumidos pelo público? É possível você descrever o processo de criação das capas dos discos “São Piauí” e “Chapada do Corisco”, caso você se lembre?

Fausto Nilo: ACHO QUE AS CANÇÕES EMBALADAS DENTRO DE UM OBJETO QUE FOI CARACTERIZADO COMO UM ÁLBUM TÊM MAIS CHANCES DE SER ATRAENTES PARA VENDA EM CAPAS ADEQUADAS A SEU CONTEÚDO E BEM DIRIGIDAS AO PÚBLICO ESPECÍFICO DO ARTISTA. HOJE, JÁ ACHO QUE O ÁLBUM ESTÁ EM PROCESSO DE EXTINÇÃO COM A TENDÊNCIA EVIDENTE DE ACESSO ÀS CANÇÕES POR MEIOS TECNOLÓGICOS COMO A INTERNET, ETC. MEU PAPEL, NAQUELE PERÍODO, JUNTO AO SELO EPIC, ONDE OS DISCOS CITADOS FORAM LANÇADOS, ERA DEFINIR CONCEITUALMENTE UM PADRÃO QUE DESSE A CARACTERÍSTICA DESTES PRODUTOS E NISSO FUI AUXILIADO PELA PARCERIA COM UMA GRANDE ARTISTA GRÁFICA QUE É A RUTH FREIHOF, ALÉM DA AJUDA DE FOTÓGRAFOS COMO JANUÁRIO GARCIA E FREDERICO MENDES. 

(nota: mantive maiúsculas na resposta acima , conforme original)

MC: Como se deu a ideia da parceria entre você, Nara Leão e Fagner na canção “Cli-Clê-Clô”?

Fausto Nilo: Não tenho a lembrança exata, mas acho que a Nara timidamente mostrou a Fagner e a mim uma canção que ela tinha iniciado, inspirada no conhecimento que ela tinha feito dos irmãos em Brasília (ela ia muito lá, pois tinha um namorado em Brasília). De improviso, eu e Fagner, na casa dela, completamos a segunda parte.



("Cli-Clé-Clô", única canção assinada por Nara Leão, feita em parceria com Fausto e Fagner e gravada no lp Romance Popular, de Nara, lançado em 1981. Homenagem aos irmão Ferreira [Clodo, Climério e Clésio]. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=ehIudnkJ8Ss)

Cli, eu penso em quimera 
Clô, acabado, fechado 
Clê, passarinho quero-quero 
Cli, um claro, um clarão 
Cli, clivagem, clima seco 
Lua nova, a origem de tudo 
Claro, clarão da lua 
Pôr-do-sol, coragem, partida 
Ida e volta, volta e ida 
Claro, clarão do sol 
Clamor, quero a vida aberta 
Clê, a chave do prazer 
Ciclâmen, meu bem, me chame 
No céu azul pra chover 
Me ame, chame o meu nome 
No meio do teu prazer 
Atrás de qualquer reclame 
Aquela voz pode ser 
Me ame, meu bem, me ame 
Me espere, eu vou com você

MC: A letra da canção “Asas de Brasília” surgiu no momento do lançamento do disco Bazar Brasileiro? Você se considerava uma “ave da família de arribação” ou esse era um sentimento – corrente à época – associado àqueles que habitaram a cidade de Brasília, de uma maneira geral? Durante a década de 70, quais as cidades onde você fixou residência? 

Fausto Nilo: Esta letra, juntamente com a melodia, surgiram em um hotel de Brasília,em um determinado momento de uma excursão, onde eu e Moraes olhávamos a cidade pela janela. Eu adoro a memória de meu período de Brasília (1971 e 72) e ao mesmo tempo guardo algumas cinzas no ar da lembrança, devido ao período horrível da vida brasileira em que vivemos ali. A ideia de ave de arribação surgiu como uma imagem que sintetiza a forma do Plano Piloto aliada à grande atratividade que a cidade teve nos migrantes que lá foram colocar sua pedrinha de construção.

domingo, 26 de agosto de 2012

Clodo Ferreira



por Magno Córdova


Assim como o texto sobre a cantora Terezinha de Jesus, aqui postado, o material a seguir representa o documento que produzi e enviei para o ICCA - Instituto Cultural Cravo Albin, relativo ao compositor Clodo Ferreira. Também neste caso, o verbete pode ser conferido na página do Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira. 





