Acrescente a isso um processo empírico de luta, significativo em nossa história.
Tá desenhada a rede de conexões a encontrar sentido e significado.
É que a gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho e aprende que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado.
Reitero minha mestiçagem! Reitero a música popular feita no Brasil como espinha dorsal disso tudo!
E eu não sou Pelé, nem nada. Se muito for, sou um Tostão.
Mais uma vez, a presença de Climério Ferreira.
E, dessa vez, num universo de fazeres outros. Mas ainda pela poesia, claro!
Vou buscar um livro de Climério na estante. Pego um deles, o "Artesanato existencial". É nele que se encontra um poema que me persegue por esses dias e que há tempos não lia. E esse poema tem me perseguido da seguinte forma:
- desde que tomei conhecimento do mesmo, soou como muito simpáticas a citação e a homenagem ao jogador que nele aparece terem sido feitas por Climério, piauiense radicado no Distrito Federal e perambulante por outros recantos;
- a retomada da leitura dos poemas de Climério coincide com a releitura de poemas de outros poetas do período brasiliense/carioca. Uns poetas, outros letristas/poetas, outros somente letristas, complexa diferenciação. Sérgio Natureza é um deles, com quem tive a oportunidade de uma rápida aproximação quando justo saí do DF para residir na cidade de São Sebastião. No Rio, Sérgio atua e habita;
- de Climério a Sérgio é o salto do Nordeste ao sul maravilha - como se dizia (e ainda se diz? nesses tempos sem tempo e sem espaço?) e, de certa forma, à Minas do jogador do poema. Pois que Sérgio é parceiro de Tunai, irmão de João, que compõe e compôs com Aldir. Da faixa do Parnaíba/Canoa Quebrada à Ilha das Cobras é o mesmo que do Dragão do Mar ao Almirante Negro, ou seja, de Francisco José do Nascimento a João Cândido, representando a parcela exterminada da nossa "Esquadra Branca"; é um salto com passagens de um a outro século, de concepções de Estado, de fisionomia política, de abertura pro mar, de trabalho não escravo, de dignidade de canoeiros e marinheiros, de liberdade no mar.
- Mas, e o jogador? Ele divide a bola com o universo da Chibata, no segundo e no terceiro lps de João, ouvidos obrigatoriamente no cotidiano de minha infância na cidade de Belo Horizonte, mesma cidade em que "O craque" atuava e habitava (ou ainda habita, não sei). Os títulos dos discos soavam quase como um grito de gol no Mineirão. Só que do time adversário - aquele que possuía os melhores jogadores de causar uma inveja, inveja silenciosa no menino cruzeirense:
Cerezo... - que, mais ou menos ali, foi "tocado" por Pepeu no primeiro instrumental pós Novos Baianos, o fantástico e seminal Geração de Som, adquirido às pressas na COTEC da engenharia, com o Mallagutti, assim que lançado. Ouçamos Toninho Cerezo nas mãos de Pepeu:
(Vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=v18NcZVaVs8)
- ...também Paulo Izidoro, Marcelo (recentemente treinador do Cruzeiro), Ângelo (que me fez atleticano contra o São Paulo de Chicão e Neca) e...
...Reinaldo - cantado pelo mesmo Tunai, parceiro de Sérgio. Só que aqui junto a Fernando, o Brant:
(Vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=aKed_vI_hWw)
Rei
Composição: Tunai e Fernando Brant
Quando a bola vai rolar
Vale verde e Mineirão
Tem um nove no coração
Quando a bola vai rolar
Beira Rio, Maracanã
Já conhecem o seu poder...
Um poder que faz cantar
Um poder que faz dançar
Um poder que faz o povo ir (1)
rir (2)
O poder da multidão
Inventando a paixão
No momento de um gol
Rei, nosso rei
O povo elege o seu poder
Rei, nosso rei
O povo prefere o seu poder.
- O nome dos discos de João Bosco? Caça a raposa e Galos de Briga, cujas canções-título (e todo o repertório) não podiam ser outra coisa: João era atleticano, pensávamos brincando. Raposa e galo aí estão muito bem definidos na cabeça de João. Era o que nos ocorria.
Pois, falar desses discos sem ouvir as canções que lhes dão título, justo aqueles títulos que soavam imaginariamente com outro sentido, é uma blasfêmia. A tal Caça à raposa (canção das mais belas, marcantes e inesgotáveis - na falta de outro adjetivo que satisfaça)...
(Vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Z_gu341Jo30)
Caça à raposa
Composição: João Bosco e Aldir Blanc
O olhar dos cães, a mão nas rédeas
E o verde da floresta
Dentes brancos, cães
A trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa:
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho
Senhoritas, seus anéis, corcéis
E a dor no coração vermelho
O rebenque estala, um leque aponta: foi por lá!...
Um olhar de cão, as mãos são pernas
E o verde da floresta
- Oh, manhã entre manhãs! -
A trompa em cima, os cães
Nenhuma fresta
O olhar se fecha, uma lembrança
Afaga o coração vermelho:
Uma cabeleira sobre o feno
Afoga o coração vermelho
Montarias freiam, dentes brancos: terminou...
Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes
Que os julgamos mais ausentes
Ah, recomeçar, recomeçar
Como canções e epidemias
Ah, recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah, recomeçar como a paixão e o fogo
e o fogo
...e o (a) tal Galos de Briga
(Vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=FfOy4PX9Qj0)
Cristas de incêndio crispadas,
cristas de fogo de espadas,
cristas de luz suicida,
lúcidas de sangue futuro.
Cristas crismadas em rubro;
não rubro rosa assustada,
de rosa estufa, canteiro,
mas rubro vinho maduro,
rubro capa, bandarilha,
rosa atirada ao toureiro.
Não o rubrancor da vergonha,
mas os rubros de ataduras,
o rubro das brigas duras
dos galos de fogo puro,
rubro gengivas de ódio
antes das manchas do muro.
- Mas era "O craque', aquele que colocava o Cruzeiro no mesmo patamar (ou, ao menos, ele mesmo se equiparava com os tantos que o time adversário possuía), que vinha assim por Climério (eis o poema que me perseguia até aqui):
Por onde andará Joãozinho
Que dava o drible da vaca
Até em bumba-meu-boi?
Onde estiver Joãozinho
Dará uma pisa, uma taca
No tempo que já se foi
Pois bem, era no Caça a raposa que se ouvia, todo dia, na minha casa, "O mestre sala dos mares".
- E, no meio do processo, mais uma conexão, no Rio, pra se juntar à essa culinária de mistérios e significados: conhecer de perto, conviver amistoso, com o historiador Marco Morel, autor de um livro sobre tema tão possível de amarrar nesse nosso delírio cotidiano, como um ingrediente desse bolo que mistura bola e tamborim, canhões e almas: o tema mais que impregnado da corrupção no Brasil. Taí, mostro a cara do livro do Marco:
- três irmãs e um irmão (tenho orgulho de ter três irmãs e um irmão - mais velhos que eu - com formação política de esquerda, com os pés fincados na luta dos que menos tem, que me influenciaram) adquiriam livros, antes de eu fazê-lo. Um desses livros piscava pra mim da estante, enquanto ouvia o "Mestre salas...", ora com João, ora com Elis. Era o A Revolta da Chibata, do Edmar Morel, avô de Marco. Li o Edmar apoiado pela escuta de João e do Aldir. Adolescente.
