Mostrando postagens com marcador Brandão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brandão. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Entrevista com o compositor Ednardo

(por Magno Córdova)

Não será equivocado apontar a obra do compositor cearense Ednardo como das primeiras motivações que tive para realizar um trabalho sobre a música no Brasil, em especial sobre a música produzida na região Nordeste e sua projeção dentro do território nacional. A escuta atenta de seu repertório, desde muito cedo, aliada ao interesse crescente por conhecer lugares e histórias por ele cantados - o seu Ceará, principalmente -, mais a identificação de um percurso pessoal/musical criativamente rico foram, sem dúvida, elementos suficientemente convincentes de que eu me encontrava diante de um trabalho consistente o bastante para acionar campos de compreensão da nossa realidade através da nossa experiência musical. E, claro, a intensificação com que essa escuta se deu, por mim, em Minas e, particularmente, no vale do Jequitinhonha, fez com que minha cidade natal, sertaneja, ganhasse ares praieiros da Fortaleza e se fortalecesse em seus aspectos sertanejos com o Ceará de Ednardo; ao mesmo tempo em que moldava a representação da terra do artista com elementos de minha realidade mineira, identificando-as, em vice-versa. Não foi à toa a adoção do título de minha dissertação de mestrado, na Universidade de Brasília, a partir do empréstimo de versos de uma canção emblemática de toda essa experiência, de autoria do compositor: "Rompendo as entranhas do chão" (título principal do texto acadêmico) está em "Pastora do tempo", música presente no repertório do disco O azul e o encarnado, gravado em 1977, e que, ao longo do desenvolvimento da pesquisa, projetou-se como uma espécie de síntese do caminho tomado pelas reflexões por mim nela realizadas.

Capa do disco O azul e o encarnado, lançado por Ednardo, em 1977(*)

A entrevista a seguir foi realizada, portanto, durante minha pesquisa, concluída oficialmente em 2006. Até que eu me mudasse da capital federal para a cidade do Rio de Janeiro, onde tive oportunidade de aproximar-me pessoalmente de Ednardo, nossa comunicação se dava por e-mail. Foi por e-mail que ele me respondeu as questões que trago aqui a público. Esta entrevista não é inédita na internet: Ednardo a incluiu em seu blog, Zeca Zines, no ano de 2008 (cf. http://zecazines.blogspot.com.br/2008/12/rompendo-as-entranhas-do-cho.html). A diferença é que, neste caso, editei algumas imagens e canções mencionadas ao longo do diálogo, como maneira de lançar mais luz sobre os assuntos mencionados. Eu, já na época elevado à condição de colaborador especial do blog do Ednardo, me senti honrado de ter, da parte do artista, o reconhecimento pelo esforço empreendido em meu trabalho. Senão como alguém que fala "de dentro" do objeto analisado (o que poderia supor uma análise mais consistente, apoiada na experiência empírica), ao menos como observador atento posicionado "nos arredores" de sua manifestação. E este "lugar de fala", meio "estrangeirado", digamos, não deixa de ter sua importância, como que confirmando o alcance e ampliação territorial das obras daqueles artistas.

Segue, então, a entrevista com Ednardo.

Magno Córdova: Na época em que alguns dos parceiros do Ceará residiram em Brasília, no início da década de 70, vocês continuaram mantendo contatos? A concepção do disco coletivo Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem ocorreu quando todos (você, Rodger e Téti, principalmente) já se encontravam em São Paulo, ou a ideia de um trabalho conjunto, mais orgânico, já havia sido cogitada em Fortaleza?

Ednardo: Quando residíamos em Fortaleza, o tempo de todos era ocupado pelo aspecto de fazer músicas e letras, teatro, artes plásticas, etc, tudo que estivesse no contexto artístico. Também tínhamos nossos estudos em faculdades e trabalhos. Naquela época, até talvez por causa do curto tempo disponível de cada um, não existia na maior parte dos participantes a preocupação organizacional, projetos, ou cogitar trabalhos futuros. A vida era - como é - urgente! Claro que alguns tinham o enfoque de pensar o todo, entre eles Augusto Pontes, sem dúvidas, tinha esta visão futura, mas o pessoal, embora se reunisse sempre que possível, tinha tanta premência de se expressar em tão exíguo espaço de tempo. De certa forma, sabíamos que uma parte significativa das pessoas iria desaguar em outros espaços. Nossa cidade de Fortaleza, naquele momento, era pequena, ou não comportava tanta criatividade. Certo é que existia uma inadequação às propostas de todos naquele momento. Não sei se houve projeto arquitetado neste sentido, as necessidades de todos foram se desenvolvendo de forma grupal e individuais sem concepções à priori. O fato é que, no êxodo, existem direções em três partes: alguns foram para Brasília, outros para o Rio de Janeiro e outros para São Paulo. E sempre que possível mantínhamos contatos, claro que sem as facilidades de internet e comunicações de hoje em dia. Mas existia esta energia, que rolava sempre que era possível uma reunião. Às vezes maravilhosas, outras deixavam a desejar, era um tempo de exceção, ditadura, competição de espaços.


("Ingazeiras", autoria de Ednardo, abre o disco Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem, de 1973, que posteriormente cunhou o trabalho dos artistas envolvidos com a nomenclatura Pessoal do Ceará. Vídeo extraído do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=XJXuPSSEpL8)

Nascido pela Ingazeiras
Criado no oco do mundo
Meus sonhos descendo ladeiras
Varando cancelas
Abrindo porteiras

Sem ter o espanto da morte
Nem do ronco do trovão
O sul, a sorte, a estrada me seduz

É ouro, é pó, é ouro em pó que reluz
É ouro em pó, é ouro em pó
É ouro em pó que reluz
O sul, a sorte, a estrada me seduz

MC: Você se lembra - e pode narrar - a circunstância em que se deu o contato inicial com Climério?

Ednardo: A ponte inicial com o Climério foi feita pelo parceiro Augusto Pontes, em 72, após um show que realizei na UnB – Auditório Dois Candangos, para os estudantes de Brasília. Estavam presentes na platéia Augusto Pontes, Yeda Estergilda, Climério e Clodo e uma quantidade muito grande de estudantes e professores. Estava tudo lotado, cadeiras e no chão, tudo apinhado de gente. Para entrar no palco, já que todos acessos estavam bloqueados pelo excesso de pessoas, tive que subir por uma escada que arranjaram no momento e, através de uma janela lateral que ficava a uns dois metros de altura, dar um salto diretamente para o palco, pra delírio da platéia que comentou que foi uma das entradas em cena das mais sensacionais e inusitadas. No dia seguinte, os irmãos Ferreira convidaram para ir na casa de Dona Alice, matriarca da família. Lembro até hoje seu sorriso luminoso, com voz suave, pautada e amiga. Foi ótimo, tocamos violões, cantamos, tomamos cervejas e principalmente se fez amizade plena que resulta em várias parcerias artísticas.

(a canção "Estaca zero", gravada no lp Berro, de 1976, inaugura a parceria Ednardo/Climério. Gravada no mesmo disco, a parceria entre Ednardo e um outro piauiense, Brandão, intitulada "Vaila" havia sido finalista do Festival Abertura, no ano anterior).

Cada braça de caminho
Um soluço de saudade
Toda vereda de roça
Vai descambar na cidade

E a gente fica sereno
Desconhecendo o destino
E com um sorriso besta
De quem sabe onde chegar

A cada prédio ou palmeira
Luz de neon ou luar
Elevador, capoeira
A gente vai se assustar

Mas faz de conta que sabe
Que tem um canto da estrada
Chamado estaca zero
Onde a gente pode dizer
O rumo que quer tomar

Cada braça de caminho
Um soluço de saudade
Toda vereda de roça
Vai descambar na cidade

MC - Como foi que surgiu a ideia e como se deu a sua atuação junto aos irmãos Ferreira no primeiro disco da carreira do trio, o São Piauí?