          Clodomir Souza Ferreira nasceu em Teresina, capital do estado do Piauí, no dia 30 de julho de 1951. Passou a infância junto aos pais e irmãos, em Teresina. No início da década de 60, tinha por intuito se ordenar e passou a freqüentar o seminário local. Transcorridos dois anos na condição de seminarista, um episódio veio alterar o rumo de sua vida.
A passagem dos anos 50 para os 60 no país foi marcada pela transferência da capital da República, da cidade do Rio de Janeiro para a cidade de Brasília. A nova capital representou para muitos trabalhadores brasileiros e, particularmente, para as populações do norte/nordeste do país, uma perspectiva de melhoria na qualidade de suas vidas. Muitos foram os que migraram para a recém-construída cidade e seus arredores. No caso da família Souza Ferreira, deslocaram-se para o Planalto Central - a partir de 1962 - os dois filhos mais velhos: Climério e Clésio. Em 1965, o Sr. Matias Ferreira decidiu-se por residir também na capital, levando consigo esposa e demais filhos. Instalou moradia em Taguatinga, cidade satélite do Distrito Federal.
Se ainda em Teresina Clodo aprendeu seus primeiros acordes ao violão, foi na nova cidade que ele intensificou sua relação com a música. Em Taguatinga, a proximidade com os irmãos mais velhos, já iniciados nos caminhos da canção popular e com os quais já havia aprendido a tocar “olhando”, foi um incentivo para que se dedicasse mais à arte de tocar, cantar e compor. Por volta dos quinze anos, passou a fazer suas próprias canções e em parceria com Climério e Clésio. Juntou-se à amiga Ana Silva, formando uma dupla que por algum tempo se apresentou interpretando um repertório pautado no que faziam Leno e Lílian: típico da Jovem Guarda, tendência musical que àquele momento se encontrava no auge do sucesso entre uma parcela do público jovem. Participou, como contra-baixista, do conjunto local Os Geniais. Chegou a assumiu a guitarra base do grupo Os Continentais, que depois veio a se chamar os Quadradões, embrião do futuro grupo Placa Luminosa. Em 1968, Os Quadradões gravaram, em seu LP de estréia, a canção intitulada “Ao entardecer”, parceria com Clésio e a primeira música de Clodo gravada em disco. Passou a ser freqüente, àquela época, a apresentação em dupla com a irmã Cristina cantando em festas familiares e de amigos.
Com a mudança da família para o Plano Piloto da capital federal ocorreu um importante encontro que marcaria a experiência artística de Clodo, fora do seio familiar. Em 1969, ele conheceu o compositor baiano, de Bom Jesus da Lapa – também residente em Brasília -, Zeca Bahia. Zeca se tornou um de seus parceiros mais freqüentes nos dez anos que se seguiram. Após um convívio inicial de maturação musical, Clodo e seu novo parceiro inscreveram algumas composições no festival de música do CEUB – Centro de Ensino Unificado de Brasília. Naquela edição de 1972, as músicas de Clodo e Zeca levaram os principais prêmios do festival: o primeiro lugar ficou com a canção “Placa Luminosa” (Clodo e Zeca) e o segundo lugar com “Sino, sinal aberto” (Clodo). Ambas foram interpretadas pelo grupo Matuskelas que já havia gravado no ano anterior a música “Suzana” - parceria de Clodo, Romildo e Olímpio. Além dos dois primeiros lugares, o Matuskelas levou os prêmios de melhor arranjo e de melhor interpretação.Um outro dado relevante para a carreira de Clodo também ocorreu durante aquele evento: participava do corpo de jurados o jovem compositor cearense Raimundo Fagner – vencedor da edição anterior do mesmo festival com a música “Mucuripe”. Fagner quis conhecer pessoalmente os autores das canções premiadas naquele ano. Desse encontro nasceria uma amizade cujo diálogo musical daria bons frutos para ambos.
O festival de 1972 projetou o nome de Clodo Ferreira no Distrito Federal e o estimulou a buscar novas possibilidades de criação e divulgação de sua arte fora daquele território.
Em 1974, gravou pela primeira vez em disco cantando no compacto simples independente Chope no Escuro, junto com Climério e Malu Moraes, e com a participação especial do violonista Alemão. O compacto foi uma produção do grupo de Teatro Tanahora, dirigido por Geraldo Moraes, e trouxe duas músicas - das quatro gravadas - assinadas por Clodo: “Ave estrangeira” (em parceria com Climério) e “Rua São João”. No disco, Clodo interpretou “Ave estrangeira”.
