segunda-feira, 3 de abril de 2017

Programa Aldeia Do MUNDO

(por Magno Córdova)


A moça bonita da foto é Isaurinha Garcia.
Figura dentre as "maiores", uma diva do rádio nacional, para alguns Isaurinha antecede a Leila Diniz como uma mulher fora do seu tempo, "pioneira no comportamento ousado".
Isaurinha está no repertório do Programa Aldeia Do MUNDO que foi ao ar na terça-feira passada, dia 28/03, pela Rádio Inconfidência de Belo Horizonte.
Além de Isaurinha, estão nessa edição do programa: Heitor dos PrazeresTantinho da MangueiraLadston do NascimentoRusso PassapussoGonzaguinhaAve Sangria, Assaltarte, VanguartTotonho e Paulo Ró.
Se você não teve a oportunidade de ouvir, o áudio já encontra-se disponível na página da emissora. Se você ouviu e quer ouvir novamente, também poderá fazê-lo.
É só clicar aqui: http://inconfidencia.mg.gov.br/modules/debaser/singlefile.php?id=12610
Um ótimo programa para todos!

domingo, 2 de abril de 2017

Cultura Indígena no Xingu

(por Magno Córdova)

O material a seguir foi organizado no ano de 2010 para a EMBRATUR - Empresa Brasileira de Turismo, junto à FIPE - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas. Mantém a estrutura das informações encaminhadas para a base de dados daquelas instituições naquele ano e constitui-se de fragmento de projeto envolvendo o mapeamento de destinos e produtos turísticos brasileiros realizados por diversos profissionais consultores. No caso, minha intervenção se deu no plano da consultoria em turismo cultural, responsável que fui por este e outros destinos/produtos de natureza semelhante em todo o território nacional. 

Sua divulgação aqui foi motivada pelo contexto da convocatória para o movimento Acampamento Terra Livre, visando unificar as lutas e fortalecer o Brasil indígena, a ser realizado de 24 a 28 de abril de 2017, em Brasília. 

Voltado para o setor turístico, o texto não possui elementos críticos que possam situar e nem pretende ser porta-voz do movimento que motivou sua publicação. No entanto, acredito que sua divulgação poderá introduzir alguma questão relativa às relações entre o Estado brasileiro e os povos indígenas e estimular o possível leitor a buscar novos elementos que possam situá-lo ao longo dos processos de luta e no âmbito do momento presente que se desenrola.

Em última análise, terá cumprido sua função se atender àqueles que simplesmente desconhecem o seu conteúdo ou que buscam o que é seu objetivo primordial: orientar o público dentro das categorias do turismo cultural. 

 Cultura Indígena no Xingu 


Considerado a maior e uma das mais famosas reservas do gênero no mundo, o Parque Indígena do Xingu ocupa uma área de cerca de 27 mil km² no Centro-Oeste brasileiro. Abriga 5 mil habitantes, divididos em 15 etnias e 30 aldeias. Segundo a UNESCO, o Parque Indígena do Xingu representa o mais rico mosaico linguístico das Américas.

Localiza-se no norte do estado do Mato Grosso, a 530 km da capital Cuiabá. O centro de visitantes Leonardo Villas Boas fica às margens do rio Tuatuari, no município de Feliz Natal. 

Em relação à melhor época para visitação ao Parque, é considerado ideal o período de junho a agosto, que é o período de seca, embora seja possível nos outros meses do ano. Durante o período seco aparecem pequenas praias às margens dos rios.

O Posto Leonardo Villas Bôas é um dos pontos mais movimentados do Xingu. Além de receber visitantes e pesquisadores durante o ano inteiro, a unidade presta atendimento médico, odontológico e abastece toda a região do Alto Xingu. O posto atende a mais de oito etnias como Kuikuros, Kalapalos, Iaualapiti, Kamaiurá, Waurá e Aweti. 

(Imagem extraída do youtube)

O Parque Indígena do Xingu (PIX) foi criado em 1961, por iniciativa de sertanistas liderados pelos irmãos Villas-Bôas - Cláudio,  Orlando e Leonardo. Foi resultado de vários anos de trabalho e luta política dos irmãos Villas Boas, ao lado de personalidades como Marechal Rondon, Darcy Ribeiro, Noel Nutels, Café Filho e muitos outros. Sua criação teve por objetivo garantir a sobrevivência, melhores condições de vida e a posse da terra à população indígena da região. Como conseqüência, preservar sua cultura, seus hábitos e sua religião. Segundo Orlando Villas Bôas, “o governo brasileiro, ao criar o parque, procurou cumprir dois importantes objetivos: constituir uma reserva natural para a fauna, flora e, sobretudo, fazer chegar diretamente às tribos sua ação protetora”. Atualmente, o parque tem cerca de 5 mil habitantes de 15 etnias diferentes, reunidos em 30 aldeias. Entre as etnias encontram-se: Waurá, Kayabi, Ikpeng, Yudja, Trumai, Suiá, Matipu, Nahukwa, Kamaiurás, Yawalapitis, Mehinakos, Kalapalos, Aweti, Kuikuro.