Aqui, a capa da edição do livro do Edmar que li:
E aqui, texto sobre Edmar e seu livro, em artigo escrito pelo seu neto Marco:
http://www.vermelho.org.br/noticia/142017-11
Dando sequência à prosa, quando eu trabalhava em uma rádio pública de Belo Horizonte, já adulto e antes de sair em residência para fora do estado de Minas, escrevi sobre o livro. O texto era mais ou menos assim (e este era o fim último desta postagem: tornar público este texto):
A cidade do Rio de Janeiro se inquietou com os estampidos de tiros de canhão vindos do porto naquela noite de 22 de novembro de 1910. Vidraças das edificações do centro e do bairro de Copacabana se estilhaçavam. O então presidente da república, Marechal Hermes da Fonseca, estava sendo recepcionado no Clube da Tijuca quando recebeu a notícia de que a Marinha se revoltara. A princípio, pensou ser um levante chefiado pelo Almirante Alexandrino de Alencar, que deixara o Ministério da Marinha havia oito dias. Ao chegar ao Palácio do Catete, sede do Governo Federal, a estação de rádio do morro da Babilônia já havia captado uma mensagem ameaçadora dos rebeldes: se não fossem eliminados os maus tratos dos oficiais sobre seus comandados nos porões da Marinha, a cidade e também os navios que não se rebelassem seriam bombardeados. Pediam o fim da chibata, o fim dos castigos corporais. Assumiam a mensagem os tripulantes das guarnições ”Minas Gerais”, “São Paulo e “Bahia”.
A “Esquadra Branca” brasileira era considerada, em 1910, a terceira potência naval do mundo. O “Minas Gerais” e o “São Paulo” eram dois encouraçados de grande porte e o “Bahia”, um cruzador; os três representando as guarnições mais modernas e potentes da esquadra.
Quem chefiou a insurreição foi o marinheiro João Cândido, o primeiro no mundo a comandar uma esquadra. Do seu lado, um grupo de homens decididos, injustiçados, com unidade, chefia e ideal. Do outro lado, um governo indeciso, pagando por injustiças praticadas a várias gerações de marujos. Após quatro dias de ameaças e negociações, Rui Barbosa, com todo o prestígio da sua Campanha Civilista, propõe anistia e o fim do regime de chibatas instaurado no governo Provisório do Marechal Teodoro da Fonseca, em 1890.
Iniciava-se, com a anistia, o verdadeiro horror vivido pelos rebeldes. Após se entregarem, parte deles é encarcerada em uma masmorra na Ilha das Cobras, onde morrem de inanição ou asfixia; outro tanto, enviada para os confins da Amazônia a bordo do navio “Satélite”, onde muitos foram vendidos como escravos ou simplesmente fuzilados. João Cândido, milagrosamente sobreviveu, vindo a falecer apenas em 1969.
(Vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=KanAmmTUVnE)
O mestre sala dos mares
Composição: João Bosco e Aldir Blanc
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como navegante negro
Tinha dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto, pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
Dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
E a exemplo do feiticeiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
A indicação para leitura sobre o assunto, claro, é o livro “A Revolta da chibata”, de Edmar Morel. A edição que conheço é da Edições Graal, de 1979.
Quem primeiro me chamou atenção para a
existência do grupo Flying Banana foi o compositor e poeta Climério
Ferreira, no ano de 2004. Eu morava em Brasília e organizava informações sobre
a trajetória musical de Climério, tomada como uma das matrizes documentais de
minha pequisa acadêmica. Assim, minha investigação me conduziu à cidade de São
José dos Campos, São Paulo, de meados da década de 1970, onde ele residiu.
Climério nasceu em Angical, no estado do Piauí,
e se fixou em Brasília no início da década de 60. No decênio seguinte, foi parar em São José, onde
morou numa república de estudantes.
Quando mencionou o Flying Banana, Climério
informou-me que ele próprio havia participado como co-autor de uma das canções
presentes no repertório do LP, mostrando-a a mim:
Mantenha distância (Chevrolet)
Composição: Antonio Celso Duarte (Bê) e Climério Ferreira
Se eu tiver um caminhão
eu quero chevrolet,
pra pisar na buraqueira
e pra poder roubar mulher
Mas se eu tiver um caminhão
eu quero chevrolet,
pra pisar na buraqueira
e pra poder roubar mulher
Carroceria eu boto 20 anos,
meus amigos, minha vida,
meus trapos, meus planos
No pára-brisas Brigite Bardot,
a Marilyn Monroe
e a morena flor do sertão
Antes que o asfalto sufoque o baião,
eu quero ver a paisagem
passando faceira,
cheirando a rabeira
do meu caminhão
eu quero ver a paisagem
passando faceira,
cheirando a rabeira
do meu caminhão
O pára-choque do meu caminhão,
escrevo a vida como a vida é
Não esquecendo que no fim das contas
poeira de caminhão é vitamina de chofer
Não esquecendo que no fim das contas
poeira de caminhão é vitamina de chofer
Na primeira
audição, surpreendi-me com a sonoridade e com o repertório do disco. Passei a
buscar mais informações sobre os seus componentes. Encontrei referências,
inclusive, em outras fontes por mim recolhidas pra referida pesquisa a que me
dedicava:
"(...) Climério foi residir em São José dos Campos, São Paulo, em pós-graduação universitária, no INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais]. Nossos contatos foram mais freqüentes. Ele foi diversas vezes à minha casa em São Paulo e convidava para também ir a São José dos Campos. No Bar do Pedro, entre músicas, violões e cervejas, a ideia de nossa parceria foi sendo construída. Tinha a Frô do Avaré, Flying Banana (Carlão, Bê e Passoca), os shows que fiz em São José..."
Neste depoimento do cantor e compositor Ednardo
aparecem os nomes de pessoas com as quais ele e Climério conviveram quando se consolidou
a parceria entre os dois: Frô do Avaré é
a forma carinhosa como os amigos tratam Evelise Fernandes; Passoca é o apelido
de Marco Antônio Vilalba; Bê é o apelido de Antônio Celso Duarte; e Carlão é
Carlos Alberto de Souza. Eram todos estudantes de arquitetura naquela época.
Dedicavam-se à música paralelamente aos estudos universitários. Frô do Avaré,
Carlão, Bê e Passoca foram colegas de república de Climério na cidade do
interior paulista:
Climério gostou muito do que os companheiros
de república tocavam e compunham e os convidou para uma apresentação em
Brasília. Havia, à época, um projeto de extensão
desenvolvido na UnB (Universidade de Brasília) que tinha por objetivo levar
novos talentos musicais aos estudantes e à comunidade brasiliense em geral. O
decano de extensão da universidade era Marco Antônio Rodrigues Dias, amigo de
Climério, que não vacilou em incluir a sugestão na programação do calendário cultural da universidade.
Foi durante os preparativos para esta viagem a
Brasília que os amigos decidiram que tocariam e cantariam em conjunto, todos
reunidos no palco. Daí surgiu o Flying Banana. Frô do Avaré participou
da apresentação em Brasília, mas não acompanhou o grupo quando o disco foi
gravado, em 1977.
Após essa experiência, Passoca se dedicou ao
estudo e pesquisa mais aprofundados da viola caipira. Já conhecia seu trabalho
musical a partir da participação que fez em um disco emblemático do que se
convencionou chamar “vanguarda paulistana (ou paulista)”: o disco Outros sons, de Eliete
Negreiros. Cabe aqui um parêntese sobre esse disco.
Lançado em 1982, pelo selo Lira Paulistana, o
que nele chama atenção é o fato da música de Passoca, “Sonora Garoa”, pertencer
a uma tradição rural, caipira, com o toque de viola próprio do que seria legítimo
chamarmos de “musica regional de São Paulo”, do interior do estado ou, ainda,
do Brasil interior, campestre (*). Daí o aparente contra-senso de sua inclusão em
um lp norteado pelas experiências dodecafônicas de Arrigo Barnabé e mesmo por
um lado mais pop, urbano, de, por exemplo, Otávio Fialho, outro dos
arranjadores aí presentes. Pois, “Sonora garoa” soa exatamente como o
contra-ponto da modernidade musical paulistana daquele
momento e daquele disco. A canção de Passoca nos indica a permanência da sonoridade e
do sentimento rurais no complexo contexto urbano da maior cidade do país, entre
os primeiros automóveis do dia, sirenes de fábricas convocando para o trabalho,
radinhos de pilha gritando com voz metálica as canções de um amanhecer
paulistano.