Ednardo - Na casa de Dona Alice, escutei algumas músicas do Climério, Clodo e Clésio e gostei da sonoridade e letras daquelas músicas. Disse pra eles que, quando tivesse oportunidade, eu gravaria um disco com eles. Anos depois, Climério foi residir em São José dos Campos, São Paulo, em pós-graduação universitária, no INPE. Nossos contatos foram mais freqüentes, ele foi diversas vezes à minha casa em São Paulo e convidava para também ir a São José dos Campos. No Bar do Pedro, entre músicas, violões e cervejas, a ideia de nossa parceria foi sendo construída. Tinha a Frô do Avaré, Flying Banana (Carlão, Bê e Passoca), os shows que fiz em São José. Foi quando, em 76, a música "Pavão Mysteriozo" foi sucesso no Brasil e exterior e falei pro Climério: “Sabe aquele lance que conversamos em Brasília? Acho que agora eu posso sugerir para gravadora o disco de vocês”. O Cli tomou um susto e disse que o que eles estavam pensando era eu gravar músicas deles e eu disse que minha ideia era outra: eles próprios gravarem suas músicas. Foi uma noite de justificações do Climério tentando convencer que eles não eram artistas, não tinham voz pra isto, cada um já realizava outro trabalho diferente desta praia e eu tentando convencer que eles podiam, sim, gravar este disco com suas vozes. Terminamos a noite eu, o Cli, o Flying Banana, a Frô do Avaré (Evelise) sentados na calçada frente ao Banhado, que tem uma vista privilegiada pro Vale de São José dos Campos, era inverno e estava amanhecendo e, no brumado, lá ao longe, se via um trem envolto em neblinas. O céu se confundia com a terra e formava no difuso um espaço mágico e eu falei: "Olha ali, Cli. Está vendo aquele trem flutuando nas nuvens? Parece um cinema impossível, aquela máquina e seus vagões estão voando aos nossos olhos. Vocês podem sonhar um pouco mais e ver que é possível você e seus irmãos gravarem este disco?". Semanas depois, nos reunimos em São Paulo em quatro dias e noites, gravando no “Tenda Som” (pequeno estúdio em minha casa) umas vinte e tantas músicas em k-7 que levei à direção artística da RCA, (atual BMG), e o Cli falando: "Rapaz, isso é somente uns 'Pensames', eles não vão querer". Foi difícil convencer a direção artística da gravadora. Levei-os ao programa da TV Bandeirantes – Mambembe, produzido por Walter Silva, onde também o Pessoal do Ceará se apresentava semanalmente junto a outros participantes, e o Walter os colocou pra cantar. Chamei um assistente de direção artística da gravadora para dar uma olhada, pois no dia seguinte os irmãos Ferreira estavam voltando pra suas casas e, na prorrogação do segundo tempo, minutos finais, recebi o telefonema da gravadora autorizando a gravação do disco São Piauí. Fui avisá-los na Rodoviária de São Paulo, que ficava ao lado da Estação da Luz. Os ensaios e arranjos foram realizados em minha casa durante duas ou três semanas, junto aos músicos de base. O disco - entre gravações, mixagens, artes gráficas de capas - em pouco mais que dois meses. E o resto é história, deste disco inaugural da maior importância – São Piauí.

(Capa do lp São Piauí, primeiro dos irmãos Clodo, Climério e Clésio, lançado em 1977, produzido por Ednardo. A arte da capa foi assinada por Fausto Nilo)

MC - A música "Folia ou Pressa" tem algum significado histórico especial para você, ou a sua "(re) descoberta" se deu mais recentemente?

Ednardo - O disco Única Pessoa é formatado com objetivo onde minha ação principal é de intérprete. Há muito tempo queria realizar disco com esta característica. Escolhemos temas que se coadunavam e foram feitas seleções de mais de 80 músicas até chegarmos naquele perfil, com obras de autores de várias localizações abrangentes. Tem autores do Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Rio de Janeiro, Goiânia, Paraíba, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e, além Brasil, tem música de autora de Cuba. Só interpreto músicas de outros quando gosto e somente quando me dá prazer em cantá-las. Então, vejo todas estas músicas de forma especial, mas entre umas e outras não existe um significado de diferença, Todas fazem parte do universo que não necessariamente representa histórico pessoal complementar. É mais por gostar de cantar, mesmo.

MC - No disco Cauim você gravou "Terezina - 40 Graus". (Eu não conheço o filme Cauim, onde talvez haja algum esclarecimento sobre a pergunta que se segue). Como foi - e é - sua relação com a cidade de Teresina, em particular, e com o território do estado do Piauí, de uma maneira geral?

Ednardo - Tenho proximidade artística e existencial com o Piauí, grandes amigos e amigas, alguns parceiros como Climério, Brandão, realizei produções artísticas como, por exemplo, na Massafeira, que resultou em disco duplo, onde estão Chico Pio, Ana Fonteles, Zezé Fonteles, Jabuti, todos eles do Piauí. Produzi o primeiro disco dos irmãos Ferreira - Climério, Clodo e Clésio. É uma lista representativa, que inclui também entre os amigos Cinéas Santos, Wellington Dias, Jorge Mello e tantos outros. Aliás, o Ceará e Piauí têm historicamente muitos itens em comum e complementares. A Serra da Ibiapaba é uma espécie de “fronteira” permeável. Existe história que antes o estado do Piauí não tinha em seu território parte que dava pro mar e os governos destes estados trocaram territórios, uma parte do pé de serra da Ibiapaba que era do Piauí por uma parte do litoral que era do Ceará – que hoje representa aquela faixa de Parnaíba. Além disto, tem o grande fluxo de seus habitantes que se dá em duas vias de mãos, corações e mentes, tanto do Ceará para o Piauí quanto do Piauí para o Ceará. Tanto que, tranquilamente, existe este fluxo há muito tempo, onde todos se sentem em sua própria casa.

("Terezina 40 graus" foi gravada no disco Cauim, lançado em 1978. Cabe em destaque a importância dos arranjos para violão nesse disco, que conta [às vezes simultaneamente] com 3 violonistas: o próprio Ednardo, Pepeu Gomes e Wilson Cirino).

Troca que troca que troca 
Lembranças 
Contra corrente do rio, 
Vai vapor 
Que também sem ti 
Posso navegar 
E cada instante de rio 
Me afasta 
De cada saudade do mar 
De cá, dá saudade do mar

MC - Você pode me falar a respeito da inclusão de "Rasguei o teu retrato" e "Na asa do vento" ao seu repertório discográfico?

Ednardo - Desde menino, escuto músicas de compositores, autores e intérpretes que antecederam nossa geração, contemporâneos e novos, tanto na área popular quanto clássica. É natural que esta memória afetiva esteja presente eivando vários momentos. Em meus discos, além de ter aberto espaços para inúmeras parcerias, vez por outra reservo alguns espaços para interpretar obras de outros autores, além destas que você cita tais como Cândido das Neves e João do Vale, Luiz Vieira, Belchior, Fausto Nilo, Petrúcio Maia, Humberto Teixeira, Lauro Maia, Augusto Pontes, Graco, Stélio Valle, entre muitos outros, o que se concretiza mais claramente no disco Única Pessoa que gravei em 2000. Disco que realizei como intérprete de músicas de Chico Buarque, Milton Nascimento, Fernando Brant, Totonho Villeroy, Bebeto Alves, Nilson Chaves, Jamil Damous, Clésio Ferreira, Augusto Pontes, Maria Tereza Lara, Javier di Mar-y-Abá, Régis Soares, Chico Pio, Neudo Alencar, Rogério Soares, Lauro Maia, Humberto Teixeira, Antonio Cícero, Orlando Moraes, com uma única música minha em parceria com Chico César.

