Mostrando postagens com marcador Paulo César Pinheiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulo César Pinheiro. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

CELEBRE A ALEGRIA TOCANDO TAMBOR, LEVANDO A BANDEIRA DA REVOLUÇÃO

(por Magno Córdova)

(Capa do disco Baile das pulgas, de Marina Machado, lançado em 1999)

Em Minas, talvez mais do que em outros grotões, bagaceira é palavra que nos leva pro engenho, pro bagaço de cana, pra cachaça.
A relação é imediata e se desdobra: trabalho no engenho é mão escrava, mão escrava é tambor, tambor é candombe, coisa de ancestralidade conga por aqui instalada.
O século XX cristão dava seus suspiros finais quando surgiu entre montanhas um trabalho prenunciando em consolidação – reconsolidando, retraduzindo à sua maneira - o que havia de permanecer como código de herança musical inscrito em seu calcanhar, o do sopé da montanha, sua estrutura.
Ecoara, quase que simultaneamente, o cântico do grão-mestre contemporâneo de geração matriz motriz precedente, o artista de Mil Tons e seus tambores locais nunca dantes tão explicitados.
Entretanto, foi no surpreendente e vibrante registro de “Bagaceira” (e aqui me refiro ao registro de estúdio), do primeiro solo da jovem Marina Machado - aquele do Baile das pulgas - que esse “engenho novo” que é o industrial da cultura processou e se rendeu ao sumo de Tambolelês e Tizumbas dialogando com aquela que havia sido a sua geração mais esbranquiçada da década antecedente, associada ao rock. No entanto, deixando ilesas as estruturas de candombes, catupês e congos na voz de Dona Maria das Mercês, a mesma que no texto de Casa Aberta toca tambor.
“Bagaceira” é de Flávio Henrique em parceria com Chico Amaral, mestiçados e mestiçando em reciprocidade o que as gritantes diferenças sociais nesse nosso solo de nação impedem, transformam em nó. Se soa singelo, romântico e ingênuo, em “Bagaceira” a linha com o nó é reta e lisa. O nó não há. Desata e desacata a autoridade e o autoritarismo que transforma a diferença em penar, em destino apartado. Diria que nela a harmonia se dá em conflito, por isso aturde almas.
Não por acaso essa música entrou no programa piloto do Aldeia Do MUNDO. Ali, numa perspectiva comparativa mais ampla, “Bagaceira” se irmanou com “Candeeiro encantado”, de Lenine e P. C. Pinheiro, representantes de trabalhos tomados como dos mais representativos – a partir de seus estados de origem – dos caminhos da canção brasileira naquele momento
No caso de “Bagaceira”, a alegria toca tambor. E a bandeira é revolucionária.
Canta pra nós, Dona Mercês!
Canta, Marina!
Diga lá, Flávio!

(o áudio com o referido registro de "Bagaceira" pode ser conferido no arquivo do Programa Piloto Aldeia Do MUNDO, produzido pela Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, e retransmitido pela RTF - a rádio lusófona, da cidade do Porto, em Portugal. Ela se encontra no primeiro bloco da edição, entre os tempo de 7:27 min e 11:40 min. É só clicar aqui: http://tfmedia.pt/podcast/aldeia-do-mundo-171017/ )
Companheiro de terra e ar
Companheiro de guerrear
Companheiro acorda
Tô falando desse berimbau
Quebre a sua televisão
Deixe o automóvel na garagem
Arranje um amor um só de cada vez
Leia algum grego todo dia
Vê se mora na Filosofia
Que o homem precisa é de Filosofia
Depois vem a arte e algum prazer
Que tenha cor pura do entardecer
Celebre a alegria
Tocando tambor
Em nome dos Deuses
O nome que for
Tá tudo ferrado
E eu tô com você
Levando a bandeira da Revolução
Na ribeira, na vila, naquela ladeira
Nas águas do mangue, nos pés da mangueira
Tá tudo o de sempre e eu quero saber
Quem já desistiu, quem vai comparecer
Surfaremos na superfície
Antenas ligadas pro que já se disse
Do osso ao foguete a marcar da bondade
Se oculta nas sendas da humanidade

(imagem extraída a partir de vídeo do Youtube com a apresentação da
"
Festa do Candombe no Quilombo do Açude [Serra do Cipó - MG] - [14/09/2013]")

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Capinam e a Bahia em 1980.