 Terminado o curso de jornalismo e publicidade, feito na Universidade de Brasília – UnB, em 1975 Clodo foi morar na cidade de São Paulo. Na capital paulista, hospedou-se em casa dos músicos cearenses Rodger Rogério e Teti, representantes do grupo que ficou conhecido como “Pessoal do Ceará”. O casal acolheu Clodo durante aproximadamente dois anos, período decisivo para a consolidação do seu trabalho entre seus pares e o público. Nessa fase, compôs várias canções em parceria com Rodger das quais a que mais se destacou foi “Ponta do Lápis”. Clodo retomara, à época, o contato com Fagner, que em duo com Ney Matogrosso registrou “Ponta do Lápis” de forma marcante, lançando-a em disco compacto de vinil no ano de 1976. Fagner já havia “musicado” um poema de Clodo e a canção resultante foi incluída no repertório do terceiro LP de sua carreira, intitulado Raimundo Fagner e levado às lojas também em 1976: “Corda de aço” é uma dessas canções consideradas como das mais expressivas do momento, por possuir os traços de agressividade e lirismo tidos como típicos dos intérpretes e compositores daquela geração de artistas nascidos no Nordeste e revelados então.
A presença de Clodo em São Paulo trouxe uma nova e surpreendente perspectiva de trabalho onde se veriam consolidadas a trajetória conjunta e a reunião profissional dos irmãos Ferreira. A rede de TV Bandeirantes possuía, na época, um programa chamado Mambembe, a vez dos novos. Em 1976, Clodo participou desse programa ao lado de diversos artistas, dentre os quais estavam seus irmãos Climério e Clésio. Como, naquela ocasião, os três revezavam-se no acompanhamento instrumental sem sair do palco à medida que cada um expunha seu trabalho, o produtor do programa entendeu que formavam um trio: Clodo, Climério e Clésio. Assim passaram a ser tratados e assim passaram a se apresentar.
No ano seguinte Clodo retornou a Brasília e, juntamente com Climério e Clésio, inaugurou a carreira fonográfica do trio com o lançamento de São Piauí, disco gravado pela RCA. Esse trabalho foi produzido pelo compositor cearense Ednardo e trouxe as participações de artistas como Robertinho de Recife, Heraldo do Monte, Amelinha e Roberto Sion. A capa do disco foi idealizada pelo arquiteto e compositor Fausto Nilo. O alcance e repercussão obtidos por uma faixa do São Piauí imprimiram o nome de Clodo no cenário popular da música brasileira: além da versão presente no disco, a música “Cebola Cortada” – parceria com o também cearense Petrúcio Maia - foi lançada simultaneamente por Fagner no seu LP Orós, de 1977. Posteriormente, incorporou-se ao repertório do grupo MPB-4 (LP Bons tempos, hein?, de 1979) e ao do baiano Carlos Pita (LP Coração de Índio, de 1981 – Continental), assim como recebeu registro do próprio Petrúcio Maia (LP Melhor que mato verde, de 1980 – CBS). Foi também em 77 que se deu a inclusão da música intitulada “Velho demais” (Clodo e Zeca Bahia) na trilha sonora da novela da Rede Globo de Televisão Sem lenço Sem documento, em gravação do grupo Placa Luminosa.
No entanto, o nome de Clodo passou a ser conhecido em âmbito nacional a partir do ano de 1978. A parceria com Clésio na música “Revelação” impulsionou a carreira de Raimundo Fagner, contribuindo para alçá-la a uma condição de maior destaque na música popular brasileira. “Revelação” ficou entre as músicas mais tocadas nas emissoras de rádio de todo o país nos dois anos que se seguiram ao seu lançamento, atuando como carro-chefe do disco Eu canto – Quem viver chorará e conduzindo-o a índices de vendagem até então não alcançados por Fagner. Além da divulgação através do disco, a música foi incluída como tema da novela “Cara a Cara”, exibida pela TV Bandeirantes, em 1979. A trajetória de “Revelação” na história recente da música popular brasileira é bastante curiosa. Inicialmente celebrada por um público muito específico, ganhou leituras de artistas de gêneros e tendências os mais diversos como as cantoras Simone e Mariama, os grupos Razão Brasileira e Engenheiros do Hawaii, e o cantor Wando.