MC - A canção "Serenata pra Brazilha" foi composta à época do lançamento do Imã? É possível você falar sobre esta composição e sobre o lugar ocupado pela cidade de Brasília em sua trajetória?

Ednardo - "Serenata pra Brazilha" foi realizada durante a gravação do disco Imã, em 79, junto ao disco duplo Massafeira, os três discos foram lançados em 80. Esta música, inclusive, foi gravada somente com voz e violão, uma espécie de serenata pra uma cidade que talvez não comportasse serenatas, a não ser nas periferias das cidades satélites. Mas achei interessante contrapor o fato quase que impossível de se fazer uma serenata no plano piloto e suas asas, mais afeito às preocupações políticas partidárias e funcionalismo público. Mas não só isto: como uma espécie de toque de união geral à alma do povo brasileiro. A música foi gravada no disco logo após a composição feita. Gosto muito de Brasília, a ideia estética de cidade construída, de forma moderna e pensada, no Brasil. Tem outras cidades construídas desta forma, mas a ideia de conjunto arquitetônico de Brasília é fenomenal, nas concepções de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Mas não é só isto que me liga a Brasília: meu pai, Professor Oscar Costa Sousa, falava muito de Dom Bosco, de suas profecias, seus métodos de ensino, lia ensinamentos com constância, tanto que fundou em Fortaleza, como professor e diretor, o Ginásio Dom Bosco, no qual exerceu magistério por mais de 50 anos. Então veio a vontade de conhecer a concretização realizada por Juscelino Kubitschek, que igualmente lia Dom Bosco. Juntou-se ao fato que alguns parceiros e companheiros de artes também foram morar nesta capital e, ao chegar pela primeira vez, fiquei extasiado por sua energia. É lindo o cerrado, o planalto central tem de verdade coisas muito especiais, além de ser a concentração do status quo político da nação. Pois Brasília não é apenas a sede do poder político brasileiro. Nesta música, coloco Brasília com Z, a última letra das incógnitas, como se aprende na álgebra. Z, no alfabeto grego, também significa vida. Tenho muitos amigos em Brasília. Também é um desaguar de habitantes de todas as partes do planeta, é uma “ilha” e um “espaço-porto”, onde aí encontrei também os descendentes dos primeiros desbravadores, chamados “candangos”, que ajudaram construir a cidade, e nesta “cosmo-visão” a música já estava pronta e veio num repente.

(*) Informações e escuta do disco podem ser acessadas em https://ednardo.bandcamp.com/album/o-azul-e-o-encarnado-2

domingo, 7 de junho de 2015

Sotaques sonoros: Clube da Esquina e Pessoal do Ceará. *

    Quem se ocupa a pensar a música realizada no Brasil - em particular a que envolve a formação e consolidação da polêmica sigla MPB - pode tranquilamente deduzir que a experiência tropicalista incorporou e, mais que isso, extrapolou e reconfigurou algumas práticas características da esfera musical da nossa cultura observadas até o seu advento. Comumente, alguns analistas darão destaque à obviedade, neste caso, de uma imprescindível aliança com o mercado, essa “instância quase hegemônica” em tudo. E não será novidade alguma chegar-se à conclusão de que os desdobramentos da Tropicália superaram em muito a capacidade criativa inicial dos seus protagonistas, legitimando e até mesmo enriquecendo e consolidando o seu arcabouço “manifesto”.

         Por outro lado, é possível apontar permanências ou mesmo retomadas de perspectivas (musicais, ideológico-discursivas) que passaram despercebidas sob um olhar menos atento, perspectivas supostamente abolidas do cenário musical brasileiro imediatamente após o surgimento daquele movimento. Em outras palavras, é possível deduzir do relato de uma experiência subsequente situada no contexto do mesmo segmento sociocultural – portanto, sua herdeira hipoteticamente natural - que a hegemonia do cosmopolitismo tropicalista não reinou suprema em solo brasileiro. Ao contrário, distanciados no tempo, é possível vislumbrar que ao lado da generosa ruptura e reformulação hierárquica de valores musico-poéticos e consequente distensão de fronteiras que os conformavam, assimilação da diversidade e liberdade formal criativa, não desapareceu no Brasil a defesa dos localismos, das identidades primeiras, das particularidades pontuais de uma dada região desse nosso vasto, múltiplo e complexo território. E essa permanência não implicou nem pode ser tomada como retrocesso ou reacionarismo cultural. Ela seria, antes, um dado característico da cultura do país.

           Eis, portanto, o relato que ilustra tais especulações.

           Em meados da década de 1970, na cidade do Rio de Janeiro, o cantor e compositor cearense Raimundo Fagner finalizava o seu terceiro disco individual, o primeiro dele pela gravadora CBS. Em meio às seções de gravação daquele LP, Milton Nascimento apareceu no estúdio para ouvir os fonogramas concluídos do repertório. Terminada a visita, Fagner acompanhou Milton até a porta do recinto e de lá voltou resmungando uma frase disfarçadamente ríspida e indignada:
- “Vocês são mesmo uma máfia!”.
Diante do “por que” de espanto lançado pelo seu interlocutor, Fagner contou que ao perguntar a opinião de Milton sobre as músicas que havia ouvido recebeu como resposta:
- “Claro que tem que estar bom! Tem mineiro tocando!”.

("Além do cansaço", de Brandão e Petrúcio Maia, faixa do LP Raimundo Fagner [vídeo extraído do Youtube]. No acompanhamento da música: Robertinho de Recife [Guitarra Leslie], Robertinho Silva [Bateria], Herman Torres [Baixo-elétrico] e Túlio Mourão [Piano]).

A provocação das palavras de Milton poderia ser facilmente identificada à figura do músico Wagner Tiso, presente naquele LP do cearense. Como se sabe, a trajetória de profissionalização musical de Wagner e Milton é indissociável, tendo eles iniciado amizade e aproximação musical já na década de 1950, na cidade mineira adotada pela família do menino Bituca e que também é a terra natal de Wagner: Três Pontas. Os “mineiros” estavam, pois, naquele momento, há cerca de duas décadas trabalhando juntos.

Entretanto, é de se pensar que seriam por demais inconsistentes as palavras dirigidas por Milton a Fagner – apesar de brincalhonas - se tomássemos essa referência na atuação relativamente reduzida, embora brilhante, do seu parceiro no disco do amigo nordestino: Wagner Tiso foi responsável pelos arranjos de cordas, mas “tocou” piano em apenas duas faixas do LP. Se levarmos em conta o ato de “tocar” como chave da questão colocada por Milton, mais plausível seria situarmos essa “defesa da mineiridade” estando subjacente à presença do músico a quem Fagner se dirigiu em seu retorno ao estúdio, na ocasião do diálogo mencionado: principal responsável pelos teclados daquele LP, intitulado Raimundo Fagner (1976), Túlio Mourão nasceu em Divinópolis, na região centro-oeste de Minas Gerais, e se sentiu particularmente lisonjeado ao saber da conversa.
           