Em seus 2,6 milhões de hectares, a paisagem exibe uma grande biodiversidade. É uma região de transição ecológica: das savanas e florestas semideciduais mais secas, ao sul, para a floresta ombrófila amazônica, ao norte. Apresenta cerrados, campos, florestas de várzea, florestas de terra firme e florestas em Terras Pretas Arqueológicas. As matas que cobrem a região não apresentam a mesma exuberância das típicas florestas hileianas, em virtude do menor porte de suas árvores. No entanto, se enquadram perfeitamente no típico cenário amazônico geral, dada a sua densidade, preponderância da coloração verde escura e, sobretudo, pela continuidade da formação florestal que se estende indefinidamente para todos os lados.

O clima alterna uma estação chuvosa, de novembro a abril - quando os rios enchem e o peixe escasseia -, e um período de seca nos meses restantes, época da tartaruga tracajá e das grandes cerimônias inter-aldeias. Ao sul do parque estão os formadores do rio Xingu, que compõe uma bacia drenada pelos rios Von den Stein, Jatobá, Ronuro, Batovi, Kurisevo e Kuluene. Este último é o principal formador do Xingu, quando se encontra com o Batovi-Ronuro.

Pode-se dividir o parque em três partes, de acordo com os povos que lá habitam: o norte, conhecido como Baixo Xingu; na região central, o chamado Médio Xingu; e ao sul, o Alto Xingu. Os povos do sul são muito semelhantes culturalmente e são atendidos pelo Posto Indígena Leonardo Villas Bôas. No Médio Xingu ficam os Trumai, os Ikpeng e os Kaiabi, atendidos pelo Posto Pavuru. Ao norte estão os Suyá, Yudjá e Kaiabi, atendidos pelo Posto Diauarum. Cada posto apóia a logística de projetos e atividades desenvolvidas no Parque, como educação e saúde, havendo em todos eles uma UBS (Unidade Básica de Saúde) onde trabalham agentes indígenas de saúde e funcionários da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), conveniada com a Funasa.

O Xingu passou por diversas mudanças que coincidem com a história da questão indígena nas últimas décadas. No início, a filosofia aplicada pelos Villas Bôas visava proteger o índio do contato com a cultura dos grandes centros urbanos. Com a saída de Orlando e Cláudio Villas Bôas da direção do Parque, em 1973, este pensamento começou a mudar. O administrador seguinte, Olímpio Serra, começou a contratação dos primeiros funcionários indígenas da Funai, dando o primeiro passo para uma maior representação das comunidades. Em 1982, o Xingu teve seu primeiro diretor índio, o cacique Megaron, da tribo Kaiapó. Desde então, outros começaram a se preparar e assumir diversos cargos dentro do Parque. Atualmente, eles detêm a maioria dos postos administrativos, protegendo suas próprias fronteiras e prestando assistência à comunidade.

Das etnias que habitam o parque muitas estão em áreas mais preservadas do contato com o homem branco, no Alto Xingu, terra de Aritana e do Quarup. 53 tribos ainda vivem isoladas no meio da selva. Outras estão mais próximas do branco, na busca de ações que melhorem realmente a qualidade de vida das comunidades. São os grupos instalados nas redondezas dos postos Diauarum e Pavuru, no Baixo e Médio Xingu.

Abaixo, vídeo com a música "Mito - Metumji Iarén", dos índios Suyá, do Mato Grosso do Norte, adaptada pela cantora e pesquisadora Marlui Miranda. Em 1995, Marlui gravou o disco ihu - Todos os sons, onde fez adaptações de repertório musical indígena brasileiro.
(Vídeo extraído de https://www.youtube.com/watch?v=kG7adWydLWw )

Atrativos Turísticos Específicos

O Pólo Xingu apresenta em seu roteiro turístico uma das mais importantes reservas indígenas brasileiras. O Parque Indígena Xingu está localizado no coração do Brasil, ao norte de Mato Grosso, na divisa com o Pará. É uma região de transição entre o cerrado e a Floresta Amazônica. O parque espalha-se por 27 mil km². Nesse ambiente está sediado o Xingu Refúgio Amazônico, localizado a uma hora de barco da aldeia das tribos Waurá e Trumai.  Foi implantado fora do perímetro do Parque Nacional do Xingu exclusivamente para atender a demanda turística. Isso porque não é permitido entrar no parque. O empreendimento tem como foco principal mesclar a cultura nativa com a riqueza do meio ambiente, o que o torna uma alternativa para a prática do turismo cultural (étnico) e ecológico. O lugar é dotado de uma piscina natural e construído no formato de uma aldeia. Possui restaurante com vistas para o rio Von den Steinen. Através dos seus responsáveis, é estabelecido contato direto com o artesanato e a cultura dos povos da região. Também é possível integrar a aldeia, participando das atividades que fazem parte do dia-a-dia das tribos, como pesca de arco e flecha, produção de artesanato cerâmico, palha e preparação do sal de aguapé. Além destas vivências, o visitante assiste a apresentações de danças e ouve histórias e lendas do povo Xingu. Dessa forma, presencia o cotidiano indígena, troca experiências e interage com a cultura e culinária local.