79 foi um ano de inúmeras gravações da obra do compositor. Naquele ano, Clodo entrou novamente em estúdio para gravar o segundo disco com Climério e Clésio: dessa vez pelo selo Epic da gravadora CBS, cuja direção artística estava sob o comando de Fagner. O LP se chamou Chapada do Corisco (título de uma das faixas, assinada por Clodo e Climério) e contou com a participação dos músicos Manassés, Abel Ferreira, Dino das 7 Cordas, Dominguinhos e o próprio Fagner, dentre outros. Nesse disco gravaram “Revelação”. Também aqui a capa do LP foi criada por Fausto Nilo, dessa vez juntamente com Januário Garcia. O contato com Dominguinhos a partir de Chapada do Corisco proporcionou a Clodo a cristalização de uma nova parceria: a paraense Fafá de Belém foi das primeiras intérpretes a gravar uma composição dos dois, incluindo a canção intitulada “Carece de explicação” em seu LP Estrela Radiante (Phillips, 1979). Paralelamente, outra música de Clodo era gravada por Fagner em seu disco Beleza (CBS, 1979): “Ave coração”, na qual Zeca Bahia foi co-autor. Também chegou às lojas o disco Estrela ferrada (CBS, 1979), de Cirino, contendo “Tu me querias pedra”, parceria desse compositor com Clodo. Ao mesmo tempo, aquele foi o ano do lançamento do disco SORO (CBS/EPIC, 1979), projeto que teve a direção artística de Fagner e coordenação de Ivair Vila Real. Acompanhava o disco um libreto com textos e fotos impressos de vários autores, dentre os quais estava Clodo com seu poema “Eu matuto, Tu matutas”. Merece registro a gravação do disco Equatorial de Teti, em 79, com as músicas “Barco de Cristal” (Roger, Clodo e Fausto Nilo), “Daniela” (Roger e Clodo), “Maracá" (Roger e Clodo) e “Último raio de sol” (Roger, Clodo e Fausto Nilo).
“Ave coração” entrou no repertório do terceiro disco de Clodo, Climério e Clésio, que levou o título Ferreira (RCA, 1981). A idealização desse projeto ficou a cargo de Fagner e quem assumiu a direção de estúdio foi Dominguinhos. A canção do LP Ferreira intitulada “Por um triz” merece destaque por ter sido incluída no disco Romance popular, de Nara Leão, lançado em 1981. Essa canção estreitou os laços de amizade entre Nara e os irmãos Ferreira a ponto de motivá-la a compor a única música de sua autoria. Juntamente com Fausto Nilo e Fagner ela homenageou Climério, Clésio e Clodo com a música “Cli, Clê, Clô”, presente nesse seu trabalho. Na mesma época se deu a primeira gravação da canção “Meio Dia” (Clodo e Fagner), integrando o LP Um minuto além (Polygram, 1981), de Zizi Possi.
No decorrer da década de 80, Clodo, Climério e Clésio mantiveram o ritmo da produção de canções em conjunto, mesmo ficando uma boa temporada sem gravar em nome do trio. No entanto, algumas de suas composições ganharam leituras nas vozes de vários intérpretes. Guadalupe com “Questão de tempo” e “Telhados” no LP Sempre foi bom (RCA, 1982); Fagner com “Intuição” no LP Palavras de amor (CBS, 1983) e “Tiro certeiro” no LP A mesma pessoa (CBS, 1984); Amelinha com “Canção de esquina” no disco que tem seu nome (Continental, 1987.), foram algumas das obras assinadas pelos três que receberam registros no período. O mesmo ocorreu com o trabalho de Clodo em parceria com outros músicos compositores, particularmente Dominguinhos: Ângela Maria gravou “Coberto de razão”, em seu disco Estrela da Canção (EMI, 1982); Guadalupe interpretou “Nas costas do Brasil”, no disco de 82; Cláudia, “Terra batida”, no seu trabalho intitulado Sentimentos (Lupsom, 1986); e “Promessa” foi selecionada para fazer parte do LP Fagner (RCA, 1986). Uma nova experiência na carreira de Clodo, Climério e Clésio sucedeu em 1985 quando o diretor de cinema Geraldo Moraes os convidou para criar um tema que pudesse fazer parte da trilha do seu filme A difícil viagem. Compuseram “Aruanã”.  Em 1988, o antigo parceiro Zeca Bahia lançou o LP independente Estrada das Canções, nele incluindo “Se tens, eu tenho”, de ambos.
E foi pela via do disco independente que Clodo, Climério e Clésio retomaram as atividades de estúdio nos fins dos 80. Em 1989, lançaram o vinil Profissão do Sonho com boa parte do repertório inédito e basicamente utilizando-se da estrutura técnica e profissional oferecida em Brasília. Em Profissão do Sonho incluíram “Aruanã”, do filme A difícil viagem.
Em 91, Clodo foi surpreendido por uma grata notícia: a sua música “Querubim”, feita com Dominguinhos e gravada por este nos anos 80, passou a fazer parte de uma compilação realizada pelo músico e produtor David Byrne para o mercado internacional de discos. Lançada em CD sob o título Forró etc. – Music of the Brazilian nordest (número 3 de uma série conhecida como Brazil Classics), essa coletânea reuniu várias músicas do gênero eternizado por Gonzaga.