            Para além do tom anedótico que o episódio sugere, sabe-se que um dos traços mais cultuados da produção musical mineira situada ao redor da obra de Milton Nascimento, conhecida como Clube da Esquina, é a preocupação com a estrutura harmônica de suas canções. O reconhecimento desta característica certamente valorizou o desempenho e deu visibilidade à figura do músico instrumentista que circulava naquele meio, sob o critério da acuidade criativa e do apuro técnico.
           
           Túlio Mourão, no entanto, não era do Clube. Quando ocorreu a conversa entre Fagner e Milton, Túlio jamais havia atuado profissionalmente com qualquer um dos componentes do Clube, seja em apresentações públicas ou em gravações de discos. Havia, sim, se aproximado de três dos seus futuros representantes, quando foi morar em Belo Horizonte, na década de 60: Lô Borges e Beto Guedes foram seus colegas nas aulas de teoria musical conduzidas por Toninho Horta.

           A atuação profissional de Túlio como instrumentista começou a se projetar nacionalmente em 1973, já morando no Rio de Janeiro, quando integrou os Mutantes e com eles gravou o LP Tudo foi feito pelo sol (1974). Com sua saída do grupo, o músico Liminha, também egresso dos Mutantes, o convidou para fazer parte da banda de apoio do compositor cearense Belchior. Este contato o aproximou dos demais cearenses radicados no Rio na época, como Fagner, que o escalou para o referido disco de 76.

           Apesar de terem se encontrado, ao menos uma vez, nos bastidores de um festival da canção de Belo Horizonte - segundo informa o letrista Márcio Borges em seu livro Os sonhos não envelhecem -, para Túlio Mourão foi no estúdio de gravação do LP de Fagner que se deu sua primeira grande aproximação com Milton Nascimento, onde este pode conhecer seu trabalho mais de perto.

           Como explicar, então, posição tão categórica assumida por Milton em seu diálogo com o amigo? A resposta pode descortinar-se reconhecendo em seu discurso a tradução de uma etapa significativa de afirmação da identidade musical mineira que assumira: no ano de 1975 – ou seja, no ano anterior ao Raimundo - ele gravou o disco Minas, onde se encontra uma particularidade que pode explicar a veemência de sua postura.

           Milton Nascimento nasceu na cidade do Rio de Janeiro, mas criou-se em Três Pontas, no sul de Minas Gerais. Foi somente com o LP Minas que veio a público oficialmente a relação de simetria entre o primeiro nome do estado adotivo e a junção das iniciais do seu próprio nome – MI de Milton e NAS de Nascimento. O que poderia ser considerado apenas uma feliz coincidência fortaleceu ainda mais os laços de identificação que sua trajetória musical evocava, ao associar sua imagem, de imediato, à toponímia local. Com o Minas o “movimento” do Clube da Esquina marcou definitivamente seu território; consolidou seu endereço e, com isso, sua tradição e historicidade. Além do mais, centralizou definitivamente sua produção na figura de um artista cujo nome passou, então, a se confundir com o próprio nome do estado de onde originava sua música. 

          Ao explicitar e consolidar o endereço da Esquina, o LP Minas estabeleceu, paradoxalmente, a conexão que faltava a uma representação para além do espaço doméstico. Perspectiva que superou os limites circunscritos a tal esquina, extrapolou o domínio da rua, do bairro e da cidade, da capital e do interior, pra alçar-se ao âmbito da nação. Isso sem contar a consistente projeção internacional que sua música e a de alguns companheiros de clube haviam alcançado até aquele momento e que se ampliaria em momento posterior. Para não deixar dúvidas quanto à definição do território tomado por si, Milton lançou, no ano da conversa com Fagner e na seqüência do LP Minas, o disco Geraes (1976).

          O que estava sendo posto era um processo múltiplo de afirmação cultural – local, regional, nacional e, também, cosmopolita – através do fortalecimento de uma simbologia geográfica e o sentimento a ela associado.  Não seria equivocado afirmar que nunca, antes deste processo, a música popular realizada e reivindicada em nome do estado de Minas Gerais havia alcançado status equivalente e tão convincente.

           Essa prática que adota referenciais geográficos em nomes artísticos - e em títulos de discos - não é uma peculiaridade de Minas. Ela está presente em diversos momentos da história fonográfica do Brasil. Aparece, por exemplo, com Manoel Pedro dos Santos (1870-1944), conhecido como Baiano, intérprete de “Isto é bom”, em 1902, e “Pelo telefone”, em 1917. Também marcou João Teixeira Guimarães (1883-1947), o João Pernambuco, que é considerado o introdutor da música nordestina no Rio de Janeiro.

            Entretanto, a sutileza da coincidência entre o nome do artista e o nome do estado natal (ou adotivo) foi e continua sendo uma exclusividade da experiência mineira capitaneada por Milton Nascimento, nos anos 70. A recorrência com que essa prática foi adotada em sua forma mais direta, na mesma época, é digna de nota: Novos Baianos, Ney Matogrosso, Fafá de Belém, Robertinho de Recife e Zé Ramalho da Parahyba surgiram no mesmo contexto. Do lado oposto à afirmação mineira de Milton, outra manifestação musical com ares de “movimento” foi muito bem sucedida no uso desse “recurso identitário”: é pela existência do Pessoal do Ceará que se torna possível entender a reação de Fagner à resposta de Milton. 

             Assim como os mineiros, que formalizaram a existência do Clube da Esquina a partir do LP homônimo lançado por Milton Nascimento e Lô Borges em 1972, a ideia musical coletiva vinda do estado do Ceará se disseminou a partir do disco Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem (1973). Seus porta-vozes imediatos foram Ednardo, Rodger Rogério e Tetty, intérpretes das canções ali reunidas. A eles se associavam os compositores das músicas inéditas apresentadas naquele LP, como Fagner, co-autor de uma delas. A bandeira era a mesma do Clube mineiro: falar em nome do seu estado.

             Portanto, Túlio Mourão foi o pivô de uma “disputa” envolvendo a música popular de Minas Gerais e Ceará; de uma luta por visibilidade das identidades artísticas claramente distintas dos dois estados. Não seria equivocado afirmar, como alguns estudiosos e jornalistas, que aquelas foram as duas “tendências” musicais regionais de maior consistência no cenário da música popular brasileira daquele momento. Ao menos do ponto de vista da ideia de “movimento”, de um trabalho orgânico envolvendo a atuação de diversos artistas.

            Curiosamente, da parte do fortalezense Fagner, veio uma atitude inédita em sua carreira, até então. O seu disco seguinte à conversa com Milton chama-se Orós (1977), em homenagem à cidade onde ele foi registrado, localizada na beira do açude de mesmo nome, na região centro-sul do Ceará. Foi nessa época, inclusive, que Fagner assumiu a direção artística do selo Epic, da gravadora CBS. Sob sua direção, foram produzidos discos de vários artistas nascidos em seu estado, mas também fora dele.[i] Fagner desempenhou importante papel para que se fizesse clara a qualidade instrumental destes discos. Os arranjos e instrumentações são a dimensão de destaque aí presente. Nomes como o do multi-instrumentista Hermeto Pascoal aparecem na direção musical de alguns destes LPs. Trata-se de um riquíssimo acervo musical desta segunda metade da década de 70. Trilhando um caminho diferenciado de Milton Nascimento, Raimundo Fagner atingiu o objetivo comum que se pode depreender da postura de ambos – ele e Milton, no diálogo travado em 76: a valorização do músico instrumentista brasileiro.

             Milton retomou com os companheiros a ideia original coletiva, lançando o LP Clube da Esquina 2, em 1978. Desta vez, agregando uma quantidade impressionante de músicos e amigos de origem diversa na gravação do disco. Como se o Clube da Esquina fosse a própria casa daquilo que se convencionou chamar MPB, entendida como a música que melhor representava o país, a identidade musical da nação.