O Xingu Refúgio Amazônico foi projetado para gerar alternativas de conservação dos ecossistemas naturais da borda oeste do Parque Nacional Indígena do Xingu. Essa região recria os ambientes e a influência da cultura indígena do Alto Xingu, como a encontrada pelo pesquisador alemão Von den Steinen, em 1884. O nome do pesquisador passou a ser o nome de um importante afluente da Bacia do Rio Xingu graças ao reconhecimento da relevância dos seus trabalhos para a fixação da cultura dos povos da região.

O projeto da pousada teve início em 1996, através de estudos realizados por técnicos especializados em ecologia e ecoturismo. Foi inaugurado em 2000, ocupando uma área de 41 mil hectares, incluindo uma fazenda com plantações de soja e arroz. Está localizado junto à borda do Rio Von den Stein e ao lado da borda oeste do Parque Nacional do Xingu. Transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural, conta com uma área de 19 mil hectares no município de Feliz Natal, na vertente sul da bacia Amazônica. Os responsáveis pelo projeto contam com a colaboração das tribos Waurá e Trumai.

A Pousada possui 7 quartos, para até 20 pessoas, área de camping, restaurante, piscina em forma de deck sobre o rio, fornecendo hospedagem com pensão completa e equipamentos inclusos em todos os passeios. Dentre as atividades sugeridas aos visitantes estão:
  • percorrer a pé uma trilha com 2 mil metros de extensão para conhecer uma praia de rio, ótima para banhos, acompanhado por um indígena raizeiro (conhecedor da flora e fauna local). Depois retornar à pousada de canoa ou barco;
  • visitar a fazenda da qual a pousada faz parte, conhecendo o lado rural da floresta amazônica;
  • praticar canoagem entre os igarapés e lagoas, podendo realizar pesca esportiva;
  • fazer passeios a cavalo percorrendo 10km de trilhas;
  • visitar um sistema de manejo florestal, e saber o que é um levantamento de senso. Conhecer a parte da propriedade que gera produção de madeira para venda, com selo verde, com controle. Verificar onde são determinadas as árvores escolhidas como reprodutoras, as que deverão ser cortadas e re-plantadas.
Na primeira noite é realizada uma apresentação sobre a estrutura da pousada e sobre a cultura indígena. Na manhã seguinte ocorre a visita à aldeia, com permanência de um dia. Há a possibilidade de dormir uma noite na aldeia, em oca equipada com redes para dormir. Podem ser realizados passeios percorrendo trilhas com os índios, pescaria e focagem noturna de jacarés. Também à noite ocorre a convivência no centro da aldeia, com fogueira, danças, pinturas corporais, relatos de estórias e tradições orais da região.




















sábado, 12 de novembro de 2016



TODA TERÇA, ÁS 22H

ACOMPANHE O PROGRAMA NO RÁDIO: Inconfidência FM de Belo Horizonte, 100,9

OU PELO SITE: http://inconfidencia.mg.gov.br/aldeiadomundo


OU

CURTA, COMENTE e PARTICIPE do perfil no facebook: www.facebook.com/programaaldeiadomundo

SEJA BEM-VINDO(A) e uma ÓTIMA ESCUTA pra você!





sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Programa Aldeia do Mundo - Rádio Inconfidência FM - Belo Horizonte - Produção e Apresentação de Magno Córdova

(por Magno Córdova)

Amigos/amigas,
a segunda edição do Programa #AldeiaDoMundo, levado ao ar na última terça-feira, dia 1º de novembro, encontra-se disponível na página da Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte.
Se você ouviu e gostaria de ouvir novamente; ou se você não teve a chance de ouvir no dia em que o programa foi ao ar e gostaria de conferi-lo, fique à vontade para acessar o arquivo através do endereço abaixo.
Uma boa escuta pra todos e todas!

http://inconfidencia.mg.gov.br/modules/debaser/singlefile.php?id=11593
FM 100,9 brasileiríssima
Aldeia do Mundo

Aldeia do Mundo

com Especiais.
Apresentação e produção do historiador Magno Córdova

 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Imprensa e história recente do Brasil

(por Magno Córdova)

Nas eleições das “Diretas Já” para presidente da república no Brasil, em 1984, o Jornal da Tarde apresentou o que se considera a sua maior inovação em termos gráficos: na sua primeira página, anunciou a derrota do projeto das diretas oferecendo aos leitores apenas um retângulo preto, sem qualquer dizer, simbolizando o luto pela derrota.


         Em 1973, o editor do Jornal do Brasil, Alberto Dines, impedido de noticiar a morte de Salvador Allende, presidente socialista chileno deposto por uma junta militar chefiada por Augusto Pinochet, apresentou a primeira página do jornal sem manchetes e sem fotos. Com isso, ao mesmo tempo driblou a censura e denunciou sua ação.

         Entrevistado sobre sua participação no momento do golpe dado pelos militares em 1964, o general Olympio Mourão Filho declarou ter lido na manchete do jornal O Globo de 31 de março daquele ano que haveria se instalado um soviete na Marinha de Guerra. Preocupado com a presença comunista no comando da corporação, decidiu marchar com suas tropas e antecipar o golpe.