Os dois discos seguintes dos Ferreira - Clodo, Climério e Clésio (Som Terra, 1991) e Afinidade (Som Terra, 1993) - mantiveram o caráter mais local que caracteriza o disco independente Profissão do Sonho. A canção “Conterrâneos”, assinada pelos três, contou com a participação de Dominguinhos. Abrindo o lado B do disco de 91, ela foi feita para o filme Conterrâneos velhos de guerra, de Vladimir Carvalho. Das participações que estiveram no Clodo, Climério e Clésio, os Ferreira puderam contar com a contribuição da flauta de Odette Ernest Dias nas faixas “Outra cor” e “Morada”. Quando foi lançado o LP Afinidade, o trio já havia se desfeito. Das músicas não inéditas que levaram a assinatura de Clodo presentes nesse último trabalho conjunto, merece referência a segunda gravação de “Corda de aço”, dezessete anos após seu lançamento por Fagner.
Nos cinco anos que se seguiram, Clodo dedicou mais tempo às suas atividades na UnB como professor - lotado no departamento de Áudio Visual e Publicidade da Faculdade de Comunicação - e como publicitário. A idéia de seguir carreira individual foi sendo amadurecida até que em 98 ele lançou o CD Corda de Aço (UnB Discos, 1998). Corda de Aço foi confeccionado em Brasília e teve a participação especial de Zelito Passos. Com exceção da inédita “Mentira da saudade”, todas as demais faixas desse trabalho representaram novas versões realizadas por Clodo Ferreira para as canções de sua autoria mais conhecidas pelo público. Além da faixa-título, foram incluídas “Revelação”, “Cebola cortada”, “Ave coração”, “Querubim”, “Ponta do Lápis” e outras, na voz do seu autor. “Mentira da saudade” possui temática de aparência autobiográfica e foi a música que abriu esse trabalho. O texto dessa canção evoca uma relação com o passado que parece pertencer à memória de todo indivíduo. Em 1999, Clodo se apresentou no projeto “Temporadas Populares”, organizado pelo Governo do Distrito Federal, dividindo o palco com o compositor baiano Tom Zé. No ano seguinte, o mesmo projeto reuniu Clodo e Zé Ramalho da Paraíba em uma única apresentação.
Em 2001, foi lançado o único disco em formato digital da carreira de Clodo, Climério e Clésio. Reunindo músicas dos três últimos Lp’s do trio, esse CD recebeu o nome de Tiro Certeiro (T-Bone Cultural, 2001).
Em 2002, por conta de uma iniciativa sua, Clodo passou a ministrar o curso “Comunicação e Música” na Faculdade de Comunicação da UnB. Nesse mesmo ano lançou o CD Gravura (UnB Discos, 2002) contendo apenas músicas inéditas. Nele, Clodo Ferreira prestou uma homenagem ao poeta e gravurista J. Borges: o encarte do disco foi ilustrado com fotografias das ferramentas utilizadas pelo artesão. Oswaldinho, Manassés e Mauro Sérgio tiveram participação especial nesse trabalho (os dois primeiros estiveram também no Corda de Aço). Dentre os músicos que acompanharam Clodo Ferreira, vale mencionar a presença de João e Pedro Ferreira, filhos do compositor. O cd Gravura foi dedicado à sua esposa Helô. Também em 2002 se deu a estréia do filme Eu não conhecia Tururu, com roteiro e direção de Florinda Bolkan, cujo tema principal utilizado na trilha sonora foi “Revelação” – tanto a gravação original de Fagner, quanto em vinhetas instrumentais com trechos da canção.
Após o lançamento de Gravura, Clodo passou a se dedicar ao estudo da obra de J.B. da Silva, o Sinhô, compositor carioca considerado o “rei do samba” na década de 1920. Buscando encontrar e reproduzir com fidelidade as características harmônicas e os timbres da obra de Sinhô - e da música que se tocava no período de seu surgimento -, Clodo formou uma banda que incluiu entre seus instrumentos a tuba e o flugelhorn, pouco usuais na feitura da música popular atual. O repertório de Sinhô foi apresentado por Clodo e Banda no Clube do Choro, da capital federal, por duas ocasiões: em agosto e novembro de 2003.
No início de 2004, parte do produto dessa pesquisa foi levada ao público brasiliense que esteve presente no Conjunto Nacional, quando do lançamento do livro Tem mais samba (Editora34, 2004), escrito por Tárik de Souza. No decorrer daquele ano a Sony Music reuniu em uma caixa os discos de Fagner gravados no período de 1975 a 1985 que trazia fonogramas considerados mais raros de sua carreira. Nessa compilação foi lançada a música “Oferenda”, do disco Chapada do Corisco, como faixa bônus do disco Beleza.
2004 marcou também o ano em que Clodo Ferreira deu início à sua pesquisa de doutoramento em História Cultural junto à UnB. 