(por Magno Córdova)

("...este é o momento em que a região, antes naturalmente sedutora, se transforma numa profissional da sedução". Antônio Risério, "Uma teoria da cultura baiana"; in: O poético e o político).

No ano de 1981, o poeta e escritor José Carlos Capinam reclamava, em depoimento ao jornalista Valdomiro Santana, da descaracterização sofrida pela cultura popular na Bahia incentivada pela indústria do turismo. Segundo ele, era comum na cidade de Salvador e outras cidades turísticas daquele estado pegarem-se pessoas que sabiam cozinhar “caseiramente” deliciosos pratos típicos da região e treiná-las para fazer churrasco ou pizza em restaurantes que atendiam a classe média. 

Sobre a perda da vocação natural do espaço urbano como centro de convergência de idéias e convivência da criação, Capinam apontava a tendência da Bahia em se identificar mais com o Rio de Janeiro e São Paulo do que com as vizinhas regiões nordestinas. Era comum a cidade de Salvador ser considerada pelo próprio povo nativo como uma colônia de férias daqueles dois estados do sudeste, não havendo qualquer contato com Recife, João Pessoa ou Fortaleza.

Se, por um lado, a reconquista dos valores tradicionais da culinária baiana se intensificou nos últimos vinte anos anteriores à fala de Capinam, em outros aspectos culturais o turismo no estado desenvolveu um aparato estrutural que lhe permitiu  certa independência e autonomia perante as outras regiões do país. A música produzida na Bahia, em especial aquela vinculada ao carnaval local, conquistou espaço na mídia nacional e internacional.

(com o término do grupo Novos Baianos, Moraes Moreira assumiu papel preponderante no reaquecimento do carnaval de rua da Bahia, mais ou menos no contexto em que se deu o depoimento de Capinam aqui mencionado. Seu trabalho musical pautou-se na reafirmação e retomada do prestígio dos trios elétricos, em particular o Trio Elétrico Dodô e Osmar).

Pessoal do aló 
(Moraes Moreira e Antônio Risério)

Alô, Alô pessoal do alô
Vai ter auê, badauê, ebó
Chilique do cacique
No ponto chique
Atrás do cheirinho da loló
Mas qual é o pó?
Quem é do roçado
Ralando coco se dá melhor
Sou pena branca
Da zona franca
De Maceió
Vendendo peixe
Passando piche
Sou azeviche
Apache do tororó

Essa repercussão, longe de melhorar as condições de vida das camadas populares em geral no estado, reforçou o esvaziamento da cultura popular ali produzida ao dar destaque à produção em massa em detrimento às manifestações folclóricas. Para Capinam, o início desse processo de desvalorização da cultura popular se deveu a que nem os intelectuais, representados pela universidade, nem o Estado ou a iniciativa privada apresentaram projetos que contemplassem tais manifestações. O grande equívoco desses setores foi terem considerado o folclore como sinônimo de decadência cultural.