         A forma como a imprensa nos conta a História do país deve ser vista com cautela. Qualquer que seja a tentativa de um órgão de comunicação no sentido de tornar imparcial o acontecimento abordado, a informação dada trará em seu bojo as preferências ideológicas de quem a fornece. Nesse sentido, a matéria jornalística representa um documento muito útil para a identificação das correntes de pensamento dominantes entre os órgãos formadores de opinião em um determinado momento histórico.


Há um pequeno livro, paradidático, que pode servir como uma boa iniciação sobre o papel dos órgãos de imprensa no país. Seu título é “Imprensa e História do Brasil”, de Maria Helena Rolim Capelato. Foi publicado pela primeira vez em 1988, pela Editora Contexto. Encontra-se disponível em pdf no endereço: https://pt.scribd.com/doc/317069631/CAPELATO-Maria-Helena-Rolim-Imprensa-e-Historia-do-Brasil-Editora-Contexto-Sao-Paulo-1988-1-pdf



Abaixo, uma canção que joga luz sobre uma outra dimensão, inusitada (?) acerca dos usos dados ao jornal (vídeo com o áudio da música logo após o texto com a letra). No caso, o jornal utilizado por um migrante na São Paulo de meados do século XX. "Meu enxoval" é um coco de autoria de Gordurinha e José Gomes. Foi gravada por Jackson do Pandeiro em 1958. 

Eu fui para São Paulo procurar trabalho 
E não me dei com o frio 
Tive que voltar outra vez para o Rio 
Pois aqui no Distrito Federá 
O calor é de lascar 
E veja o meu azar: 
Comprei o "Jornal do Brasil" 
Emprego tinha mais de mil 
E eu não arranjei um só... 

Telegrafei para a vovó 
Ela tem uma bodega em Recife, Pernambuco 
Eu disse pra ela que estou quase maluco 
E que não tenho nem onde morar, o quê que há?

Estou dormindo ao relento, valei-me nossa Senhora! 
O meu travesseiro é um "Diário da Noite" 
E o resto do corpo fica na "Última Hora".

Mas se eu voltar, aquela turma lá do Norte me arrasa 
Principalmente o povo lá de casa 
Que vai perguntar por que é que eu fui embora. 
Por isso eu vou ficando 
Dormindo aqui na porta do Municipal 
Com quatro mil-réis eu compro o enxoval: 
"Diário da Noite" e a "Última Hora".


sábado, 15 de outubro de 2016

Os professores e a mídia em dois golpes de Estado no Brasil

(por Magno Córdova)

"A MPB foi a escola da minha geração" (Simone Guimarães)

Pensou-se em utilizar o seguinte subtítulo ao texto, sugerindo um traço de perfil do segundo elemento do parâmetro comparativo:

"Da hipocrisia fardada aos descarados de toga",

típico de cacoetes acadêmicos, mas sem abrir mão de certa dose de sarcasmo.

O contexto de origem é o período militar recente no Brasil. Cabe ao leitor situar o momento presente a partir do que as canções e o rápido comentário evocam, confrontados com o que esteja diante dos olhos da atualidade, de PECs e políticas descaradamente insanas.
Vamos a ele.

Em determinado momento de meu texto de dissertação, avalio duas canções. 

A primeira, de Ednardo, intitula-se "Receita da felicidade", cuja letra é a seguinte (logo abaixo o vídeo com a canção):

Ultimamente ando às vezes preocupado
Vendo a cara tão risonha das crianças
Nas fotos, nos anúncios
Nos cartazes das paredes
Dando ideia que algo vai acontecer
É receita certa pra sensibilizar
Pra esconder
Pra mentir ou pra vender
Vejo as caras tão risonhas
Tão lindinhas, tão risonhas
Nos jornais
Nas paredes, nas TVs
Eu não gosto desses dedos que me apontam
Eu não gosto dessas frases que me dizem
“O futuro deles está nas suas mãos”
Pois é, seu Zé, sei não
Não me esqueço que algum dia fui risonho
Com a carinha bonitinha pra valer
Quem guardou o meu futuro
Quem guardou o meu futuro
Quem guardou o meu futuro
Me dê.

(vídeo extraído do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=SgR45Wa622k)

Na sequência, após rápida contextualização acerca da TV e dos meios de comunicação no Brasil dos anos 70, comento:

"Em sua canção, o compositor evoca uma imagem importada que ficara marcada como símbolo da convocação para a guerra: os dedos apontados como que a cobrar uma responsabilidade dos indivíduos na execução de campanhas perpetradas pelo Estado encontram na figura de Tio Sam o similar externo perfeito dos projetos dos militares como, por exemplo, o do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização.

E aqui ele remete ao slogan utilizado nesta campanha, só que reconstruído: em “o futuro deles está nas suas mãos” lê-se “você também é responsável”, verso da canção que embalou a campanha de implementação daquele projeto educacional e que, curiosamente, foi interpretada por dois conterrâneos seus: Dom e Ravel nasceram no estado do Ceará".