              Quanto à Túlio Mourão, naquela segunda metade de década, continuou trabalhando com artistas cearenses. Por outro lado, seus laços musicais se estreitaram com Milton Nascimento, a quem passou a acompanhar em apresentações e gravações de discos a partir dos anos 80. Mas foi de sua participação no disco Brilho, do compositor cearense Stélio Vale (1951-2008), que se deu um outro importante encontro para a sua trajetória musical. Nas gravações desse disco, Túlio se aproximou do violonista Nonato Luiz. Do encontro entre o mineiro Túlio e o cearense Nonato, surgiu um disco com o significativo título de Carioca (1991).



Aqui, Túlio Mourão e Nonato Luiz interpretam a música "Carioca", de autoria de Nonato Luiz e faixa que dá título ao disco realizado pelos dois músicos (vídeo extraído do Youtube). 

* Uma versão modificada do presente texto foi aprovada pela Revista de História da Biblioteca Nacional e continua inédita. 


[i] Tornou-se conhecida, no meio musical, uma outra brincadeira sugerindo ser CBS a sigla para Cearenses Bem Sucedidos.


Notas Explicativas

1 - Além de Milton Nascimento, o Clube da Esquina era formado pelos mineiros Márcio Borges, Lô Borges, Wagner Tiso, Toninho Horta, Fernando Brant, Beto Guedes, o carioca Ronaldo Bastos, dentre outros. E, com alguma reserva, poderíamos incluir os demais músicos integrantes do grupo Som Imaginário, estrutura base de acompanhamento de Milton Nascimento nos discos que consolidaram o Clube: Laudir de Oliveira, Tavito, Fredera, Robertinho Silva, Luiz Alves, Nana Vasconcelos e Zé Rodrix;

2 - Não há um acordo, entre os próprios protagonistas sobre a existência formal do Pessoal do Ceará. No entanto, é possível pensar em unidade da música cearense, surgida na década de 1970, a partir dos trabalhos de Ednardo, Fagner, Belchior, Rodger Rogério, Tétty, Fausto Nilo, Brandão, Manassés, Wilson Cirino, Petrúcio Maia, Ricardo Bezerra, Amelinha (principalmente – alguns preferem considerar “exclusivamente” - em seu primeiro disco), dentre outros. Poderíamos incluir os irmãos Clodo, Climério e Clésio Ferreira que, embora nascidos no Piauí e tendo se fixado no Distrito Federal, se aproximaram dos compositores cearenses mais ou menos no período em que se deu a conversa aqui narrada. 

Depoimento de Túlio Mourão

É possível se falar em algum elemento diferencial, determinado pelo local de origem dos artistas nascidos na região Nordeste, que tenha sido uma contribuição estética (musical ou poética) daquela região à canção popular realizada no país na década de 70?
Túlio: Estou convencido que sim. Pelo lado das letras, o discurso poético que vinha do nordeste exibia um diferente equilíbrio equidistante entre o urbano, o rural, o político, o romântico e o existencial. Pelo lado musical, as estruturas melódicas e harmônicas mostravam uma distância da sofisticação da bossa nova ou do jazz, que remetia a distância física de Fortaleza ao Rio de Janeiro. A música exalava um frescor agreste que, de certo modo, refletia o quantum de informação que os músicos estavam elaborando na ocasião. Sugeria, também, que Fortaleza teria uma comunicação própria com o mundo, o seu próprio cosmopolitismo refletido, por exemplo, na maneira de valorizar e incorporar elementos do pop e o rock (que mineiros também faziam à sua maneira). Acho que isto tudo configura originalidade e riqueza, ou seja, singularidade que marca a inserção da música do Nordeste na MPB.


Capa do disco "Carioca", de Túlio Mourão e Nonato Luiz. 


Sugestões de leitura:

AIRES, Mary Pimentel. Terral dos sonhos – O cearense na música popular brasileira. Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desporto do Estado do Ceará/Multigraf Editora, 1994.
BAHIANA, Ana Maria. Nada será como antes:MPB anos 70  – 30 anos depois. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2006.
BORGES, Márcio. Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina. São Paulo: Geração Editorial, 2002.
SEVERIANO, Jairo. Uma história da Música Popular Brasileira – Das origens à modernidade. São Paulo: Ed. 34, 2008.


domingo, 26 de agosto de 2012

Clodo Ferreira



por Magno Córdova


Assim como o texto sobre a cantora Terezinha de Jesus, aqui postado, o material a seguir representa o documento que produzi e enviei para o ICCA - Instituto Cultural Cravo Albin, relativo ao compositor Clodo Ferreira. Também neste caso, o verbete pode ser conferido na página do Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira. 