Sonora garoa
Composição: Marco Antônio Vilalba - Passoca
Sonoro sereno
serena garoa
pela madrugada
não faço nada que me condene
a sirene toca
bem de manhãzinha
quebrando o silêncio
sonorizando a madrugada
Passa o automóvel
na porta da fábrica
o radinho grita
com voz metálica
uma canção
Sonora garoa
sereno de prata
sereno de lata
reflete o sol
bem no caminhão
Voltando aos amigos da república de São José, dos componentes do Flying
Banana, Carlão tocou com Elis Regina naquela segunda metade de década e acompanhou,
dentre outros, o compositor Renato Teixeira (junto com Renato e outros músicos formou o Grupo Água). Para tentarmos dar conta do
contexto de aproximação desses artistas, lembremos que Elis havia impulsionado
a trajetória musical do cearense Belchior em um disco lançado em 1976, o Falso
Brilhante. No LP do ano seguinte, ela gravou uma música de Renato Teixeira
que acabou por se transformar em um clássico da música caipira, a canção
“Romaria” - isso sem levar em conta as "leituras críticas" que esta canção recebeu, a partir de avaliações literárias "concretistas" que o texto da canção sugere, colocando-a no mesmo caldeirão poético dos textos das canções tropicalistas, por exemplo. Na gravação de “Romaria”, Carlão foi um dos instrumentistas que acompanhou
Elis, na viola de 12 cordas e nos vocais.
Além do fato de terem sido lançados no mesmo ano
e de contarem com Carlão como intérprete/instrumentista, esse lp de Elis e o do
Flying Banana possuem o dado comum da aproximação temática entre
“Romaria” e “Pirapora”, esta última uma composição de Antônio Celso Duarte, o
Bê, gravada no álbum do grupo. Ambas possuem
o estilo e a atmosfera comuns, tendo por pano de fundo a religiosidade inscrita
no território da cidade paulista de Pirapora do Bom Jesus, situada a pouco mais
de 50 Km da capital:
Romaria
Composição: Renato Teixeira
É de sonho e de pó, o destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó, de gibeira o jiló,
Dessa vida cumprida a sol
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
O meu pai foi peão, minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
Em busca de aventuras
Descasei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi
Me disseram porém que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar
(no vídeo abaixo, a música "Pirapora" encontra-se aproximadamente no tempo 25:53)
Pirapora
Composição: Antônio Celso Duarte (Bê)
Eu vou seguir
Poeira, mato, asfalto afora
Barba comprida
Cabelo grande que nem de muié
Mariazinha diz que me namora
Eu vou cumprir minha promessa
Eu vou a Pirapora a pé
Meu Bom Jesus de Pirapora
Agüenta aí a sua cruz
Eu vou chegando sem demora
Eu vou e volto umas três vez
Juro por Deus Nossa Senhora
Quando eu voltar
De Pirapora a pé
Eu vou fazer uma casinha
De sapé
Eu vou levar Mariazinha
Eu vou tocar minha viola
Vou deitar a minha rede
No meu pé de carambola
Eu vou a Pirapora a pé
É inevitável a associação entre as duas canções, até mesmo antes de sabermos qualquer informação "genealógica" que envolve seus atores e registros. Nesse sentido é que poderíamos falar de um “espírito do tempo” sendo reproduzido, gerido, interpretado, representado através dessas canções.
Fechando o repertório musical deste comentário, deve-se reconhecer o papel exercido pela TV na disseminação de um quadro cultural e temático muito bem estruturado em suas determinações e projeções sociais. Nesse sentido, torna-se legítimo reconvocar a figura de Renato Teixeira, agora assumindo o protagonismo do chofer de caminhão. Personificada pelos personagens Pedro e Bino (Antônio Fagundes e Stênio Garcia), do seriado Carga Pesada, a canção "Frete" conduziu a trilha desse programa Brasil adentro/afora, "religiosamente" assistido por zilhões daqueles que se transformaram em figuras coletivas emblemáticas daquela geração: os telespectadores.
Frete
Composição: Renato Teixeira
Eu conheço cada palmo desse chão
é só me mostrar qual é a direção
Quantas idas e vindas meu deus quantas voltas
viajar é preciso é preciso
Com a carroceria sobre as costas
vou fazendo frete cortando o estradão
Eu conheço todos os sotaques
desse povo todas as paisagens
Dessa terra todas as cidades
das mulheres todas as vontades
Eu conheço as minhas liberdades
pois a vida não me cobra o frete
Por onde eu passei deixei saudades
a poeira é minha vitamina
Nunca misturei mulher com parafuso
mas não nego a elas meus apertos
Coisas do destino e do meu jeito
sou irmão de estrada e acho muito bom
Eu conheço todos os sotaques
desse povo todas as paisagens
Dessa terra todas as cidades
das mulheres todas as vontades
Eu conheço as minhas liberdades
pois a vida não me cobra o frete
Mas quando eu me lembro lá de casa
a mulher e os filhos esperando
Sinto que me morde a boca da saudade
e a lembrança me agarra e profana
o meu tino forte de homem
e é quando a estrada me acode
Eu conheço todos os sotaques
desse povo todas as paisagens
Dessa terra todas as cidades
das mulheres todas as vontades
Eu conheço as minhas liberdades
pois a vida não me cobra o frete
Por fim, digo que foi o impacto da escuta de trabalhos como o do Flying Banana, tão representativo do momento foco do meu objeto de estudo, um elemento de impulso. Algo que não foi - nem será - incomum em qualquer trajetória de pesquisa, tantas foram e são as experiências de escuta que nos tomam pelo pé, pela mão, pelo peito. Todas elas acionando estruturas mentais e corporais guiadas pela escuta.
Como mote futuro de uma outra consideração, fica o referencial de mais uma experiência musical adquirida nesse contexto: da Banda Santarén, mais ou menos contemporânea do Flying Banana. Que será a carga dum próximo embarque.
(*) "Sonora garoa", numa outra frente significativa, que reforça a teia de relações aqui ligeiramente esboçada, entrou na trilha sonora de um filme necessário da cinematografia brasileira da época, cuja abordagem temática ilustra o universo aqui abordado: A marvada carne é um filme dirigido por André Klotzel. Vale muito ver.
Aqui, fragmentos (mais ou menos esparsos?!) de texto sobre São Saruê, de minha autoria.
Não que seja minha intenção dificultar o acesso à cidade/país tão desejado/sonhado.
Me comprometo a dar o endereço, assim que encontrar a rota completa e certa.
Ou seria melhor fazer como Manuel Camilo que, ao fim de seu poema, propõe contar o segredo de onde fica São Saruê, mas com a condição de só confidenciar àquele que lhe comprar o folhetinho (o cordel)?
O arcabouço referência:
1) Folheto de cordel: Viagem a São Saruê, de Manuel Camilo dos Santos
(Imagem do folheto extraída de: http://portaldocangaco.blogspot.com.br/2010/10/literatura-sobre-conflitos-entre_3751.html)
2) Filme: O país deSão Saruê, de Vladimir Carvalho
3) Canção:São Saruê, de Marcus Vinícius de Andrade, trilha do filme
(ao longo do texto, vídeo com áudio da canção)
4) Poema: São Saruê, um país, de Climério Ferreira
(capa do livro Alguns pensames [1979], de Climério, contendo seu poema sobre São Saruê)
5) Canção: Oferenda, música de Clodo e Clésio, sob fragmento do poema São saruê, um país, de Climério
(ao final do texto, vídeo com áudio da canção)
Manuel Camilo dos Santos nasceu em Guarabira (PB), em 1906. O seu folheto Viagem a São Saruê foi publicado pela primeira vez, provavelmente, na primeira metade da década de 1950, segundo José Ramos Tinhorão. Nele, o poeta descreve sua viagem ao país da abundância.