Para finalizar, então, segue a letra de "Você também é responsável" (o vídeo contendo o registro sonoro encontra-se logo em seguida):

Eu venho de campos, subúrbios e vilas,
Sonhando e cantando, chorando nas filas
Seguindo a corrente sem participar
Me falta a semente do ler e contar
Eu sou brasileiro anseio um lugar
Suplico que parem pra ouvir meu cantar:
Você também é responsável, então me ensine a escrever
Eu tenho a minha mão domável, eu sinto a sede do saber

Do saber, do saber

Eu venho de campos, tão ricos, tão lindos
Cantando e chamando. São todos bem-vindos
A nação merece maior direção. Marchemos pra luta
De lápis na mão;
Eu sou brasileiro, anseio um lugar, suplico que parem pra ouvir meu cantar:
Você também é responsável
Então me ensine a escrever
Eu tenho a minha mao domável, eu sinto a sede do saber

Do saber, do saber
Do saber, do saber

(vídeo extraído do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=G6kwbZIHZmA)

domingo, 2 de outubro de 2016

História de BH em pílulas I - Processo de urbanização

(por Magno Córdova)



A zona urbana de Belo Horizonte é composta de um traçado ortogonal de ruas e avenidas separadas da zona suburbana pela antiga avenida 17 de Dezembro, atual Contorno. O modelo inicialmente concebido pelos construtores da cidade incluía uma terceira área que seria a zona rural, onde se localizavam as colônias agrícolas, e que se constituiria em um “cinturão verde”. A ocupação dessas áreas não se deu de acordo com o previsto pelos idealizadores do modelo habitacional. A zona urbana teve boa parte de seus terrenos postos em leilão para que a seleção de proprietários se desse por um critério de renda. 

O que se verificou foi que, já no ano de 1902, viviam cerca de duas mil pessoas em favelas no interior da área da Contorno, principalmente nas regiões do entorno da avenida Amazonas, antiga Barroca, atual Barro Preto, local então destinado para o Jardim Zoológico municipal. Em algumas dessas áreas apareceram Vilas Operárias, locais habitados por aqueles que comprovavam bom comportamento e educação sanitária. 

A previsão de que a ocupação se daria do centro para as regiões periféricas foi subvertida, conforme atestam os dados do censo realizado em 1912: dos 39 mil habitantes moradores da cidade naquele ano, quase 70% residiam nas áreas suburbanas e na zona rural. Ou seja, cerca de 27 mil pessoas já haviam se estabelecido fora do espaço da avenida do Contorno. A área interna a essa avenida foi projetada para receber uma população de 30 mil pessoas e contava com apenas 12 mil habitantes naquela época. Nas décadas de 1930 e 1940, a cidade conheceu um período de extraordinário desenvolvimento urbano, em especial fora da Avenida do Contorno, que iria se refletir nas décadas posteriores. 

Em trinta anos, a população da cidade saltou dos 211 mil habitantes de 1940, para 1 milhão 255 mil habitantes em 1970. Mais da metade dessa população não era nascida na cidade, sendo grande parte dela originária das áreas rurais de todo o estado de Minas.

Abaixo, uma bela canção que faz menção a Santa Tereza, bairro de Belo Horizonte que ganhou status de importante território musical da cidade, particularmente a partir dos anos 70. Foi nesse bairro que se consolidaram as parcerias e encontros musicais do Clube da Esquina. O contexto era, portanto, o da Esquina, nome que alude explicitamente à importância desse elemento urbano no cotidiano da cidade, caracterizando-a.

Os compositores da canção são Tavinho Moura e Murilo Antunes. E o registro aqui tomado é o que se consolidou na própria cidade, impregnando seu imaginário. O intérprete é Beto Guedes e ela faz parte de seu álbum intitulado Contos da lua vaga, lançado em 1981.

A pedalar
Camisa aberta no peito
Passeio macio 
Levo na bicicleta
O meu tesouro da juventude
Passo roubando fruta de feira
Passo a puxar meu estilingue
Vai pedra certeira no poste
Passa um veterano
E já cansado
Herói de guerra
Grito: Lá vem a bomba!
E meu tesouro me leva
Pelas ruas de Santa Teresa
A pedalar
Encontro amigo do peito
Sentado na esquina
Pula, pega garupa
Segura o bonde ladeira acima
Ganha o meu tesouro da juventude
Ainda que a cidade anoiteça
Ou desapareça
Piso no pedal do sonho
E a vida ganha mais alegria
Ganha o meu tesouro da juventude
Que foi em Pedra Azul
E em toda parte
Onde tive o que sou



Uma indicação para leitura é o texto “Habitação e produção do espaço em Belo Horizonte”, de Heloísa Soares de Moura. Presente no livro Belo Horizonte: espaços e tempos em construção, organizado por Roberto Luis de Melo Monte-Mór. Publicação do CEDEPLAR – Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional e Prefeitura de Belo Horizonte.