          Clodomir Souza Ferreira nasceu em Teresina, capital do estado do Piauí, no dia 30 de julho de 1951. Passou a infância junto aos pais e irmãos, em Teresina. No início da década de 60, tinha por intuito se ordenar e passou a freqüentar o seminário local. Transcorridos dois anos na condição de seminarista, um episódio veio alterar o rumo de sua vida.
A passagem dos anos 50 para os 60 no país foi marcada pela transferência da capital da República, da cidade do Rio de Janeiro para a cidade de Brasília. A nova capital representou para muitos trabalhadores brasileiros e, particularmente, para as populações do norte/nordeste do país, uma perspectiva de melhoria na qualidade de suas vidas. Muitos foram os que migraram para a recém-construída cidade e seus arredores. No caso da família Souza Ferreira, deslocaram-se para o Planalto Central - a partir de 1962 - os dois filhos mais velhos: Climério e Clésio. Em 1965, o Sr. Matias Ferreira decidiu-se por residir também na capital, levando consigo esposa e demais filhos. Instalou moradia em Taguatinga, cidade satélite do Distrito Federal.
Se ainda em Teresina Clodo aprendeu seus primeiros acordes ao violão, foi na nova cidade que ele intensificou sua relação com a música. Em Taguatinga, a proximidade com os irmãos mais velhos, já iniciados nos caminhos da canção popular e com os quais já havia aprendido a tocar “olhando”, foi um incentivo para que se dedicasse mais à arte de tocar, cantar e compor. Por volta dos quinze anos, passou a fazer suas próprias canções e em parceria com Climério e Clésio. Juntou-se à amiga Ana Silva, formando uma dupla que por algum tempo se apresentou interpretando um repertório pautado no que faziam Leno e Lílian: típico da Jovem Guarda, tendência musical que àquele momento se encontrava no auge do sucesso entre uma parcela do público jovem. Participou, como contra-baixista, do conjunto local Os Geniais. Chegou a assumiu a guitarra base do grupo Os Continentais, que depois veio a se chamar os Quadradões, embrião do futuro grupo Placa Luminosa. Em 1968, Os Quadradões gravaram, em seu LP de estréia, a canção intitulada “Ao entardecer”, parceria com Clésio e a primeira música de Clodo gravada em disco. Passou a ser freqüente, àquela época, a apresentação em dupla com a irmã Cristina cantando em festas familiares e de amigos.
Com a mudança da família para o Plano Piloto da capital federal ocorreu um importante encontro que marcaria a experiência artística de Clodo, fora do seio familiar. Em 1969, ele conheceu o compositor baiano, de Bom Jesus da Lapa – também residente em Brasília -, Zeca Bahia. Zeca se tornou um de seus parceiros mais freqüentes nos dez anos que se seguiram. Após um convívio inicial de maturação musical, Clodo e seu novo parceiro inscreveram algumas composições no festival de música do CEUB – Centro de Ensino Unificado de Brasília. Naquela edição de 1972, as músicas de Clodo e Zeca levaram os principais prêmios do festival: o primeiro lugar ficou com a canção “Placa Luminosa” (Clodo e Zeca) e o segundo lugar com “Sino, sinal aberto” (Clodo). Ambas foram interpretadas pelo grupo Matuskelas que já havia gravado no ano anterior a música “Suzana” - parceria de Clodo, Romildo e Olímpio. Além dos dois primeiros lugares, o Matuskelas levou os prêmios de melhor arranjo e de melhor interpretação.Um outro dado relevante para a carreira de Clodo também ocorreu durante aquele evento: participava do corpo de jurados o jovem compositor cearense Raimundo Fagner – vencedor da edição anterior do mesmo festival com a música “Mucuripe”. Fagner quis conhecer pessoalmente os autores das canções premiadas naquele ano. Desse encontro nasceria uma amizade cujo diálogo musical daria bons frutos para ambos.
O festival de 1972 projetou o nome de Clodo Ferreira no Distrito Federal e o estimulou a buscar novas possibilidades de criação e divulgação de sua arte fora daquele território.
Em 1974, gravou pela primeira vez em disco cantando no compacto simples independente Chope no Escuro, junto com Climério e Malu Moraes, e com a participação especial do violonista Alemão. O compacto foi uma produção do grupo de Teatro Tanahora, dirigido por Geraldo Moraes, e trouxe duas músicas - das quatro gravadas - assinadas por Clodo: “Ave estrangeira” (em parceria com Climério) e “Rua São João”. No disco, Clodo interpretou “Ave estrangeira”.
 Terminado o curso de jornalismo e publicidade, feito na Universidade de Brasília – UnB, em 1975 Clodo foi morar na cidade de São Paulo. Na capital paulista, hospedou-se em casa dos músicos cearenses Rodger Rogério e Teti, representantes do grupo que ficou conhecido como “Pessoal do Ceará”. O casal acolheu Clodo durante aproximadamente dois anos, período decisivo para a consolidação do seu trabalho entre seus pares e o público. Nessa fase, compôs várias canções em parceria com Rodger das quais a que mais se destacou foi “Ponta do Lápis”. Clodo retomara, à época, o contato com Fagner, que em duo com Ney Matogrosso registrou “Ponta do Lápis” de forma marcante, lançando-a em disco compacto de vinil no ano de 1976. Fagner já havia “musicado” um poema de Clodo e a canção resultante foi incluída no repertório do terceiro LP de sua carreira, intitulado Raimundo Fagner e levado às lojas também em 1976: “Corda de aço” é uma dessas canções consideradas como das mais expressivas do momento, por possuir os traços de agressividade e lirismo tidos como típicos dos intérpretes e compositores daquela geração de artistas nascidos no Nordeste e revelados então.
A presença de Clodo em São Paulo trouxe uma nova e surpreendente perspectiva de trabalho onde se veriam consolidadas a trajetória conjunta e a reunião profissional dos irmãos Ferreira. A rede de TV Bandeirantes possuía, na época, um programa chamado Mambembe, a vez dos novos. Em 1976, Clodo participou desse programa ao lado de diversos artistas, dentre os quais estavam seus irmãos Climério e Clésio. Como, naquela ocasião, os três revezavam-se no acompanhamento instrumental sem sair do palco à medida que cada um expunha seu trabalho, o produtor do programa entendeu que formavam um trio: Clodo, Climério e Clésio. Assim passaram a ser tratados e assim passaram a se apresentar.
No ano seguinte Clodo retornou a Brasília e, juntamente com Climério e Clésio, inaugurou a carreira fonográfica do trio com o lançamento de São Piauí, disco gravado pela RCA. Esse trabalho foi produzido pelo compositor cearense Ednardo e trouxe as participações de artistas como Robertinho de Recife, Heraldo do Monte, Amelinha e Roberto Sion. A capa do disco foi idealizada pelo arquiteto e compositor Fausto Nilo. O alcance e repercussão obtidos por uma faixa do São Piauí imprimiram o nome de Clodo no cenário popular da música brasileira: além da versão presente no disco, a música “Cebola Cortada” – parceria com o também cearense Petrúcio Maia - foi lançada simultaneamente por Fagner no seu LP Orós, de 1977. Posteriormente, incorporou-se ao repertório do grupo MPB-4 (LP Bons tempos, hein?, de 1979) e ao do baiano Carlos Pita (LP Coração de Índio, de 1981 – Continental), assim como recebeu registro do próprio Petrúcio Maia (LP Melhor que mato verde, de 1980 – CBS). Foi também em 77 que se deu a inclusão da música intitulada “Velho demais” (Clodo e Zeca Bahia) na trilha sonora da novela da Rede Globo de Televisão Sem lenço Sem documento, em gravação do grupo Placa Luminosa.
No entanto, o nome de Clodo passou a ser conhecido em âmbito nacional a partir do ano de 1978. A parceria com Clésio na música “Revelação” impulsionou a carreira de Raimundo Fagner, contribuindo para alçá-la a uma condição de maior destaque na música popular brasileira. “Revelação” ficou entre as músicas mais tocadas nas emissoras de rádio de todo o país nos dois anos que se seguiram ao seu lançamento, atuando como carro-chefe do disco Eu canto – Quem viver chorará e conduzindo-o a índices de vendagem até então não alcançados por Fagner. Além da divulgação através do disco, a música foi incluída como tema da novela “Cara a Cara”, exibida pela TV Bandeirantes, em 1979. A trajetória de “Revelação” na história recente da música popular brasileira é bastante curiosa. Inicialmente celebrada por um público muito específico, ganhou leituras de artistas de gêneros e tendências os mais diversos como as cantoras Simone e Mariama, os grupos Razão Brasileira e Engenheiros do Hawaii, e o cantor Wando.