No que se refere à sexualidade, o conteúdo desse cordel é bem discreto. Nele, o nu se ausenta. O poeta chega a sugerir um recato e um controle da sedução, onde as pessoas são quase assexuadas, amistosas e... “vestidas”:
“Lá não se vê mulher feia
e toda moça é formosa
bem educada e decente
bem trajada e amistosa
é qual um jardim de fadas
repleto de cravo e rosa”
No máximo, poderíamos deduzir que a sexualidade em São Saruê se inscreve no ideal do amor romântico, do encantamento da natureza. Cabe aqui uma observação: a natureza em São Saruê é abundante, mas perdeu todo o seu encantamento. As árvores lá são pés de meias de seda, de roupas prontas, de chapéus, de sapato da moda e, mais do que tudo, de notas de mil:
“Os pés de notas de mil
carrega chega encapota
pode tirar-se a vontade
quanto mais tira mais bota
além dos cachos que tem
casca e folha tudo é nota”
Em outra passagem, novamente utilizando-se do adjetivo “decente” como qualificativo do povo do lugar, o autor sugere uma conduta irrepreensível, correta, das pessoas:
“O povo em São Saruê
tudo tem felicidade
passa bem anda decente
não há contrariedade
não precisa trabalhar
e tem dinheiro a vontade”
Aqui, aparece referências à ausência de trabalho, à felicidade ligada à abundância e ao prazer dos bens materiais, evidenciados em outros trechos do poema:
“Tudo lá é bom e fácil
não precisa se comprar
não há fome nem doença
o povo vive a gozar
tem tudo e não falta nada
sem precisar trabalhar”
O ideal contido no folheto aproxima São Saruê das descrições do Eldorado e da Cocanha.
(cartaz do filme, cuja imagem aparece também no livro contendo o roteiro e textos críticos. Extraído de http://www.memoriasdocordel.com.br/2014/04/o-pais-de-sao-sarue.html)
Vladimir Carvalho nasceu em 1935, na cidade de Itabaiana, estado da Paraíba.
O ano de 2003 marca o fim da restauração do seu filme O país de São Saruê.
A epopeia do filme inicia-se em meados da década de 60, quando da sua concepção. Finalizado em 1969, dois anos depois sofreu veto da censura federal. Permaneceu oito anos sem ser exibido. De enfrentamentos da ordem do financeiro às pressões psicológicas de origem política, o autor mesmo assim conseguiu que seu filme tivesse visibilidade e se consolidasse como importante produção do cinema documentário no país.
A história do seu filme pode ser contada como epopeia, assim como pretende Ariano Suassuna e o próprio autor com relação ao conteúdo da película: o filme narra uma “pequena epopeia malograda”, disse certa vez Carvalho, de quem Suassuna discordou quanto ao atributo “pequena”.
O filme conta com um poema de Jomar Moraes Souto, elaborado com base nas imagens do copião que Carvalho lhe exibiu em 67.
Vladimir Carvalho lembrou-se da história desse país “que desde pequenino/ sempre ouvia falar” na sua Paraíba , a mesma de Manuel Camilo. Lá, ainda menino, teve oportunidade de ler o folheto de feira Viagem a São Saruê. Considerou pertinente associar a “imagem da realidade”, que havia captado com suas lentes, à fantasia do povo representada no livrinho do poeta popular. Nomeou, então, o filme de O País de São Saruê. Vladimir percorreu o cotidiano do povo do campo e de cidades localizadas no sertão da Paraíba.
"Quando em Catolé do Rocha encontrei Chateaubriand Suassuna, mirrado debaixo do seu chapéu de couro, com sua foice na mão esquadrinhando a pequena propriedade de terras sáfaras, os olhos injetados de sonho obsessivo, em busca de um urânio salvador, entendi que ali o documentário virava “ficção”.
(Carvalho, 1986: 129).
Logo no princípio do filme, uma canção anuncia o teor do que virá:
“O avião sobrevoa, eh, eh
Um reino desencantado
O gavião vê de longe, eh, eh
as costelas do Eldorado
Pra onde ele levou tudo
Pra dentro de qual cercado
Acauã e seus redores
Num mesmo laço jogado”.
O São Saruê de fartura de Manoel Camilo dá lugar ao Eldorado à míngua, desprovido, faminto, raquítico, com as costelas à mostra. A palavra costela – da letra da canção – assume também seu sentido de armadilha para pássaros. Um pássaro sobrevoa a região agreste dos vales dos rios do Peixe e Piranhas, no estado natal de Carvalho. Letra de canção e imagens iniciais atuam, portanto, como síntese de enfrentamento, como que premeditando algo por ser interrompido.
A trilha sonora foi realizada pelos músicos José Siqueira e Marcus Vinícius de Andrade.
Sobre Marcus Vinícios de Andrade, a Revista de Cultura Vozes nº 9, de novembro de 1972, assim o apresenta: "Compositor premiado em festivais de Recife (PE) e Cataguases (MG). Ex-professor de Estruturação Musical do Instituto Villa-Lobos. Autor de "idolatrina" (poema/processo, 1968).
Creio que as primeiras canções de Marcus Vinícius que ouvi foram "Trem dos condenados" e "Novena", esta em parceria com Geraldo Azevedo que, assim como ele, é pernambucano.
Exerceu papel importante na atuação e debate dos direitos e do papel do músico no período conturbado da ditadura militar no Brasil e foi uma das figuras principais a colaborar com as pesquisas realizadas por Marcus Pereira naquela que foi a sua gravadora e uma das mais importantes iniciativas fonográficas de mapeamento da música realizada em território nacional ao longo da década de 1970.
A canção São Saruê, de Marcus Vinícius de Andrade, encontra-se em seu lp Dédalus, de 1974, onde apresenta a cantora Anah.
(São Saruê, música de Marcus Vinícius. Extraído de: https://www.youtube.com/watch?v=qLyYY_VqPaE)
O avião sobrevoa, eh, eh
Um reino desencantado
O gavião vê de longe, eh, eh
As costelas do Eldorado
Pra onde ele levou tudo
Pra dentro de qual cercado
Acauã e seus redores
Num mesmo laço jogado
Em cima daquela serra, eh, eh
Tem um tesouro enterrado
Com suas garras de aço, eh, eh
O gavião voa baixo
Ouro, prata, diamantes
E o algodão em penachos
Nascendo da terra seca
E dos ossos desse riacho
O avião sobrevoa, eh, eh
Um reino desencantado
O gavião vê de longe, eh, eh
As costelas de Eldorado
E a balança dos contentes, eh, eh, eh
Pesa a sede dos magoados
Nascido em Angical (PI), Climério foi o primeiro filho de uma família de migrantes a se deslocar para Brasília durante os anos 60. No momento em que o cineasta Vladimir Carvalho se instalou em Brasília e passou a dar aula, Climério tornou-se seu aluno e amigo.
O poema de Climério é a apropriação do tema de São Saruê sob um outro olhar. A cassação e censura ao filme de Vladimir são o mote para que se elabore um discurso de defesa e explicitação das diferenças, no momento em que se professava o “milagre” da economia no país, sob um regime de exceção. Sendo ele próprio um migrante, vindo de um estado da federação tido como dos mais pobres, Climério Ferreira fora “interpelado” tanto pela abordagem dada por Carvalho à questão das diferenças – mais às questões do imaginário, com as quais, certamente, se identificara – , quanto pelo próprio destino que o bem cultural em si – o filme – teria levado.