Outro texto sugerido, relativo à produção musical do Clube da Esquina e sua relação com o espaço da cidade, foi publicado na Revista do Arquivo Público Mineiro e pode ser acessado através do endereço http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/acervo/rapm_pdf/RAPM07A122008_Acancaoamiganasruasdacidade.pdf . Seu autor é o histoiador Bruno Viveiro Martins. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Parque Nacional da Serra da Capivara - Patrimônio Mundial (UNESCO, 1991)

Abro aqui uma exceção quanto ao conteúdo proposto por esse blog que originalmente publica textos cujo objeto norteador é a música. 

O material a seguir é parte das informações por mim organizadas na condição de consultor em projeto intitulado  Promoção da diversidade e do diálogo intercultural entre o Brasil e o exterior por meio do turismo cultural, realizado em 2010, para o Ministério do Turismo, através da Embratur.

A iniciativa de torná-lo público foi motivada tendo em vista a situação político-administrativa atual (agosto de 2016) do Parque e da Fundham, criada para preservá-lo. 

As informações nele contidas, portanto, devem ser consideradas no contexto do ano em que o projeto foi realizado.
(por Magno Córdova)


Parque Nacional da Serra da Capivara - Patrimônio Mundial (UNESCO, 1991)



(Imagem extraída do endereço http://www.fumdham.org.br/ . Acesso em 24/08/2016)


Definição 

Área de proteção ambiental permanente que possui importante patrimônio em sítios arqueológicos. Inspirou a criação no local do Museu do Homem Americano. Suas grutas e tocas apresentam diferentes estilos de pintura e gravura rupestre e há circuitos de visitação a outras formações geológicas do semiárido, clima típico do Nordeste brasileiro.

Localização

Está localizado no sudeste do estado do Piauí e o principal município a que pertence é São Raimundo Nonato. Os outros são Brejo do Piauí, Coronel José Dias e João Costa. O ponto de referência para acesso ao parque é a cidade pernambucana de Petrolina, a 350 km, onde há aeroporto que opera com voos regulares. Dessa cidade e também de Teresina, que fica a 510km, saem ônibus para São Raimundo Nonato. Agências de viagens especializadas em ecoturismo costumam oferecer pacotes completos para visitas à Serra da Capivara.

Melhor época para ir

De dezembro a junho, quando as temperaturas locais são mais baixas. Fica aberto diariamente das 7h às 17h, durante todo o ano.
É obrigatório obter autorização do Ibama-PI e contratar um guia cadastrado pelo Ministério do Meio Ambiente. O percurso aberto à visitação possui 22 sítios arqueológicos com escadas de acesso, passarelas e sinalização.

Características gerais

O Parque Nacional Serra da Capivara reúne a maior coleção de desenhos rupestres do mundo, com cerca de 30 mil pinturas catalogadas. Está situado na região semi-árida do Nordeste do Brasil, na fronteira entre o sertão nordestino e a floresta amazônica. Apresenta dois períodos climáticos ao longo do ano: um de seca e um chuvoso. O relevo atual se formou há cerca de 240 milhões de anos. Um levantamento da placa do estuário marítimo que ocupava a região onde hoje está situado o parque forma uma cuesta. A cuesta representa uma fronteira entre a planície pré-cambriana do rio São Francisco e a formação sedimentar do período permiano-devoniano da serra. A diferenciação das rochas que formam a serra e a ação do tempo modelaram o relevo com formas e cores variadas.

Mais de 700 sítios arqueológicos foram mapeados no Parque Nacional e na área de proteção permanente. A maioria é formada de abrigos sob rocha. As pinturas dominantes são de caráter narrativo, retratando cenas da vida cotidiana e cerimonial. Seu conjunto forma um sistema gráfico de comunicação entre aqueles povos. É possível ao visitante observar a permanência temática dessa arte, tradição cultural que perdurou aproximadamente 12 mil anos. Ao mesmo tempo, faz-se notar uma evolução estilística na composição das cenas, através das variações na técnica de desenho e pintura. Há diversos vestígios deixados pelo homem pré-histórico nos sítios arqueológicos espalhados pelos 130 mil ha de área do parque, com galerias de vários andares, cobertas por pinturas e gravuras rupestres.

O parque foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO, em 1991. Está estruturado para receber a visita de diversos públicos. Há trilhas e sítios com graus diferenciados de dificuldade de percurso, conforme a disponibilidade de tempo e o condicionamento físico do visitante. Possui trilhas por desfiladeiros e sobre as cadeias de montanhas da serra local. Há 14 trilhas turísticas que permitem a visita, com segurança, a mais de 100 sítios de pinturas rupestres. Uma delas fica a menos de 200m do receptivo do parque e traz mais de 3 mil registros desses desenhos, podendo ser visitada por turistas da melhor idade.

Um projeto social vinculado ao parque é desenvolvido pela Fumdham (Fundação Museu do Homem Americano). As pinturas rupestres inspiram a produção cerâmica da fábrica mantida pela fundação. O projeto é autossustentável e visa capacitar a mão de obra surgida com a proibição da caça de animais selvagens na região. A produção da fábrica atende a mercados internos como São Paulo e externos como a Itália. A Fumdham é cogestora do Parque Nacional Serra da Capivara em parceria com o Ministério do Meio Ambiente.