(podemos dizer que obras como a do compositor Roque Ferreira se situam entre as que recuperam, mantêm e ao mesmo tempo renovam elementos do que Capinam chama de folclore, como o samba de roda do Recôncavo. Roque surgiu para o público em fins dos anos 70. Vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=cUdUcRme-oY)

Aguadeira / Saubara
(ambas em parceria Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro)

Lá vem a aguadeira
Quer água de cheiro só
Água de cheiro só
Lá vem aguadeira

Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus

É de fibra de palmeira
A rudilha apoiada em seu anzol 
Dentro da pilha dessa aguadeira
Tem água de cheiro
Que vem da ribeira
Água do itororó

Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus

Aguadeira do meu lado
Tá sambando sem receio
Se não fosse esse seu namorado
E meu amor ali no meio

Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus

Aguadeira quando samba
Meu amor não quer que eu vá olhar
É que nem lavar a roupa sem molhar

Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus

Quando ela arria o pote
Sem perder o bamboleio
É aí que seu decote revela
O botão do seio

Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus

Quando ela samba
Roda a renda de cambraia
E aparece a perna grossa
Por baixo da roda da saia

Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus

Vá no Bonfim
Que a Aguadeira tá lá
E a água além de perfumar
Carrega quebranto pesado e mágoa
E a água molha da aguadeira o camisu
Seu corpo quase fica nu
Com a água

Ave maria, meu Deus
Ave maria, meu Deus

Cira cirandeira
Pra ciranda de Sara
Êe lá em Saubára (3x)

Cira admira Sara
Sara também admira
Ciranda de Cira
Que a nada se compara
Quem é de dança delira
Se juntar Cira com Sara
E a roda a noite gira
E a ciranda lá não pára

Êe lá em Saubára (3x)

Quando é com Sara
Que Cira na cirandeira
Quando é com Cira
Que Sara saracoteia
Na volta e meia de Cira saracoteia
Na meia volta é que Sara dá volta e meia
Parece mentira mas você repara
Ninguém se retira
Ninguém se separa
Na hora que Cira ciranda com Sara

Êe lá em Saubára (3x)

Uma dica de leitura introdutória para se ter uma visão geral da produção literária e cultural baiana em parte significativa do século XX é o livro Literatura baiana 1920-1980, de Valdomiro Santana, onde se encontram depoimentos de vários escritores. O livro foi publicado pela Philobiblion em convênio com o Instituto Nacional do Livro/Fundação Nacional Pró-Memória.

Sobre  o carnaval da Bahia, em particular sobre os Trios Elétricos, a leitura sugerida é O país do carnaval elétrico, de Fred de Góes, publicado pela Corrupio. 

sábado, 9 de janeiro de 2016

De Eltos, Angenores e o MIS da Lapa.

(por Magno Córdova)


(Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Heitor dos Prazeres, Pixinguinha e Donga)

Deve ter sido em 1989 ou 1990.

Eu mal conhecia o Rio. Havia tirado uns dias de férias e parti pra maravilhosa sozinho. Numa tarde após o almoço, fui visitar o MIS e me encaminhei pra praça XV, onde fica sua sede. Logo na entrada do edifício, busquei informações e ocorreu o seguinte diálogo com a informante:
                - “Olha, isso que você está procurando fica lá no MIS da Lapa. Procure o ‘seu Elto’ que ele irá te ajudar”, orientou-me a moça.
               - E qual será a melhor hora pra falar com o “seu Elto”?, perguntei. 
                - “Ele está lá agora. Quer que eu ligue e informe que você irá procurá-lo daqui a pouco?”.
                - Faça isso, por favor. Muito obrigado.

Rumei pra Lapa a pé, caminhante apaixonado por aquele centro fascinante.

Anunciei-me na recepção do museu na Lapa e foi-me indicada uma porta até onde eu deveria me dirigir ao encontro do senhor Elto, que me aguardava. Quando abro a porta indicada, a surpresa: “Seu Elto” era Elton Medeiros, ali, disposto a me ciceronear.



Uma tarde inteira no Museu da Imagem e do Som da Lapa sendo “guiado” por Elton Medeiros não é uma coisa comum para um “turista” mineiro meio acaipirado, pego no susto por uma casualidade.