Brasília, julho de 2004.



                                                           Magno Cirqueira Córdova.

  

Discografia
(por ano de lançamento)

-          Chope no Escuro - Clodo, Climério e Malu Moraes. Compacto Simples Independente (Tanahora – 1974)

Lado A:
1)      Ave estrangeira (Clodo e Climério)
2)      Rua São João (Clodo)

Lado B:
1)      Chope no escuro (Climério)
2)      Prosa e verso (Climério)

-          São PiauíClodo, Climério e Clésio. LP (RCA – 1977)

Lado A:
1)      A noite, amanhã o dia (Climério)
2)      Cebola Cortada (Petrúcio Maia e Clodo)
3)      Cantiga (Clésio e Clodo)
4)      Conflito (Petrúcio Maia e Climério)
5)      Folia ou Pressa (Clésio e Augusto Pontes)
6)      Ilha azul (Clodo)

Lado B:
1)      Zero Grau (Clésio e Climério)
2)      Palha de arroz (Climério)
3)      Cada gesto (Clodo)
4)      Céu da boca (Clodo e Climério)
5)      Nudez (Clésio e Clodo)
6)      São Piauí (Bê e Climério)

-          Chapada do CoriscoClodo, Climério e Clésio. LP (CBS – 1979)

Lado A:
1)      Rixa (Clodo e Climério)
2)      Flor do coqueiro (Pita) (Clésio e Clodo)
3)      Morena (Naeno)
4)      Chapada do Corisco (Clodo e Climério)
5)      Dia Claro (Dominguinhos e Clésio)

Lado B:
1)      Oferenda (Clésio, Clodo e Climério)
2)      Modo de ser (Clodo)
3)      Timom (Clésio e Climério)
4)      Enquanto engoma a calça (Ednardo e Climério)
5)      Revelação (Clésio e Clodo).

-          FerreiraClodo, Climério e Clésio. LP (RCA – 1981)

Lado A:
1)      Louco luar (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Cabeça feita (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Ave Coração (Zeca Bahia e Clodo)
4)      Por um Triz (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Roupa de domingo (Clodo, Climério e Clésio)
6)      Luz do dia (Clodo, Climério e Clésio)

Lado B:
1)      Geração (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Passagem do Cometa (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Brilho do sol (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Estaca Zero (Ednardo e Climério)
5)      Remanso (Vicente Lopes e Clésio)
6)      Não é inútil amar (Clodo, Climério e Clésio)

-          Profissão do Sonho Clodo, Climério e Clésio – LP (Produção Independente – 1989)