79 foi um ano de inúmeras gravações da obra do compositor. Naquele ano, Clodo entrou novamente em estúdio para gravar o segundo disco com Climério e Clésio: dessa vez pelo selo Epic da gravadora CBS, cuja direção artística estava sob o comando de Fagner. O LP se chamou Chapada do Corisco (título de uma das faixas, assinada por Clodo e Climério) e contou com a participação dos músicos Manassés, Abel Ferreira, Dino das 7 Cordas, Dominguinhos e o próprio Fagner, dentre outros. Nesse disco gravaram “Revelação”. Também aqui a capa do LP foi criada por Fausto Nilo, dessa vez juntamente com Januário Garcia. O contato com Dominguinhos a partir de Chapada do Corisco proporcionou a Clodo a cristalização de uma nova parceria: a paraense Fafá de Belém foi das primeiras intérpretes a gravar uma composição dos dois, incluindo a canção intitulada “Carece de explicação” em seu LP Estrela Radiante (Phillips, 1979). Paralelamente, outra música de Clodo era gravada por Fagner em seu disco Beleza (CBS, 1979): “Ave coração”, na qual Zeca Bahia foi co-autor. Também chegou às lojas o disco Estrela ferrada (CBS, 1979), de Cirino, contendo “Tu me querias pedra”, parceria desse compositor com Clodo. Ao mesmo tempo, aquele foi o ano do lançamento do disco SORO (CBS/EPIC, 1979), projeto que teve a direção artística de Fagner e coordenação de Ivair Vila Real. Acompanhava o disco um libreto com textos e fotos impressos de vários autores, dentre os quais estava Clodo com seu poema “Eu matuto, Tu matutas”. Merece registro a gravação do disco Equatorial de Teti, em 79, com as músicas “Barco de Cristal” (Roger, Clodo e Fausto Nilo), “Daniela” (Roger e Clodo), “Maracá" (Roger e Clodo) e “Último raio de sol” (Roger, Clodo e Fausto Nilo).
“Ave coração” entrou no repertório do terceiro disco de Clodo, Climério e Clésio, que levou o título Ferreira (RCA, 1981). A idealização desse projeto ficou a cargo de Fagner e quem assumiu a direção de estúdio foi Dominguinhos. A canção do LP Ferreira intitulada “Por um triz” merece destaque por ter sido incluída no disco Romance popular, de Nara Leão, lançado em 1981. Essa canção estreitou os laços de amizade entre Nara e os irmãos Ferreira a ponto de motivá-la a compor a única música de sua autoria. Juntamente com Fausto Nilo e Fagner ela homenageou Climério, Clésio e Clodo com a música “Cli, Clê, Clô”, presente nesse seu trabalho. Na mesma época se deu a primeira gravação da canção “Meio Dia” (Clodo e Fagner), integrando o LP Um minuto além (Polygram, 1981), de Zizi Possi.
No decorrer da década de 80, Clodo, Climério e Clésio mantiveram o ritmo da produção de canções em conjunto, mesmo ficando uma boa temporada sem gravar em nome do trio. No entanto, algumas de suas composições ganharam leituras nas vozes de vários intérpretes. Guadalupe com “Questão de tempo” e “Telhados” no LP Sempre foi bom (RCA, 1982); Fagner com “Intuição” no LP Palavras de amor (CBS, 1983) e “Tiro certeiro” no LP A mesma pessoa (CBS, 1984); Amelinha com “Canção de esquina” no disco que tem seu nome (Continental, 1987.), foram algumas das obras assinadas pelos três que receberam registros no período. O mesmo ocorreu com o trabalho de Clodo em parceria com outros músicos compositores, particularmente Dominguinhos: Ângela Maria gravou “Coberto de razão”, em seu disco Estrela da Canção (EMI, 1982); Guadalupe interpretou “Nas costas do Brasil”, no disco de 82; Cláudia, “Terra batida”, no seu trabalho intitulado Sentimentos (Lupsom, 1986); e “Promessa” foi selecionada para fazer parte do LP Fagner (RCA, 1986). Uma nova experiência na carreira de Clodo, Climério e Clésio sucedeu em 1985 quando o diretor de cinema Geraldo Moraes os convidou para criar um tema que pudesse fazer parte da trilha do seu filme A difícil viagem. Compuseram “Aruanã”.  Em 1988, o antigo parceiro Zeca Bahia lançou o LP independente Estrada das Canções, nele incluindo “Se tens, eu tenho”, de ambos.
E foi pela via do disco independente que Clodo, Climério e Clésio retomaram as atividades de estúdio nos fins dos 80. Em 1989, lançaram o vinil Profissão do Sonho com boa parte do repertório inédito e basicamente utilizando-se da estrutura técnica e profissional oferecida em Brasília. Em Profissão do Sonho incluíram “Aruanã”, do filme A difícil viagem.
Em 91, Clodo foi surpreendido por uma grata notícia: a sua música “Querubim”, feita com Dominguinhos e gravada por este nos anos 80, passou a fazer parte de uma compilação realizada pelo músico e produtor David Byrne para o mercado internacional de discos. Lançada em CD sob o título Forró etc. – Music of the Brazilian nordest (número 3 de uma série conhecida como Brazil Classics), essa coletânea reuniu várias músicas do gênero eternizado por Gonzaga.
Os dois discos seguintes dos Ferreira - Clodo, Climério e Clésio (Som Terra, 1991) e Afinidade (Som Terra, 1993) - mantiveram o caráter mais local que caracteriza o disco independente Profissão do Sonho. A canção “Conterrâneos”, assinada pelos três, contou com a participação de Dominguinhos. Abrindo o lado B do disco de 91, ela foi feita para o filme Conterrâneos velhos de guerra, de Vladimir Carvalho. Das participações que estiveram no Clodo, Climério e Clésio, os Ferreira puderam contar com a contribuição da flauta de Odette Ernest Dias nas faixas “Outra cor” e “Morada”. Quando foi lançado o LP Afinidade, o trio já havia se desfeito. Das músicas não inéditas que levaram a assinatura de Clodo presentes nesse último trabalho conjunto, merece referência a segunda gravação de “Corda de aço”, dezessete anos após seu lançamento por Fagner.
Nos cinco anos que se seguiram, Clodo dedicou mais tempo às suas atividades na UnB como professor - lotado no departamento de Áudio Visual e Publicidade da Faculdade de Comunicação - e como publicitário. A idéia de seguir carreira individual foi sendo amadurecida até que em 98 ele lançou o CD Corda de Aço (UnB Discos, 1998). Corda de Aço foi confeccionado em Brasília e teve a participação especial de Zelito Passos. Com exceção da inédita “Mentira da saudade”, todas as demais faixas desse trabalho representaram novas versões realizadas por Clodo Ferreira para as canções de sua autoria mais conhecidas pelo público. Além da faixa-título, foram incluídas “Revelação”, “Cebola cortada”, “Ave coração”, “Querubim”, “Ponta do Lápis” e outras, na voz do seu autor. “Mentira da saudade” possui temática de aparência autobiográfica e foi a música que abriu esse trabalho. O texto dessa canção evoca uma relação com o passado que parece pertencer à memória de todo indivíduo. Em 1999, Clodo se apresentou no projeto “Temporadas Populares”, organizado pelo Governo do Distrito Federal, dividindo o palco com o compositor baiano Tom Zé. No ano seguinte, o mesmo projeto reuniu Clodo e Zé Ramalho da Paraíba em uma única apresentação.
Em 2001, foi lançado o único disco em formato digital da carreira de Clodo, Climério e Clésio. Reunindo músicas dos três últimos Lp’s do trio, esse CD recebeu o nome de Tiro Certeiro (T-Bone Cultural, 2001).
Em 2002, por conta de uma iniciativa sua, Clodo passou a ministrar o curso “Comunicação e Música” na Faculdade de Comunicação da UnB. Nesse mesmo ano lançou o CD Gravura (UnB Discos, 2002) contendo apenas músicas inéditas. Nele, Clodo Ferreira prestou uma homenagem ao poeta e gravurista J. Borges: o encarte do disco foi ilustrado com fotografias das ferramentas utilizadas pelo artesão. Oswaldinho, Manassés e Mauro Sérgio tiveram participação especial nesse trabalho (os dois primeiros estiveram também no Corda de Aço). Dentre os músicos que acompanharam Clodo Ferreira, vale mencionar a presença de João e Pedro Ferreira, filhos do compositor. O cd Gravura foi dedicado à sua esposa Helô. Também em 2002 se deu a estréia do filme Eu não conhecia Tururu, com roteiro e direção de Florinda Bolkan, cujo tema principal utilizado na trilha sonora foi “Revelação” – tanto a gravação original de Fagner, quanto em vinhetas instrumentais com trechos da canção.
Após o lançamento de Gravura, Clodo passou a se dedicar ao estudo da obra de J.B. da Silva, o Sinhô, compositor carioca considerado o “rei do samba” na década de 1920. Buscando encontrar e reproduzir com fidelidade as características harmônicas e os timbres da obra de Sinhô - e da música que se tocava no período de seu surgimento -, Clodo formou uma banda que incluiu entre seus instrumentos a tuba e o flugelhorn, pouco usuais na feitura da música popular atual. O repertório de Sinhô foi apresentado por Clodo e Banda no Clube do Choro, da capital federal, por duas ocasiões: em agosto e novembro de 2003.
No início de 2004, parte do produto dessa pesquisa foi levada ao público brasiliense que esteve presente no Conjunto Nacional, quando do lançamento do livro Tem mais samba (Editora34, 2004), escrito por Tárik de Souza. No decorrer daquele ano a Sony Music reuniu em uma caixa os discos de Fagner gravados no período de 1975 a 1985 que trazia fonogramas considerados mais raros de sua carreira. Nessa compilação foi lançada a música “Oferenda”, do disco Chapada do Corisco, como faixa bônus do disco Beleza.
2004 marcou também o ano em que Clodo Ferreira deu início à sua pesquisa de doutoramento em História Cultural junto à UnB. 