Elton é criatura iluminada também como funcionário público, tanto quanto como melodista (dos melhores) e letrista/poeta! Dedicou-se integralmente aos meus anseios de conhecimento, sem contar a riqueza das histórias nascidas das perguntas mais banais que eu, um pouco tímido, tiete maravilhado, o lançava. Ficou feliz e empolgado ao saber que eu sou nascido no Vale do Jequitinhonha. Tinha conhecimento de causa do lugar, admirador da arte em barro e tecelã realizada por gente minha conterrânea. "Uma gota de afinidade recíproca", lembro-me que pensei comigo, como forma até mesmo de disciplinar o fascínio pelo encontro. Ele quis e conseguiu me deixar à vontade e feliz com essa informação sobre o Jequitinhonha.

Quando Elton me sugeriu que eu conhecesse e levou-me aos Arquivos da Rádio Nacional, incorporados ao acervo do museu, encontrava-se ali o Chiquinho Faria, irmão do Paulinho da Viola, um dos grandes pesquisadores e especialistas do patrimônio do MIS, a quem fui apresentado.

Tarde boa na cidade do Rio? Uma benção!

Abaixo, fazendo jus ao inusitado do meu encontro com Elton no MIS da Lapa, uma música dele feita em parceria com Tom Zé, portanto, dentro do que comumente é chamado de fase pós-tropicalista do baiano de Irará, mas fora do nicho mais provável e imediatamente referenciado da produção musical do carioca da Glória, do Tupi de Brás de Pina, da Aprendizes de Lucas,  Elton Medeiros.

"Tô" foi gravada no disco Estudando o samba, de Tom Zé, lançado em 1976, título que mais do que justifica a presença de Elton em seu contexto. 

 

Música: Tô

Composição: Elton Medeiros e Tom Zé


Tô bem de baixo pra poder subir
Tô bem de cima pra poder cair
Tô dividindo pra poder sobrar
Desperdiçando pra poder faltar

Devagarinho pra poder caber
Bem de leve pra não perdoar
Tô estudando pra saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar

Eu tô te explicando
Pra te confundir
Eu tô te confundindo
Pra te esclarecer
Tô iluminado
Pra poder cegar
Tô ficando cego
Pra poder guiar

Suavemente pra poder rasgar
Olho fechado pra te ver melhor
Com alegria pra poder chorar
Desesperado pra ter paciência

Carinhoso pra poder ferir
Lentamente pra não atrasar
Atrás da vida pra poder morrer
Eu tô me despedindo pra poder voltar

Eu tô te explicando
Pra te confundir
Eu tô te confundindo
Pra te esclarecer
Tô iluminado
Pra poder cegar
Tô ficando cego
Pra poder guiar

No fim daquela jornada, voltando pra casa de amigos em Botafogo, onde me hospedara, fiquei pensando na espontânea e irretocável forma com que todos do MIS pronunciavam o nome de Elto e me lembrei de haver lido que, certa vez, Cartola teria dito que há um “n” a mais e outro a menos em seu nome e no nome de Elton: é que ele, Cartola, tem como nome de batismo “Angenor” e Elton é “Elto”.

Não faz diferença!
Ou faz?

Abaixo, o lirismo de Paulo César Pinheiro em pé de igualdade sob melodia de Elton, aqui mostrando sua faceta como intérprete cantor.


Música: A ponte
Composição: Elton Medeiros e Paulo César Pinheiro

Chora
Põe o coração na mesa
Chora
Tua secular tristeza
Tira o teu coração da lama
E chora
A dor santa e a dor profana
Que Deus protege a quem chora
Por toda tristeza humana

O homem é sempre só
O fim é sempre pó
Ninguém foge do nó
Que um dia a vida faz
Por isso chora em paz
Que a lágrima que cai
É a ponte entre mais nada
E outra vida mais

(E Deus protege a quem chora)


(A imagem anexada logo na sequência de abertura do texto é uma cópia de uma original feita por mim na sala do Elton, naquela ocasião, com minha possante (!) Kodak (?): guarda visualmente a memória de um belo dia em companhia de um grande cara!).