Lado A:
1)      Silêncio agrário (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Olinda (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Tiro Certeiro (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Canção de esquina (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Beijo insosso (Clodo e Zeca Bahia)

Lado B:
1)      Boi divino (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Distraída (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Túnel do tempo (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Dilúvio (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Aruanã (Instrumental) (Clodo, Climério e Clésio)

-          Clodo, Climério e Clésio – Clodo, Climério e Clésio – LP (Som da Terra – 1991)

Lado A:
1)      Revoada (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Corda bamba (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Elo perdido (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Queira ou não queira (Dominguinhos e Clodo)
5)      Outra cor – Adaptação de adágio de Albinoni (Clodo, Climério e Clésio) Versos de Clésio


Lado B:
1)      Conterrâneos (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Balé (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Brasília (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Morada (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Flor do coqueiro / Pita (Clodo e Clésio)

-          AfinidadeClodo, Climério e Clésio – LP (Som da Terra – 1993)

Lada A:
1)      Quando a palavra nasce (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Saudades do paraíso (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Paraíba do Sul (Antônio Adolfo e Climério)
4)      Corda de aço (Raimundo Fagner e Clodo)
5)      Vitalidade (Clodo, Climério e Clésio)

Lado B:
1)      Borboleta branca (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Outra vez (Dominguinhos e Clésio)
3)      Afinidade (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Todas as cores (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Quintais (Clodo, Climério e Clésio)

-          Corda de Aço Clodo Ferreira – CD (UnB Discos – 1998)

1)      Mentira da Saudade (Clodo)
2)      Cebola Cortada (Petrúcio Maia e Clodo)
3)      Revelação (Clodo e Clésio)
4)      Querubim (Dominguinhos e Clodo)
5)      Ponta do Lápis (Rodger Rogério e Clodo)
6)      Ave Coração (Clodo e Zeca Bahia)
7)      Meio-Dia (Fagner e Clodo)
8)      Borboleta Branca (Clodo, Climério e Clésio)
9)      Beijo Insosso (Clodo e Zeca Bahia)
10)  Corda de Aço (Fagner e Clodo)

-          Tiro Certeiro – Clodo, Climério e Clésio – CD (T-Bone Cultural – 2001) *

1)      Balé
2)      Olinda
3)      Boi Divino
4)      Silêncio Agrário
5)      Distraídas
6)      Saudades do Paraíso
7)      Quando a palavra nasce
8)      Conterrâneos
9)      Borboleta Branca
10)  Tiro Certeiro
11)  Afinidade
12)  Canção de Esquina
13)  Aruanã

*Todas as músicas são de Clodo, Climério e Clésio

-          Gravura – Clodo Ferreira – CD (UnB Discos – 2002)

1)      Pedra Lapidada (Clodo Ferreira)
2)      Os Iguais (Clodo Ferreira)
3)      Gravura (Clodo Ferreira)
4)      Matutei (Clodo Ferreira)
5)      Dimensão (Clodo Ferreira)
6)      Quebra-queixo (Clodo Ferreira)
7)      Rama (Clodo Ferreira)
8)      Engrenagens (Clodo Ferreira)
9)      Feitiço Mineiro (Ribah Nascimento e Clodo Ferreira)
10)  Senhora Pantaneira (Clodo Ferreira)


Fontes consultadas

-          As revelações de Clodo Ferreira. Entrevista disponível na página http://www.fagner.com.br .
-          BAIANA, Ana Maria. “Voz pra cantar Corda de Aço”. In: Nada será como antes: mpb nos anos 70. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
-          CAZARRÉ, Lourenço. Um castelo no cerrado: histórias de moradores e artistas da SQN 312. Brasília: Ed. Do Autor, 2002.
-          Clodo Ferreira: Revelação na ponta do lápis. Entrevista concedida por Clodo Ferreira ao jornalista Roberto Homem. Jornal Zona Sul. Ano XII Nº 100. Novembro de 2003. Natal/RN.
-          MORELLI, Rita C. L. Indústria Cultural: um estudo antropológico. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1991.

Obs: parte das informações colhidas para compor este texto foi fornecida por Clodo Ferreira, que disponibilizou seu arquivo pessoal e prestou vários depoimentos a Magno Córdova, no período de março a julho de 2004.




Os vídeos aqui anexados foram retirados do Youtube.