O poema São Saruê, um país trabalha com empréstimos da realidade tratada no filme e da realidade do próprio filme/objeto, conjugando a utopia de ver ambas na mesma perspectiva de libertação. Climério Ferreira conhecera na infância a história do país da fartura, de “ouvir falar”. Em seu poema, ele inverte o sentido de doação contido no folheto: aqui, não é a natureza da cidade/país de São Saruê que produz a fartura, é o homem que a habita que oferta a ela sua vida:
“aqui está meu sangue: bebe
aqui está meu corpo: come
aqui está minha boca: cospe
aqui está meu pé: pisa
aqui está minh’alma: agoniza”.
O habitante desse país se entrega generoso à sua pátria triste que o proíbe de ser e ver e que ele sonha transformada:
“aqui estou não-morto adormecido
velando teu sono despertado
nas terras de um país nunca havido
mas que completamente me habita
país sem fronteiras
contrário do que existe
sonho exagerado do que é
que – não sendo – é requerido”
A recuperação da memória de um país marcado pela injustiça social, pelo não-dito, é referenciada nos versos
“meu país é um sonho que esconde um pesadelo”
e
“em minha cabeça
deposita tuas lembranças
fracas pinças lanças
fragmentos de tudo que é hoje”
e, ainda,
“ou o furo desastroso do teu passado”
O pesadelo/escuridão como um dado da realidade objetiva impedia o indivíduo de requerer sua visibilidade como sujeito, como cidadão. Era um quadro que impedia a circulação dos componentes concretos da realidade objetiva em sua plenitude, silenciando-os. A dimensão utópica dessa São Saruê, “anárquico chão que me povoa”, se confunde com a própria prática de poder “assistir” a uma imagem projetada na tela de uma sala escura. Silêncio, pesadelo, impedimento, escuridão, rompidos pela luz projetada ante o olhar que vê:
“pois neste país São Saruê tudo será
aquilo que – por querer – o olhar veja
(...)
verás sempre um país como este
de luz e sombra sua topografia
que quando projetada ante teus olhos
mostrará meu riso desdentado e faminto
(...)
qualquer dia ou noite ou tarde
meu povo de luz invadirá tuas salas”
O corpo do cidadão, raivosa e ironicamente descrito como “corpo dócil”, passivo, adquire, no entanto, a capacidade instrumental de transformar o estado de coisas em “um banquete cívico interminável”, após seu desvelamento.
São Saruê de Climério é quase como o “pensamento” de Manuel Camilo, pois o que o anuncia é um
“vento sereno vento
esse que sopra no interior da gente
roçando de leve os intestinos
encrespando suave o coração”.
Climério Ferreira representa a aproximação da temática do São Saruê à poética da canção popular. Foram seus irmãos Clodo e Clésio Ferreira que fizeram a inserção desse tema no campo da música popular brasileira ao colocarem melodia em fragmento do poema São Saruê, um país. Registrada em disco, por Clodo, Climério e Clésio (1979), no segundo LP de carreira dos irmãos, a canção recebeu o título de Oferenda e contou com a participação do cearense Raimundo Fagner em sua interpretação. Oferenda se inscreve, assim, no âmbito das canções originadas da re-significação dos motes dos folhetos de feira, como práticas identificadas na formação do grupo de artistas nordestinos . Eis o trecho do poema adequado à canção:
Aqui está meu sangue: bebe
aqui está meu corpo: come
aqui está minha boca: cospe
aqui está meu pé: pisa
aqui está minh’alma: agoniza
aqui estou comido/ estou cuspido
estou pisado/ agonizante, teu.
O poema completo encontra-se publicado em FERREIRA, Climério. Alguns Pensames. Brasília – DF: Tao Livraria e Editora, 1979.
("Oferenda", de Clodo Climério e Clésio, gravada no lp Chapada do corisco, de 1979. O texto da canção, originalmente em português, foi vertido para o francês e cantado nos dois idiomas pelos irmão Ferreira e Fagner, conforme podemos conferir pelo áudio acima. Extraído de https://www.youtube.com/watch?v=FixKTs6xiwU)
Tinhorão, em Cultura Popular - temas e questões, trata da poesia de Manuel Camilo. O livro de José Ramos Tinhorão possui edição pela Editora 34, do ano de 2001.
Bráulio Tavares também, em seu Contando histórias em versos, dedica um capítulo ao São Saruê. Seu livro também foi publicado pela Editora 34, em 2005.
Assim como o texto sobre a cantora Terezinha de Jesus, aqui postado, o material a seguir representa o documento que produzi e enviei para o ICCA - Instituto Cultural Cravo Albin, relativo ao compositor Clodo Ferreira. Também neste caso, o verbete pode ser conferido na página do Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira.
Clodomir Souza Ferreira nasceu em Teresina, capital do
estado do Piauí, no dia 30 de julho de 1951. Passou a infância junto aos pais e
irmãos, em Teresina. No início da década de 60, tinha por intuito se ordenar e
passou a freqüentar o seminário local. Transcorridos dois anos na condição de
seminarista, um episódio veio alterar o rumo de sua vida.
A passagem dos anos 50 para os
60 no país foi marcada pela transferência da capital da República, da cidade do
Rio de Janeiro para a cidade de Brasília. A nova capital representou para
muitos trabalhadores brasileiros e, particularmente, para as populações do
norte/nordeste do país, uma perspectiva de melhoria na qualidade de suas vidas.
Muitos foram os que migraram para a recém-construída cidade e seus arredores.
No caso da família Souza Ferreira, deslocaram-se para o Planalto Central - a
partir de 1962 - os dois filhos mais velhos: Climério e Clésio. Em 1965, o Sr.
Matias Ferreira decidiu-se por residir também na capital, levando consigo
esposa e demais filhos. Instalou moradia em Taguatinga, cidade satélite do
Distrito Federal.
Se ainda em Teresina Clodo
aprendeu seus primeiros acordes ao violão, foi na nova cidade que ele intensificou sua relação com a música. Em
Taguatinga, a proximidade com os irmãos mais velhos, já iniciados nos caminhos
da canção popular e com os quais já havia aprendido a tocar “olhando”, foi um
incentivo para que se dedicasse mais à arte de tocar, cantar e compor. Por
volta dos quinze anos, passou a fazer suas próprias canções e em parceria com
Climério e Clésio. Juntou-se à amiga Ana Silva, formando uma dupla que por
algum tempo se apresentou interpretando um repertório pautado no que faziam Leno
e Lílian: típico da Jovem Guarda, tendência musical que àquele
momento se encontrava no auge do sucesso entre uma parcela do público jovem.Participou, como contra-baixista, do conjunto local Os Geniais.
Chegou a assumiu a guitarra base do grupo Os Continentais, que depois
veio a se chamar os Quadradões, embrião do futuro grupo Placa
Luminosa. Em 1968, Os Quadradões gravaram, em seu LP de estréia, a
canção intitulada “Ao entardecer”, parceria com Clésio e a primeira música de
Clodo gravada em disco. Passou a ser freqüente, àquela época, a apresentação em
dupla com a irmã Cristina cantando em festas familiares e de amigos.