Os visitantes têm três opções de hospedagem: Pousada Hotel Serra da Capivara (fica em São Raimundo Nonato, de propriedade do Governo do Piauí. Cedida à Fumdham, sua operação é terceirizada. Possui loja com produtos relativos à Serra da Capivara), Camping do Sítio do Mocó (próximo ao Centro de Visitantes do parque. Aluga e oferece espaço para barracas e tem restaurante que oferece alimentação sob encomenda) e Albergue Estudantil Barreirinho (a 4km da principal entrada do parque, com diárias que incluem refeições).

Atrativos Específicos

Circuitos:

Entre as atrações do Parque Nacional da Serra da Capivara, destacam-se os seguintes circuitos: Coronel José Dias, Toca do Pajaú, Circuito do Veadinho Azul e Baixão da Vaca pelo Desfiladeiro da Capivara, Baixão da Vaca II e III, Toca da Saída, Paredão dos Veadinhos, Toca do Neguinho Só, Baixão da Vaca I, Projeto Social – Cerâmica, Sítio do Mocó, Fundo do Baião da Pedra Furada, Vista Panorâmica Caldeirão do Rodrigues, Toca do Rodrigues II, Canoas III, Canoas I e II, Baixão das Andorinhas, Toca de Cima do Pilão (caverna iluminada com energia solar), Vista Panorâmica da Serra Talhada, Trilha do Hombú (interpretativa), Toca da Martiliana, Toca da Pedra Furada, Toca da Invenção (pinturas brancas), Toca da Boca do Sapo, Visita ao Camping, Toca dos Coqueiros (Zuzu), Baixão das Mulheres II, Baixão das Mulheres I, Travessia do Alto da Pedra Furada, Gruta do Alto da Pedra Furada, Centro de Visitantes do Parque, Toca do Boqueirão da Pedra Furada, Pedra Furada e anfiteatro, Toca do Cajueiro, Toca do Sítio do Meio, Toca do Boqueirão da Pedra Furada (iluminação noturna).

Baixão das Andorinhas:
Local onde se observa grande quantidade de aves dessa espécie recolhendo-se para seu abrigo noturno: uma gruta situada no alto de um desfiladeiro.

Centro de Visitantes:
Centro de apoio ao público, com lanchonete, auditório para apresentação de vídeos, loja com produtos Serra da Capivara, cerâmica, postais, livros etc.

São Raimundo Nonato:
Em São Raimundo Nonato, a Fumdham desenvolve o projeto social da fábrica de cerâmica da Serra da Capivara e. gerencia o Museu do Homem Americano e o Centro Cultural Sergio Mota, onde são desenvolvidas pesquisas científicas. As descobertas feitas na área levaram arqueólogos a acreditarem que o homem teria habitado o continente americano há mais de 30 mil anos, contrariando as teorias mais aceitas pelos cientistas. O museu conta a história da evolução do homem e tem em seu acervo os achados arqueológicos do lugar: ferramentas em pedra, restos de cerâmica, vestígios de fogueiras, de sepultamentos, esqueletos fossilizados de grandes animais pré-históricos. Deve ser visitado no primeiro dia de estadia em São Raimundo Nonato, como forma de orientação aos roteiros e percursos internos do parque.

OBS: Só é permitida a entrada no Parque Nacional acompanhado de guia oficial. No hotel em São Raimundo Nonato obtém-se orientação sobre a contratação do guia. O parque fica a aproximadamente 40km de distância da cidade. O visitante pode se deslocar em condução particular ou contratar transporte junto ao próprio guia. Não existe sistema regular de transporte para o parque. Os guias são formados pela Fumdham. Existem normas de conduta relativas ao parque, cujo objetivo é educar o visitante e auxiliá-lo na preservação do patrimônio. A Fumdham possui publicações bilíngue e trilíngue relativas ao parque.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Vander Lee

(por Magno Córdova)