Brasília, julho de 2004.



                                                           Magno Cirqueira Córdova.

  

Discografia
(por ano de lançamento)

-          Chope no Escuro - Clodo, Climério e Malu Moraes. Compacto Simples Independente (Tanahora – 1974)

Lado A:
1)      Ave estrangeira (Clodo e Climério)
2)      Rua São João (Clodo)

Lado B:
1)      Chope no escuro (Climério)
2)      Prosa e verso (Climério)

-          São PiauíClodo, Climério e Clésio. LP (RCA – 1977)

Lado A:
1)      A noite, amanhã o dia (Climério)
2)      Cebola Cortada (Petrúcio Maia e Clodo)
3)      Cantiga (Clésio e Clodo)
4)      Conflito (Petrúcio Maia e Climério)
5)      Folia ou Pressa (Clésio e Augusto Pontes)
6)      Ilha azul (Clodo)

Lado B:
1)      Zero Grau (Clésio e Climério)
2)      Palha de arroz (Climério)
3)      Cada gesto (Clodo)
4)      Céu da boca (Clodo e Climério)
5)      Nudez (Clésio e Clodo)
6)      São Piauí (Bê e Climério)

-          Chapada do CoriscoClodo, Climério e Clésio. LP (CBS – 1979)

Lado A:
1)      Rixa (Clodo e Climério)
2)      Flor do coqueiro (Pita) (Clésio e Clodo)
3)      Morena (Naeno)
4)      Chapada do Corisco (Clodo e Climério)
5)      Dia Claro (Dominguinhos e Clésio)

Lado B:
1)      Oferenda (Clésio, Clodo e Climério)
2)      Modo de ser (Clodo)
3)      Timom (Clésio e Climério)
4)      Enquanto engoma a calça (Ednardo e Climério)
5)      Revelação (Clésio e Clodo).

-          FerreiraClodo, Climério e Clésio. LP (RCA – 1981)

Lado A:
1)      Louco luar (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Cabeça feita (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Ave Coração (Zeca Bahia e Clodo)
4)      Por um Triz (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Roupa de domingo (Clodo, Climério e Clésio)
6)      Luz do dia (Clodo, Climério e Clésio)

Lado B:
1)      Geração (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Passagem do Cometa (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Brilho do sol (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Estaca Zero (Ednardo e Climério)
5)      Remanso (Vicente Lopes e Clésio)
6)      Não é inútil amar (Clodo, Climério e Clésio)

-          Profissão do Sonho Clodo, Climério e Clésio – LP (Produção Independente – 1989)

Lado A:
1)      Silêncio agrário (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Olinda (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Tiro Certeiro (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Canção de esquina (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Beijo insosso (Clodo e Zeca Bahia)

Lado B:
1)      Boi divino (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Distraída (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Túnel do tempo (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Dilúvio (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Aruanã (Instrumental) (Clodo, Climério e Clésio)

-          Clodo, Climério e Clésio – Clodo, Climério e Clésio – LP (Som da Terra – 1991)

Lado A:
1)      Revoada (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Corda bamba (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Elo perdido (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Queira ou não queira (Dominguinhos e Clodo)
5)      Outra cor – Adaptação de adágio de Albinoni (Clodo, Climério e Clésio) Versos de Clésio


Lado B:
1)      Conterrâneos (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Balé (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Brasília (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Morada (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Flor do coqueiro / Pita (Clodo e Clésio)

-          AfinidadeClodo, Climério e Clésio – LP (Som da Terra – 1993)

Lada A:
1)      Quando a palavra nasce (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Saudades do paraíso (Clodo, Climério e Clésio)
3)      Paraíba do Sul (Antônio Adolfo e Climério)
4)      Corda de aço (Raimundo Fagner e Clodo)
5)      Vitalidade (Clodo, Climério e Clésio)

Lado B:
1)      Borboleta branca (Clodo, Climério e Clésio)
2)      Outra vez (Dominguinhos e Clésio)
3)      Afinidade (Clodo, Climério e Clésio)
4)      Todas as cores (Clodo, Climério e Clésio)
5)      Quintais (Clodo, Climério e Clésio)

-          Corda de Aço Clodo Ferreira – CD (UnB Discos – 1998)

1)      Mentira da Saudade (Clodo)
2)      Cebola Cortada (Petrúcio Maia e Clodo)
3)      Revelação (Clodo e Clésio)
4)      Querubim (Dominguinhos e Clodo)
5)      Ponta do Lápis (Rodger Rogério e Clodo)
6)      Ave Coração (Clodo e Zeca Bahia)
7)      Meio-Dia (Fagner e Clodo)
8)      Borboleta Branca (Clodo, Climério e Clésio)
9)      Beijo Insosso (Clodo e Zeca Bahia)
10)  Corda de Aço (Fagner e Clodo)

-          Tiro Certeiro – Clodo, Climério e Clésio – CD (T-Bone Cultural – 2001) *

1)      Balé
2)      Olinda
3)      Boi Divino
4)      Silêncio Agrário
5)      Distraídas
6)      Saudades do Paraíso
7)      Quando a palavra nasce
8)      Conterrâneos
9)      Borboleta Branca
10)  Tiro Certeiro
11)  Afinidade
12)  Canção de Esquina
13)  Aruanã

*Todas as músicas são de Clodo, Climério e Clésio

-          Gravura – Clodo Ferreira – CD (UnB Discos – 2002)

1)      Pedra Lapidada (Clodo Ferreira)
2)      Os Iguais (Clodo Ferreira)
3)      Gravura (Clodo Ferreira)
4)      Matutei (Clodo Ferreira)
5)      Dimensão (Clodo Ferreira)
6)      Quebra-queixo (Clodo Ferreira)
7)      Rama (Clodo Ferreira)
8)      Engrenagens (Clodo Ferreira)
9)      Feitiço Mineiro (Ribah Nascimento e Clodo Ferreira)
10)  Senhora Pantaneira (Clodo Ferreira)


Fontes consultadas

-          As revelações de Clodo Ferreira. Entrevista disponível na página http://www.fagner.com.br .
-          BAIANA, Ana Maria. “Voz pra cantar Corda de Aço”. In: Nada será como antes: mpb nos anos 70. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
-          CAZARRÉ, Lourenço. Um castelo no cerrado: histórias de moradores e artistas da SQN 312. Brasília: Ed. Do Autor, 2002.
-          Clodo Ferreira: Revelação na ponta do lápis. Entrevista concedida por Clodo Ferreira ao jornalista Roberto Homem. Jornal Zona Sul. Ano XII Nº 100. Novembro de 2003. Natal/RN.
-          MORELLI, Rita C. L. Indústria Cultural: um estudo antropológico. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1991.

Obs: parte das informações colhidas para compor este texto foi fornecida por Clodo Ferreira, que disponibilizou seu arquivo pessoal e prestou vários depoimentos a Magno Córdova, no período de março a julho de 2004.




Os vídeos aqui anexados foram retirados do Youtube.