Com a mudança da família para o
Plano Piloto da capital federal ocorreu um importante encontro que marcaria a
experiência artística de Clodo, fora do seio familiar. Em 1969, ele conheceu o
compositor baiano, de Bom Jesus da Lapa – também residente em Brasília -, Zeca
Bahia. Zeca se tornou um de seus parceiros mais freqüentes nos dez anos que se
seguiram. Após um convívio inicial de maturação musical, Clodo e seu novo
parceiro inscreveram algumas composições no festival de música do CEUB – Centro
de Ensino Unificado de Brasília. Naquela edição de 1972, as músicas de Clodo e
Zeca levaram os principais prêmios do festival: o primeiro lugar ficou com a
canção “Placa Luminosa” (Clodo e Zeca) e o segundo lugar com “Sino, sinal
aberto” (Clodo). Ambas foram interpretadas pelo grupo Matuskelas que já
havia gravado no ano anterior a música “Suzana” - parceria de Clodo, Romildo e
Olímpio. Além dos dois primeiros lugares, o Matuskelas levou os prêmios
de melhor arranjo e de melhor interpretação.Um outro
dado relevante para a carreira de Clodo também ocorreu
durante aquele evento: participava do corpo de jurados o jovem compositor
cearense Raimundo Fagner –vencedor da edição anterior do mesmo festival com a
música “Mucuripe”.Fagner
quis conhecer pessoalmente os autores das canções premiadas naquele ano. Desse
encontro nasceria uma amizade cujo diálogo musical daria bons frutos para
ambos.
O festival de 1972 projetou o
nome de Clodo Ferreira no Distrito Federal e o estimulou a buscar novas
possibilidades de criação e divulgação de sua arte fora daquele território.
Em 1974, gravou pela primeira
vez em disco cantando no compacto simples independente Chope no Escuro,
junto com Climério e Malu Moraes, e com a participação especial do violonista
Alemão. O compacto foi uma produção do grupo de Teatro Tanahora,
dirigido por Geraldo Moraes, e trouxe duas músicas - das quatro gravadas -
assinadas por Clodo: “Ave estrangeira” (em parceria com Climério) e “Rua São
João”. No disco, Clodo interpretou “Ave estrangeira”.
Terminado o curso de jornalismo e publicidade,
feito na Universidade de Brasília – UnB, em 1975 Clodo foi morar na cidade de
São Paulo. Na capital paulista, hospedou-se em casa dos músicos cearenses
Rodger Rogério e Teti, representantes do grupo que ficou conhecido como
“Pessoal do Ceará”. O casal acolheu Clodo durante aproximadamente dois anos,
período decisivo para a consolidação do seu trabalho entre seus pares e o
público. Nessa fase, compôs várias canções em parceria com Rodger das quais a
que mais se destacou foi “Ponta do Lápis”. Clodo retomara, à época, o contato
com Fagner, que em duo com Ney Matogrosso registrou “Ponta do Lápis” de forma
marcante, lançando-a em disco compacto de vinil no
ano de 1976. Fagner já havia “musicado” um poema de Clodo e a canção
resultante foi incluída no repertório do terceiro LP de sua carreira,
intitulado Raimundo Fagner e levado às lojas também em 1976: “Corda de
aço” é uma dessas canções consideradas como das mais expressivas do momento,
por possuir os traços de agressividade e lirismo tidos como típicos dos
intérpretes e compositores daquela geração de artistas nascidos no Nordeste e
revelados então.
A presença de Clodo em São
Paulo trouxe uma nova e surpreendente perspectiva de trabalho onde se veriam
consolidadas a trajetória conjunta e a reunião profissional dos irmãos
Ferreira. A rede de TV Bandeirantes possuía, na época, um programa chamado Mambembe,
a vez dos novos. Em 1976, Clodo participou desse programa ao lado de
diversos artistas, dentre os quais estavam seus irmãos Climério e Clésio. Como,
naquela ocasião, os três revezavam-se no acompanhamento instrumental sem sair
do palco à medida que cada um expunha seu trabalho, o produtor do programa
entendeu que formavam um trio: Clodo, Climério e Clésio. Assim passaram
a ser tratados e assim passaram a se apresentar.
No ano seguinte Clodo retornou
a Brasília e, juntamente com Climério e Clésio, inaugurou a carreira
fonográfica do trio com o lançamento de São Piauí, disco gravado
pela RCA. Esse trabalho foi produzido pelo compositor cearense Ednardo e trouxe as participações de artistas como Robertinho de
Recife, Heraldo do Monte, Amelinha e Roberto Sion. A capa do disco foi
idealizada pelo arquiteto e compositor Fausto Nilo. O alcance e
repercussão obtidos por uma faixa do São Piauí imprimiram o nome
de Clodo no cenário popular da música brasileira: além da versão presente no
disco, a música “Cebola Cortada” – parceria com o também cearense Petrúcio Maia
- foi lançada simultaneamente por Fagner no seu LP Orós, de 1977.
Posteriormente, incorporou-se ao repertório do grupo MPB-4 (LP Bons tempos,
hein?, de 1979) e ao do baiano Carlos Pita (LP Coração de Índio, de
1981 – Continental), assim como recebeu registro do
próprio Petrúcio Maia (LP Melhor que mato verde, de 1980– CBS). Foi também em 77 que se deu a inclusão da música intitulada
“Velho demais” (Clodo e Zeca Bahia) na trilha sonora da novela da Rede Globo de
Televisão Sem lenço Sem documento, em gravação do grupo Placa
Luminosa.
No entanto, o nome de Clodo
passou a ser conhecido em âmbito nacional a partir do ano de 1978. A parceria
com Clésio na música “Revelação” impulsionou a carreira de Raimundo Fagner,
contribuindo para alçá-la a uma condição de maior destaque na música popular
brasileira. “Revelação” ficou entre as músicas mais tocadas nas emissoras de
rádio de todo o país nos dois anos que se seguiram ao seu lançamento, atuando
como carro-chefe do disco Eu canto – Quem viver chorará econduzindo-o
a índices de vendagem até então não alcançados por Fagner. Além da divulgação
através do disco, a música foi incluída como tema da
novela “Cara a Cara”, exibida pela TV Bandeirantes, em 1979. A
trajetória de “Revelação” na história recente da música popular brasileira é
bastante curiosa. Inicialmente celebrada por um público muito específico,
ganhou leituras de artistas de gêneros e tendências os mais diversos como as
cantoras Simone e Mariama, os grupos Razão Brasileira e Engenheiros do Hawaii,
e o cantor Wando.
79
foi um ano de inúmeras gravações da obra do compositor. Naquele ano,
Clodo entrou novamente em estúdio para gravar o segundo disco com Climério e
Clésio: dessa vez pelo selo Epic da gravadora CBS, cuja direção artística
estava sob o comando de Fagner. O LP se chamou Chapada do Corisco
(título de uma das faixas, assinada por Clodo e Climério) e contou com a
participação dos músicos Manassés, Abel Ferreira, Dino das 7 Cordas,
Dominguinhos e o próprio Fagner, dentre outros. Nesse disco gravaram
“Revelação”. Também aqui a capa do LP foi criada por Fausto Nilo, dessa vez
juntamente com Januário Garcia. O contato com Dominguinhos a partir de Chapada
do Corisco proporcionou a Clodo a cristalização de uma nova parceria: a
paraense Fafá de Belém foi das primeiras intérpretes a gravar uma composição
dos dois, incluindo a canção intitulada “Carece de explicação” em seu LP Estrela
Radiante (Phillips, 1979). Paralelamente, outra música de Clodo era gravada
por Fagner em seu disco Beleza (CBS, 1979): “Ave coração”, na qual Zeca
Bahia foi co-autor. Também chegou às lojas o disco Estrela
ferrada (CBS, 1979), de Cirino, contendo “Tu me querias pedra”, parceria
desse compositor com Clodo. Ao mesmo tempo, aquele foi o ano do lançamento do
disco SORO (CBS/EPIC, 1979), projeto que teve a direção artística de Fagner e
coordenação de Ivair Vila Real. Acompanhava o disco um libreto com
textos e fotos impressos de vários autores, dentre os quais estava Clodo
com seu poema “Eu matuto, Tu matutas”. Merece registro a gravação do disco Equatorial
de Teti, em 79, com as músicas “Barco de Cristal” (Roger, Clodo e Fausto Nilo),
“Daniela” (Roger e Clodo), “Maracá" (Roger e Clodo) e “Último raio de sol”
(Roger, Clodo e Fausto Nilo).