A primeira vez que vi Vander Lee no palco ele ainda era Vanderli Natureza. Seu nome assim grafado já era do meu conhecimento através de cartazes anunciando uma ou outra apresentação em bares e espaços mais alternativos de BH em fins dos anos 80.
Em 1990, se não me engano, fui convidado para ser jurado no Festival da Canção de Abre Campo, cidade mineira da Zona da Mata, situada a aproximados 200 km da capital. A desenvoltura com que Vanderli subiu ao palco e o belo número por ele defendido não me deixaram dúvidas de que ali havia um forte candidato ao primeiro prêmio daquele concurso.
Vanderli não venceu o festival, ficou com o segundo ou terceiro lugares o que, de certa forma, me decepcionou, dentre os demais companheiros do juri que optaram por outros candidatos. Chamo atenção para o fato de que havia gente muito boa concorrendo, inclusive um compositor que além de muito talentoso era meu amigo pessoal. No entanto, era indiscutível a superioridade do conjunto entre texto, melodia e desempenho demonstrados por Vanderli.
Ao longo da década de 90, sempre que me deparava com o nome dele - grafado ou não como daquela primeira forma - ficava atento, na expectativa de coisa boa de se ouvir. Não me decepcionei.
A consolidação veio com "No balanço do balaio", de 1997, colocando-o em definitivo dentre o que de melhor estava acontecendo na cena musical local.
Ficou, mais ou menos desse período de passagem de séculos, um registro que creio ter sido aquele que reafirmou seu ingresso para fora dos limites do território de seu estado natal: em seu terceiro disco, "Comigo", gravado em 2001, a maranhense Rita Ribeiro registrou duas canções de Vander Lee: "Românticos" e a que se segue, "Contra o tempo", que não parou de soar em meus ouvidos nos anos subsequentes ao seu lançamento e de minha saída do território mineiro.
Era, mais uma vez, Minas redimensionada no território brasileiro - neste caso, sob a batuta de uma ginga maranhense - que eu precisava levar comigo.
Até que ele ganhasse visibilidade com sua própria voz por todo canto, o que não tardou a acontecer.
Corro contra o tempo pra te ver
Eu vivo louco por querer você
ÔÔ, morro de saudade a culpa é sua
Bares, ruas, estradas, desertos, luas
Que atravesso em noites nuas
ÔÔ, só me levam pra onde está você
O vento que sopra meu rosto cega
Só o seu calor me leva
ÔÔ, de uma estrela pra lembrança sua
O que sou, onde vou, tudo em vão
Tempo de silêncio e solidão
O mundo gira sempre em seu sentido
E tem a cor do seu vestido azul
ÔÔ, todo acaso finda em seu sorriso nu
Na madrugada uma balada soul
Um som assim meio rock n' roll
ÔÔ, só me serve pra lembrar você
Qualquer canção que eu faça tem sua cara
Rima rica, jóia rara
ÔÔ, tempestade louca no Saara
O que sou, onde vou, tudo em vão
Tempo de silêncio e solidão


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Pernambuco falando pra mim (e pra quem quiser ouvir).

(por Magno Córdova)

Quem acompanha o trabalho de Lenine desde o disco Olho de Peixe (com Marcos Suzano, lançado em 93) ouviu dizer, desde lá, de um poeta Recifense chamado Carlos Pena Filho: “... Eu sou um verso de Carlos Pena Filho/ Num frevo de Capiba/ Ao som da Orquestra Armorial...”, diz alguns dos versos de “Leão do Norte”, canção feita em parceria com Paulo César Pinheiro, cujo título alude e homenageia expoentes da cultura do estado natal do cantor/compositor.

Por sua vez, quem conhece a trajetória de Alceu Valença ouviu versos de Pena Filho musicados por ele - também pernambucano, de São Bento do Una - desde seu disco Coração Bobo, que é de 1980.

O poeta Carlos Pena Filho faleceu no mesmo 1º de julho em que Alceu Valença completou 14 anos de idade. O ano era 1960 e Pena Filho morreu precocemente, aos 31 anos. Consagrou-se no universo da canção através de parceria justamente com o mestre Capiba. Pena Filho não chegou a ver as canções de seus versos ganharem projeção pública. E sequer chegou a conhecer alguns dos seus versos em forma de canção.

Solibar

Versos de Carlos Pena Filho
Música de Alceu Valença

Seis dos pingos da goteira
Batucando no passado
E sei que as cinzas da fogueira
não recomporão os galhos
Dia sim e dia não
Dói a minha solidão
Eu tô ficando aperreado

São trinta copos de chopp
São trinta homens sentados
Trezentos desejos presos
Trinta mil sonhos frustrados
No bar 'Savoy' na Sertã
No 'Luna' bar no Leblon
Vejo a tristeza do gado







(Acima, à esquerda, "Rosas Azuis", quadro da viúva Tânia Carneiro Leão, baseado em "Soneto", de Carlos Pena Filho, poema que diz: "Por seres bela e azul e improcedente/ é que sabes que a flor o céu e os dias/são estados de espírito somente,/como o leste e o oeste, o norte e o sul./ como a razão por que não renuncias/ao privilégio de ser bela e azul". À direita, quadro "A mesma rosa amarela", de Tereza Costa Rego, baseado no poema de mesmo nome)

A atualização da poesia musicada em textos de Carlos Pena Filho evidencia-se nessa gravação mais recente de "A mesma rosa amarela", que já fora gravada por inúmeros intérpretes, gente feito Maysa ou Nelson Gonçalves, por exemplo. O registro  aqui encontra-se no primeiro disco de Junio Barreto, lançado em 2004, e foi incorporado à trilha do filme Deserto feliz, de 2007. 


A mesma rosa amarela

Versos de Carlos Pena Filho
Música de Capiba

Você tem quase tudo dela
O mesmo perfume
A mesma cor, a mesma rosa amarela
Só não tem o meu amor
Mas nestes dias de carnaval
Você vai ser ela
O mesmo perfume, a mesma cor
A mesma rosa amarela
Mas não sei o que será
Quando chegar a lembrança dela
E de você apenas restar
A mesma rosa amarela
A mesma rosa amarela

Legenda e imagens de “A mesma rosa amarela” e “Soneto” extraídas do portal vermelho: http://www.vermelho.org.br/noticia/142737-1