“Ave coração” entrou no
repertório do terceiro disco de Clodo, Climério e Clésio, que levou o
título Ferreira (RCA, 1981). A idealização desse
projeto ficou a cargo de Fagner e quem assumiu a direção de estúdio foi
Dominguinhos. A canção do LP Ferreira intitulada “Por um triz”
merece destaque por ter sido incluída no disco Romance popular, de Nara
Leão, lançado em 1981. Essa canção estreitou os laços de amizade entre Nara e
os irmãos Ferreira a ponto de motivá-la a compor a única música de sua autoria.
Juntamente com Fausto Nilo e Fagner ela homenageou Climério, Clésio e Clodo com
a música “Cli, Clê, Clô”, presente nesse seu trabalho. Na mesma época se
deu a primeira gravação da canção “Meio Dia” (Clodo e Fagner), integrando o LP Um
minuto além (Polygram, 1981), de Zizi Possi.
No decorrer da década de 80, Clodo,
Climério e Clésio mantiveram o ritmo da produção de canções em conjunto,
mesmo ficando uma boa temporada sem gravar em nome do trio. No entanto, algumas
de suas composições ganharam leituras nas vozes de vários intérpretes.
Guadalupe com “Questão de tempo” e “Telhados” no LP Sempre foi bom (RCA,
1982); Fagner com “Intuição” no LP Palavras de amor (CBS, 1983) e “Tiro
certeiro” no LP A mesma pessoa (CBS, 1984); Amelinha com “Canção de
esquina” no disco que tem seu nome (Continental, 1987.), foram algumas das
obras assinadas pelos três que receberam registros no período. O mesmo ocorreu
com o trabalho de Clodo em parceria com outros músicos compositores,
particularmente Dominguinhos: Ângela Maria gravou “Coberto de razão”, em seu
disco Estrela da Canção (EMI, 1982); Guadalupe interpretou “Nas costas
do Brasil”, no disco de 82; Cláudia, “Terra batida”, no seu trabalho intitulado
Sentimentos (Lupsom, 1986); e “Promessa” foi selecionada para fazer
parte do LP Fagner (RCA, 1986). Uma nova experiência na carreira de Clodo,
Climério e Clésio sucedeu em 1985 quando o diretor de cinema Geraldo Moraes
os convidou para criar um tema que pudesse fazer parte da trilha do seu filme
A difícil viagem. Compuseram “Aruanã”.
Em 1988, o antigo parceiro Zeca Bahia lançou o LP independente Estrada
das Canções, nele incluindo “Se tens, eu tenho”, de ambos.
E foi pela via do disco
independente que Clodo, Climério e Clésio retomaram as atividades de
estúdio nos fins dos 80. Em 1989, lançaram o vinil Profissão do Sonho
com boa parte do repertório inédito e basicamente utilizando-se da estrutura
técnica e profissional oferecida em Brasília. Em Profissão do Sonho incluíram
“Aruanã”, do filme A difícil viagem.
Em 91, Clodo foi surpreendido
por uma grata notícia: a sua música “Querubim”, feita com Dominguinhos e
gravada por este nos anos 80, passou a fazer parte de uma compilação realizada
pelo músico e produtor David Byrne para o mercado internacional de discos.
Lançada em CD sob o título Forró etc. – Music of the Brazilian nordest (número 3 de uma série
conhecida como Brazil Classics), essa coletânea reuniu várias músicas do
gênero eternizado por Gonzaga.
Os dois discos seguintes dos
Ferreira - Clodo, Climério e Clésio (Som Terra, 1991)e
Afinidade (Som Terra, 1993) - mantiveram o caráter mais local que
caracteriza o disco independente Profissão do Sonho. A canção
“Conterrâneos”, assinada pelos três, contou com a participação de Dominguinhos.
Abrindo o lado B do disco de 91, ela foi feita para o filme Conterrâneos
velhos de guerra, de VladimirCarvalho. Das participações que
estiveram no Clodo, Climério e Clésio, os Ferreira puderam contar
com a contribuição da flauta de Odette Ernest Dias nas faixas “Outra cor” e
“Morada”. Quando foi lançado o LP Afinidade, o trio jáhavia
se desfeito. Das músicas não inéditas que levaram a assinatura de Clodo
presentes nesse último trabalho conjunto, merece referência a segunda gravação
de “Corda de aço”, dezessete anos após seu lançamento por Fagner.
Nos cinco anos que se seguiram,
Clodo dedicou mais tempo às suas atividades na UnB como professor - lotado no
departamento de Áudio Visual e Publicidade da Faculdade de Comunicação - e como
publicitário. A idéia de seguir carreira individual foi sendo amadurecida até
que em 98 ele lançou o CD Corda de Aço (UnB Discos, 1998). Corda
de Aço foi
confeccionado em Brasília e teve a participação especial de Zelito Passos. Com
exceção da inédita “Mentira da saudade”, todas as demais faixas desse trabalho
representaram novas versões realizadas por Clodo Ferreira para as canções
de sua autoria mais conhecidas pelo público. Além da faixa-título, foram
incluídas “Revelação”, “Cebola cortada”, “Ave coração”, “Querubim”, “Ponta do
Lápis” e outras, na voz do seu autor. “Mentira da saudade” possui temática de
aparência autobiográfica e foi a música que abriu esse trabalho. O texto dessa
canção evoca uma relação com o passado que parece pertencer à memória de todo
indivíduo. Em 1999, Clodo se apresentou no projeto “Temporadas Populares”,
organizado pelo Governo do Distrito Federal, dividindo o palco com o compositor
baiano Tom Zé. No ano seguinte, o mesmo projeto reuniu Clodo e Zé Ramalho da
Paraíba em uma única apresentação.
Em 2001, foi lançado o único
disco em formato digital da carreira de Clodo, Climério e Clésio.
Reunindo músicas dos três últimos Lp’s do trio, esse CD recebeu o nome de Tiro
Certeiro (T-Bone Cultural, 2001).
Em 2002, por conta de uma
iniciativa sua, Clodo passou a ministrar o curso “Comunicação e Música” na
Faculdade de Comunicação da UnB. Nesse mesmo ano lançou o CD Gravura
(UnB Discos, 2002) contendo apenas músicas inéditas. Nele, Clodo Ferreira prestou
uma homenagem ao poeta e gravurista J. Borges: o encarte do disco foi ilustrado
com fotografias das ferramentas utilizadas pelo artesão. Oswaldinho, Manassés e
Mauro Sérgio tiveram participação especial nesse trabalho (os dois primeiros
estiveram também no Corda de Aço). Dentre os músicos que
acompanharam Clodo Ferreira, vale mencionar a presença de João e Pedro
Ferreira, filhos do compositor. O cd Gravura foi dedicado à sua
esposa Helô. Também em 2002 se deu a estréia do filme Eu não conhecia Tururu,
com roteiro e direção de Florinda Bolkan, cujo tema principal utilizado na
trilha sonora foi “Revelação” – tanto a gravação original de Fagner, quanto em
vinhetas instrumentais com trechos da canção.
Após o lançamento de Gravura,
Clodo passou a se dedicar ao estudo da obra de J.B. da Silva, o Sinhô,
compositor carioca considerado o “rei do samba” na década de 1920. Buscando
encontrar e reproduzir com fidelidade as características harmônicas e os
timbres da obra de Sinhô - e da música que se tocava no período de seu
surgimento -, Clodo formou uma banda que incluiu entre seus instrumentos a tuba
e o flugelhorn, pouco usuais na feitura da música popular atual. O repertório de Sinhô foi apresentado por Clodo e Banda no Clube
do Choro, da capital federal, por duas ocasiões: em agosto e novembro de
2003.
No início de 2004, parte do
produto dessa pesquisa foi levada ao público brasiliense que esteve presente no
Conjunto Nacional, quando do lançamento do livro Tem mais samba
(Editora34, 2004), escrito por Tárik de Souza. No decorrer daquele ano a
Sony Music reuniu em uma caixa os discos de Fagner gravados no
período de 1975 a 1985 que trazia fonogramas considerados mais raros de sua
carreira. Nessa compilação foi lançada a música “Oferenda”, do disco Chapada
do Corisco, como faixa bônus do disco Beleza.
2004 marcou também o ano em que
Clodo Ferreira deu início à sua pesquisa de doutoramento em História Cultural
junto à UnB.
Brasília, julho de 2004.
Magno
Cirqueira Córdova.
Discografia
(por
ano de lançamento)
-Chope no Escuro - Clodo, Climério e
Malu Moraes. Compacto
Simples Independente (Tanahora – 1974)
-Chapada do Corisco – Clodo, Climério e
Clésio. LP (CBS – 1979)
Lado A:
1)Rixa (Clodo e Climério)
2)Flor do coqueiro (Pita) (Clésio e Clodo)
3)Morena (Naeno)
4)Chapada do Corisco (Clodo e Climério)
5)Dia Claro (Dominguinhos e Clésio)
Lado B:
1)Oferenda (Clésio, Clodo e Climério)
2)Modo de ser (Clodo)
3)Timom (Clésio e Climério)
4)Enquanto engoma a calça (Ednardo e Climério)
5)Revelação (Clésio e Clodo).
-Ferreira – Clodo, Climério e Clésio. LP
(RCA – 1981)
Lado A:
1)Louco luar (Clodo, Climério e Clésio)
2)Cabeça feita (Clodo, Climério e Clésio)
3)Ave Coração (Zeca Bahia e Clodo)
4)Por um Triz (Clodo, Climério e Clésio)
5)Roupa de domingo (Clodo, Climério e Clésio)
6)Luz do dia (Clodo, Climério e Clésio)
Lado B:
1)Geração (Clodo, Climério e Clésio)
2)Passagem do Cometa (Clodo, Climério e Clésio)
3)Brilho do sol (Clodo, Climério e Clésio)
4)Estaca Zero (Ednardo e Climério)
5)Remanso (Vicente Lopes e Clésio)
6)Não é inútil amar (Clodo, Climério e Clésio)
-Profissão do Sonho – Clodo, Climério e
Clésio – LP (Produção Independente – 1989)
Lado A:
1)Silêncio agrário (Clodo, Climério e Clésio)
2)Olinda (Clodo, Climério e Clésio)
3)Tiro Certeiro (Clodo, Climério e Clésio)
4)Canção de esquina (Clodo, Climério e Clésio)
5)Beijo insosso (Clodo e Zeca Bahia)
Lado B:
1)Boi divino (Clodo, Climério e Clésio)
2)Distraída (Clodo, Climério e Clésio)
3)Túnel do tempo (Clodo, Climério e Clésio)
4)Dilúvio (Clodo, Climério e Clésio)
5)Aruanã (Instrumental) (Clodo, Climério e Clésio)
-Clodo, Climério e Clésio – Clodo,
Climério e Clésio – LP (Som da Terra – 1991)
Lado A:
1)Revoada (Clodo, Climério e Clésio)
2)Corda bamba (Clodo, Climério e Clésio)
3)Elo perdido (Clodo, Climério e Clésio)
4)Queira ou não queira (Dominguinhos e Clodo)
5)Outra cor – Adaptação de adágio de Albinoni (Clodo,
Climério e Clésio) Versos de Clésio
Lado B:
1)Conterrâneos (Clodo, Climério e Clésio)
2)Balé (Clodo, Climério e Clésio)
3)Brasília (Clodo, Climério e Clésio)
4)Morada (Clodo, Climério e Clésio)
5)Flor do coqueiro / Pita (Clodo e Clésio)
-Afinidade – Clodo, Climério e Clésio
– LP (Som da Terra – 1993)
Lada A:
1)Quando a palavra nasce (Clodo, Climério e Clésio)
2)Saudades do paraíso (Clodo, Climério e Clésio)
3)Paraíba do Sul (Antônio Adolfo e Climério)
4)Corda de aço (Raimundo Fagner e Clodo)
5)Vitalidade (Clodo, Climério e Clésio)
Lado B:
1)Borboleta branca (Clodo, Climério e Clésio)
2)Outra vez (Dominguinhos e Clésio)
3)Afinidade (Clodo, Climério e Clésio)
4)Todas as cores (Clodo, Climério e Clésio)
5)Quintais (Clodo, Climério e Clésio)
-Corda de Aço – Clodo Ferreira – CD
(UnB Discos – 1998)
1)Mentira da Saudade (Clodo)
2)Cebola Cortada (Petrúcio Maia e Clodo)
3)Revelação (Clodo e Clésio)
4)Querubim (Dominguinhos e Clodo)
5)Ponta do Lápis (Rodger Rogério e Clodo)
6)Ave Coração (Clodo e Zeca Bahia)
7)Meio-Dia (Fagner e Clodo)
8)Borboleta Branca (Clodo, Climério e Clésio)
9)Beijo Insosso (Clodo e Zeca Bahia)
10)Corda
de Aço (Fagner e Clodo)
-Tiro Certeiro – Clodo, Climério e
Clésio – CD (T-Bone Cultural – 2001) *
1)Balé
2)Olinda
3)Boi Divino
4)Silêncio Agrário
5)Distraídas
6)Saudades do Paraíso
7)Quando a palavra nasce
8)Conterrâneos
9)Borboleta Branca
10)Tiro
Certeiro
11)Afinidade
12)Canção
de Esquina
13)Aruanã
*Todas as músicas são de Clodo,
Climério e Clésio
-Gravura – Clodo Ferreira – CD (UnB
Discos – 2002)
1)Pedra Lapidada (Clodo Ferreira)
2)Os Iguais (Clodo Ferreira)
3)Gravura (Clodo Ferreira)
4)Matutei (Clodo Ferreira)
5)Dimensão (Clodo Ferreira)
6)Quebra-queixo (Clodo Ferreira)
7)Rama (Clodo Ferreira)
8)Engrenagens (Clodo Ferreira)
9)Feitiço Mineiro (Ribah Nascimento e Clodo Ferreira)
10)Senhora
Pantaneira (Clodo Ferreira)
Fontes
consultadas
-As revelações de Clodo Ferreira. Entrevista disponível
na página http://www.fagner.com.br .
-BAIANA, Ana Maria. “Voz pra cantar Corda de Aço”. In: Nada
será como antes: mpb nos anos 70. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1980.
-CAZARRÉ, Lourenço. Um castelo no cerrado: histórias
de moradores e artistas da SQN 312. Brasília: Ed. Do Autor, 2002.
-Clodo Ferreira: Revelação na ponta do lápis. Entrevista
concedida por Clodo Ferreira ao jornalista Roberto Homem. Jornal Zona
Sul. Ano XII Nº 100. Novembro de 2003. Natal/RN.
-MORELLI, Rita C. L. Indústria Cultural: um estudo
antropológico. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1991.
Obs: parte das informações colhidas para compor este texto
foi fornecida por Clodo Ferreira, que disponibilizou seu arquivo pessoal
e prestou vários depoimentos a Magno Córdova, no período de março a julho de
2004.
Os vídeos aqui anexados foram retirados do Youtube.